Aí está Minas
A mesa mineira é a expressão de muitos encontros e trocas e a sua aparente simplicidade é cheia de contornos nada simples que nos identificam e nos diferenciam
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Em julho, comemoramos o Dia da Gastronomia Mineira, mais precisamente no dia 5, não por acaso data do aniversário de Eduardo Frieiro, autor do clássico “Feijão, angu e couve – ensaio sobre a comida dos mineiros”, o primeiro estudo sobre a nossa deliciosa cozinha, publicado em 1966.
Não vou falar sobre esse livro, ele anda comigo pra lá e pra cá, e mora no meu coração, mas isso é outra história. Hoje eu quero falar mesmo é sobre comida mineira, ainda mais que acabo de chegar de uma viagem a Portugal e, quando a gente se afasta de casa, comida vira sinônimo de saudade.
Acontece comigo, mas aposto que com você também: chego doida pra comer arroz, feijão, angu, couve, quiabo, carne moída e um ovo frito. Comida de Minas, de beira de fogão, de mesa com a família reunida conversando fiado, contando caso, dando risada. Refeição que não acaba, vai emendando uma na outra, passa o café, assa um pão de queijo, bate um bolinho, pode até ser de nada, bolo-bolo, porque bom mesmo é essa mexida na cozinha com todo mundo por perto. Com esse frio é capaz de logo, logo sair um caldinho de mandioca, uma canjica ou qualquer outra coisa que saiba despistá-lo.
E não só isso. Falar de comida mineira é falar de muitas coisas, a nossa mesa não se resume a ingredientes e pratos típicos. Mesmo porque são muitos preparos que pipocam pelas diferentes Minas expressando diferentes escolhas e preferências. Com Frieiro aprendi que a comida mineira é complexa, é pluritonal, não cabe em definições limitantes, faz parte da nossa carteira de mineiridade.
A mesa mineira é a expressão de muitos encontros e trocas e a sua aparente simplicidade é cheia de contornos nada simples que nos identificam e nos diferenciam. Uma comida que se revela, por exemplo, no gesto genuíno de mexer o feijão-tropeiro, “cuidado para não machucar os grãos! Mexe assim ó: de baixo pra cima, levantando tudo de uma vez, balança a panela e começa de novo!”.
A voz da memória continua a receita: “os pevides precisam ficar brilhantes, embebidos na medida exata de gordura. Os trupicos cada casa escolhe os seus, mas linguiça não pode faltar, pelamordedeus! A farinha, menina, tem que ser bem dosada, não pode ficar seco demais e nem empapar. Os ovos você mexe numa frigideira separada, coloca antes da farinha e mexe tudo junto de novo. Não esquece o cheiro-verde. Couve eu não misturo! Tem que ser assustada na gordura com bastante alho na hora de servir, viu?” E assim vai!
Quando o assunto é doce, não tem jeito, vem rapidinho na cabeça enchendo a boca de água a goiabada, o doce de leite e os infinitos doces de frutas em calda. Nossa fama de lambareiros vem de longe. Lá no século 19, o viajante francês Saint-Hilaire observou a nossa habilidade no preparo de doces e geleias, porém censurou o excesso de açúcar que, para ele, por vezes mascara o gosto da fruta. Outros estrangeiros estranharam o hábito de comermos doce com queijo, “heresia culinária, na opinião desses mestres do assunto”, ironiza Eduardo Frieiro. Sabem de nada!
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A escolha do que vai pra panela, a combinação servida nas refeições, o jeito de dizer: aceita um cafezinho? Se não aceitar, é desfeita! Tudo isso fala sobre a nossa cozinha e o nosso jeito de receber e fazer carinho, de agradar a visita, de estar no mundo e em Minas Gerais!
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.
