Juliana Duarte
Juliana Duarte
Chef e proprietária do restaurante Cozinha Santo Antônio, onde apresenta um trabalho autoral unindo gastronomia e história. Também é mestre em história social da cultura pela UFMG e desenvolveu pesquisa sobre a cozinha de Minas Gerais.
TÁ NA MESA

A comida da minha casa

Quando criança, eu adorava subir num banquinho e ficar pendurada na beira da bancada observando seus gestos minuciosos

Publicidade

Mais lidas

Na minha casa, comida sempre foi assunto e motivo para bons encontros. As conversas intermináveis sobre o cardápio do dia, os planos para a próxima refeição, as lembranças de um tio guloso, o caso de outro que colocou farinha de mandioca no macarrão e ficou para sempre estigmatizado, a amiga que fazia as piores quitandas de toda a cidade, o peru do Natal que era marinado na lata de arroz e precisava levar um tombo de madrugada para pegar direitinho o tempero. Era assunto que não acabava mais. E se acabava, a gente subia a rua para pegar o fim da refeição na casa da vizinha e continuar a prosa.

Fique por dentro das notícias que importam para você!

SIGA O ESTADO DE MINAS NO Google Discover Icon Google Discover SIGA O EM NO Google Discover Icon Google Discover


A minha mãe era cozinheira dedicada, gostava de livros e ideias novas. Dava conta da rotina de dona de casa, fazia compras, limpava a carne e tirava bifes com cuidado e economia. Quando criança, eu adorava subir num banquinho e ficar pendurada na beira da bancada observando seus gestos minuciosos. Dizem que esse banquinho foi feito para uma cozinheira da minha vó que era muito baixinha e mal alcançava o fogão.


Vovó não era muito dada a cozinha, ficava brava se a gente comia muito os regalos que ela preparava. Era especialista em pastel e pudim de pão feito com sobras guardadas em um saquinho de pano pendurado na despensa, mas não mexia com panelas e fogo. Na casa sempre tinha alguém para ajudar, Marias, Antônias, Vilmas, Cidas, Das Dores sentadas no degrau da porta cortando couve toda vida, bem fininha.


Era ela também que fazia o melhor croquete do mundo, o verdadeiro, crocante por fora e molhadinho por dentro. Sem receita, pois tinha carnes reaproveitadas de um caldo feito para o macarrão ou de uma pontinha de lagarto do almoço de ontem.


Custei a ver poesia no jeito dessas mulheres cozinharem e a apreciar essa cozinha do cotidiano, sem frescura e sem excesso, mas tão amorosa! Aquela comidinha do dia a dia, da mesa posta onde sempre cabia mais um, do esforço criativo de todo dia servir alguma coisa diferente para ninguém enjoar. E o capricho em colocar tudo bonitinho nas travessas, de enrolar o guardanapo de pano, de fazer o suco, de garantir a sobremesa e nunca esquecer da farinheira e do vidro de pimenta.


Nos fins de semana era diferente. Nunca tinha feijão, a louça e os talheres eram outros e os pratos tinham que ser extraordinários. Graças a autoras fabulosas como Helena Sangirardi, Maria Rosalina e Maria Thereza Weiss e às revistas femininas da época, o cardápio sempre tinha novidades: estrogonofe, salpicão, rosbife, suflê, mousse de pepino, pavê! Tudo isso alternado com maestria a pratos da mesa mineira que não podiam faltar. Com eles as cozinheiras ficavam à vontade e a família toda se sentia em casa.


O lombo assado era o melhor do mundo, nem com diploma e forno combinado consigo repetir a proeza daquele lombo da minha mãe, aquele descrito por Rubem Braga em seu “Almoço mineiro”: “O lombo era o essencial, e a sua essência era sublime. Por fora era escuro com tons de ouro. A faca penetrava nele tão docemente como a alma de uma virgem pura entra no céu. A polpa se abria, levemente enfibrada, muito branquinha, desse branco leitoso e doce que têm certas nuvens às quatro e meia da tarde, na primavera. O gosto era de um salgado distante e de uma ternura quase musical. Era um gosto indefinível e puríssimo como se o lombo fosse lombinho da orelha de um anjo louro”.

Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia


Nuh! Que delícia! Te dou um prêmio se você adivinhar qual era o acompanhamento!

As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.

Tópicos relacionados:

avo cozinha gastronomia mae pudim

Acesse o Clube do Assinante

Clique aqui para finalizar a ativação.

Acesse sua conta

Se você já possui cadastro no Estado de Minas, informe e-mail/matrícula e senha. Se ainda não tem,

Informe seus dados para criar uma conta:

Digite seu e-mail da conta para enviarmos os passos para a recuperação de senha:

Faça a sua assinatura

Estado de Minas

Estado de Minas

de R$ 9,90 por apenas

R$ 1,90

nos 2 primeiros meses

Aproveite o melhor do Estado de Minas: conteúdos exclusivos, colunistas renomados e muitos benefícios para você

Assine agora
overflay