Renata Rocha
Renata Rocha
Arquiteta por 20 anos e padeira há quase 10, Renata Rocha fundou a Albertina Pães Especiais, em Belo Horizonte, onde pesquisa fermentação natural e escreve sobre gastronomia e as delicadas tragédias e prazeres de quem trabalha com comida.
CONTÉM GLÚTEN

O tempo das coisas

Vivendo em uma época de imediatismos, me encantei por esse processo vivo e incontrolável, que tem seu próprio meio de acontecer

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Uma das coisas mais importantes que aprendi ao fazer pães foi respeitar o tempo.

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Antes de entrar na panificação, achava que a paciência e a espera estavam ligadas a uma certa passividade. Trabalhando como arquiteta de eventos corporativos, o que eu vivia era exatamente o oposto: urgência, imediatismo, prazos impossíveis: tudo era para ontem, pois hoje já teríamos um novo projeto. Mas, em vez de me sentir estimulada por esse ritmo, estava cada vez mais frustrada diante da impossibilidade de maturar ideias, de acompanhar processos, de ver as coisas nascerem e crescerem.

Foi então que me deparei com um outro tipo de tempo.


Vivendo em uma época de imediatismos, me encantei por esse processo vivo e incontrolável, chamado fermentação natural, que tem seu próprio meio de acontecer. É preciso sentir a massa, sentir a temperatura, misturar, esperar, descansar, fermentar, dobrar… e, quanto mais íntimo desse tempo ficamos, maior é a alegria da surpresa.



Comecei a entender que paciência é amadurecimento e humildade. É fundamental perceber que o mundo não gira em torno do nosso desejo e que é preciso agir para transformá-lo, mas que isso definitivamente não acontece de uma hora para a outra.


Dentro da padaria, essa lição deixa de ser abstrata e passa a ser muito concreta. É inútil querer acelerar os processos e o máximo de controle que conseguimos ter vem da observação: interpretar os sinais e ajustar o caminho. Nunca existirá um método infalível que funcione bem o tempo todo (e talvez seja justamente isso que torna esse ofício tão desafiador). É um trabalho muito técnico de análise, repetição e presença.


Depois de alguns anos fazendo dezenas de pães todos os dias, posso dizer que tenho mais segurança no processo, não porque passei a controlá-lo, mas porque aprendi a dialogar com ele. E ao contrário do que os coachs de internet te contam, esse não é um tipo de conhecimento que se adquire rapidamente.


Talvez por isso a minha própria transição de carreira tenha seguido exatamente o mesmo caminho.


Começar uma nova carreira depois dos 40 anos não estava nos meus planos e, durante muito tempo, fazer pão foi apenas um interesse paralelo, um hobby silencioso. Mas, aos poucos, aquilo foi ganhando espaço, profundidade, sentido e quando percebi já não era mais possível ignorar. A mudança não foi brusca, nem impulsiva, ela foi construída lentamente, ao longo de anos.


Em um dado momento, não só tinha certeza de que meu prazer estava na cozinha e no ofício de padeira, como sentia também uma obstinação enorme, uma vontade muito clara de dedicar todo o meu tempo a isso. E a única forma de fazer seria… fazendo. Não existe escola para isso, é preciso viver.


Produzi pães por dois anos dentro da minha casa até finalmente abrir minha padaria e, de certa forma, sigo nesse processo até hoje.


Minha rotina mudou completamente. Trabalho muito mais horas do que antes e a produção exige planejamento. O pão que vendo hoje começou a ser feito ontem e muitos preparos precisam acontecer bem antes, no início da semana. E, ainda assim, todos os dias há alguém na porta pedindo algo que ainda não está pronto ou que já esgotou.


É curioso perceber que, ao aprender a esperar, acabei ensinando isso também. Aos poucos, os clientes entendem, voltam no dia seguinte, ajustam suas expectativas e existe ali uma pequena transformação acontecendo, quase imperceptível, mas muito real.


Li certa vez que “as virtudes não nascem do nada, aguardam investimento e convicção”, e isso não poderia ser mais verdadeiro. Só me tornei uma boa padeira por ter insistido nesses dois pontos, aos quais eu acrescentaria uma terceira camada, menos elegante, mas igualmente verdadeira: uma dose generosa de obsessão.

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Existe dentro de mim uma busca constante por uma perfeição utópica, sentimento que me dá uma rasteira vez ou outra, mas na maioria dos dias me estimula a seguir tentando. Tenho esse pão ideal na minha imaginação e sigo perseguindo esse miolo, essa casca, esse sabor... Não sei exatamente se um dia ele sai, mas a jornada é o que interessa.

As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.

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