Sartre, o ser e o vinho
A coisa está num ponto que quem abre uma garrafa de vinho, come um espaguete ou um steak parece um dissidente
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A quem interessa esta campanha contra as bebidas alcoólicas? O moralismo persecutório pautado pelos influenciadores que parecem acreditar serem imortais está dominando as redes sociais. O mais recente é dizer que quem consome bebida alcoólica tem alta chance de ficar demente.
Se fosse desta forma, o mundo já estaria há milênios dominado por mutantes como em “The last of us”. França, Itália, Espanha e Portugal seriam países habitados por milhares de dementes pelo vinho e Alemanha e Bélgica pelos dementes da cerveja.
Querem acabar com toda a indústria da vitivinicultura mundial? Levar todo mundo à falência? Quando tomo um vinho, é muito mais do que álcool, que é, em média, 13% do conteúdo da garrafa, álcool este que, inclusive, veio de um processo natural da fermentação da uva. O restante é o seu suco, a madeira onde eventualmente esteve armazenado, a terra e o clima de onde foi feito, suas histórias e tradições, a luta a favor e contra a natureza, está tudo lá. Toda esta história e tradição merecem respeito.
Bebida em excesso faz mal, não quero aqui me delongar no óbvio. Não se trata de defender alcoolismo nem os excessos, mas, juntando com a onda das canetas emagrecedoras e do maior sucesso de todos os tempos da onda fitness da última semana, comer e beber viraram crime, pega mal ter prazer e tudo isso em nome de quê?
Não fomos feitos para durar para sempre, tomando vinho ou não, comendo manteiga ou não. Vamos lá, equilíbrio ou o mais próximo que possamos estar perto disso é importante, saúde é fundamental, mas a humanidade vive há séculos bebendo vinho, cerveja, uísques e outras bebidas, comendo carnes variadas, tubérculos, frutas e legumes.
Quando começam a surgir campanhas, seja elogiando um novo remédio milagroso ou um pozinho mágico para te fazer mais forte, saudável e curar todas as suas mazelas, imagino que alguém está ganhando muito dinheiro com isso. E nesta perseguição a bebida alcoólica também.
Laboratórios? Trocar vinho por remédio? Não posso afirmar, mas há algo de podre no reino desta cruzada supostamente pela saúde. Comer carne vermelha é proibido, ovo já foi vilão e hoje faz bem, cozinhar feijão com carnes, diz uma linha de nutricionistas, é ruim (como fica, então, a feijoada?).
A coisa está num ponto que quem abre uma garrafa de vinho, come um espaguete ou um steak parece um dissidente. Confesso que sempre gostei de ser um. Pauto a minha conduta na liberdade de escolher o que acho melhor para mim e arco com as consequências. Sartre foi e segue sendo um dos meus mestres.
E os refrigerantes? Não merecem uma campanha igualmente persecutória? E onde já se viu dezenas de produtos industrializados, como as barrinhas diversas, serem tidas como saudáveis? Saúde é um conceito muito mais amplo, envolve lazer, trabalho, senso de pertencimento, relacionamentos sociais positivos e, sim, compartilhar da boa mesa com quem se gosta.
Os ativistas da gastronomia condenam o foie gras. Mas não têm pena do frango de granja, nem da vaca. Pegam um item para bode expiatório enquanto o bode mesmo segue na buchada.
Na época dos algoritmos, os cardápios hoje têm que ser customizados ao gosto de cada um, sem lactose, sem glúten, sem açúcar. No final das contas é um menu sem nada.
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Para mim saúde é um pão de fermentação artesanal passado na manteiga ou num bom azeite e acompanhado de uma taça de vinho. Está, inclusive, na Bíblia. É sagrado. Só faz bem. Com uma boa companhia, então, é divino.
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.
