Mesa para um
Às vezes o melhor é gozar de uma ótima companhia quando há um bom nível de autoestima: você mesmo
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Uma das coisas supostamente constrangedoras em restaurantes são pessoas que saem para jantar sozinhas. O olhar de pena e condescendência do salão é inevitável. Revela o medo que os outros têm da solidão, quando é apenas a solitude fruto de uma escolha.
Sair com aquele amigo pavão, com os que “engoliram um rádio”, ouvir discursos narcísicos, ser usado na hora de dividir a conta, ter que ouvir piadas machistas, misóginas, homofóbicas ou polêmicas políticas de tendências diversas na hora do lazer não valem a pena.
A hora do pagamento é sempre delicada. Algumas pessoas simplesmente não podem pagar os excessos dos pedidos alheios: não bebem e têm que pagar pela bebida, pedem um prato normal enquanto o outro pede o mais caro.
Existe a defesa do “sentou junto, pagou”. Se o consumo foi mais ou menos o mesmo, faz sentido. Estraga o clima a pessoa que pega a calculadora e soma cada água mineral que cada um pediu. Mas quando há discrepâncias o esperado seria a pessoa que gastou a mais dizer que vai arcar com a diferença. “Conta dividida de forma justa, amigos para sempre”, me disse uma vez uma amiga. A frase é boa.
Algumas pessoas estão evitando sair com outras por esta causa, pela angústia de ter que gastar o a mais que não podem. Um bom artigo que li há pouco se intitulava: “Não é você que está negativo, é a sua conta”.
Somando todos estes fatores, às vezes o melhor é gozar de uma ótima companhia quando há um bom nível de autoestima: você mesmo.
A escritora M.F.K Fisher escreveu “Antes só” no seu espetacular livro, “Um alfabeto para gourmets”. Ela dizia que, por ser jornalista e crítica de gastronomia, ninguém a convidava para jantar, achando que ela era uma gourmet esnobe e ficaria avaliando tudo. Escrevi uma coluna sobre isso neste espaço, o apelo “Convidem um chef”.
Chegou o momento em que a escritora decidiu levar consigo um livro aos restaurantes e curtir o seu jantar sozinha. Normalmente, era colocada naquela mesa perto do banheiro ou quase escondida atrás de um biombo. Ela não se incomodava. E há a apreensão dos garçons da pessoa que sai sozinha gastar pouco, o que não faz sentido. Muitas vezes, ela vai gastar mais do que mesas maiores.
O segundo capítulo de “Um alfabeto para gourmets é a letra “B” de “Boa companhia”. É de fato um grande prazer dividir a mesa com uma companhia que se pode chamar de boa, seja um date, um par num casamento longevo, um bom amigo ou amiga, faz a noite valer a pena.
Há outros hábitos bons também de se fazer sozinhos, como cozinhar só para você, se o seu par está viajando ou se você mora sozinho: arrumar a mesa, abrir um vinho, colocar uma música de fundo e curtir.
Ir ao cinema também funciona. Não vamos conversar – espera-se – durante o filme. E nem sempre o nosso gosto é o mesmo dos outros, podemos adorar o filme e os amigos não (e vice-versa). Melhor conversar depois no bar ou no restaurante.
Nos eventos que faço, digo aos participantes que é normal virem sozinhos, que tenho mesas coletivas e também a mesa para um. Às vezes, a pessoa quer vir ao evento, aqui ou em outro lugar, e deixa de ir porque não tem companhia, ouviu alguns “não consigo” – isso já foi tema de outra coluna minha – e acaba se privando de um programa que gostaria de fazer.
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M.F.K. Fisher finaliza seu livro sugerindo a mesa perfeita num jantar: seis pessoas, quatro casados e dois solteiros ou separados. Trará uma saudável tensão à mesa. Desestabiliza o equilíbrio social e às vezes a falta de tempero da mesa só de casais. O “avulso” trará o sal e a pimenta.
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.
