ENTREVISTA

Manoel Beato: "Minas, para mim, tem gosto de casa"

Com mais de 35 anos de experiência no mundo dos vinhos, o sommelier do Grupo Fasano conduzirá dois jantares harmonizados em Belo Horizonte no fim deste mês

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Nos dias 28 e 29 de outubro, o restaurante Gero, no Lourdes, Região Centro-Sul de Belo Horizonte, recebe o sommelier executivo do Grupo Fasano, Manoel Beato, para jantares harmonizados. O primeiro combinará espumantes com frutos do mar; o segundo será focado em rótulos franceses e pratos variados, como pato, robalo e cordeiro. O valor de cada experiência é de R$ 890 por pessoa, incluindo harmonização e bebidas não alcoólicas. A taxa de serviço de 15% não está incluída.

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Em entrevista ao Degusta, o profissional, que tem mais de 35 anos de experiência com vinhos, destacou o que esperar dos eventos e se declarou admirador da cultura mineira. Confira:



Me conta da sua vinda a BH. Faz muito tempo que não vem aqui?


Faz dois anos, e já estava com saudades. Belo Horizonte tem uma relação muito natural com a mesa: as pessoas gostam de comer bem, de receber, de conversar sem pressa. Voltar para dois jantares no Gero, com um público assim, é um prazer!


Qual a sua relação com Minas Gerais? Seja em termos de gastronomia, cultura, literatura, música…


Nossa! Nem me fale. Sou meio caipira, de Vera Cruz, no interior de São Paulo, uma cidadezinha cuja comida já tem muito da mineira. Então Minas, para mim, tem gosto de casa.


Na literatura, o maior escritor do Brasil, para mim, é Guimarães Rosa. E a música que nasce em Minas na virada dos anos 1960 para os 70, com o Clube da Esquina, é das mais ricas do mundo. Ouço sempre. E há tantos outros para além do Clube, como Ivan Vilela. É uma cultura que me acompanha há muito tempo.



Sobre os jantares no Gero em BH, o que o público pode esperar? O que há de mais especial, que não se encontra usualmente na operação belo-horizontina?


Serão dois jantares harmonizados dos mais instigantes, cada um com uma proposta bem definida. No primeiro, só espumantes: do Prosecco a champagnes como Moët & Chandon, Piper-Heidsieck e Veuve Clicquot, passando por um brasileiro, o Cave Geisse, e um italiano, o Ferrari Perlé. Ele acompanha um menu de frutos do mar. O segundo é um passeio pelas regiões francesas, da Champagne a Sauternes, passando pela Alsácia, pela Borgonha, pelo Rhône e por Bordeaux.


O que há de especial é a possibilidade de percorrer um tema do início ao fim, numa sequência pensada, com tempo para provar, comparar e conversar sobre cada taça. Não é algo que se faz todos os dias.


Você já afirmou, em entrevista, que o papel do sommelier vai muito além do vinho. Nos jantares em Belo Horizonte, onde mais tem o “seu dedo”?


Certamente na hospitalidade, na naturalidade do serviço, na forma de abordar o beber e o comer. O vinho é o pretexto. O que fica é a experiência à mesa, e ela precisa ser leve, sem cerimônia excessiva.



E não estou sozinho: tenho o apoio do Gustavo Giacchero, gerente de alimentos e bebidas e sommelier do Fasano BH, que é um dos melhores sommeliers de Minas Gerais.


O que é essencial e base de uma harmonização? Muito falamos disso, mas, afinal, o que é harmonizar e o que é a desarmonia?


Harmonizar é buscar equilíbrio, para que o vinho e o prato fiquem melhores juntos do que separados. Para isso, devemos pensar na intensidade e no leque de aromas, na consistência e na textura, tanto da bebida quanto do prato. Um prato delicado pede um vinho delicado. Um prato mais estruturado aguenta um vinho com mais corpo.


A desarmonia acontece quando um se sobrepõe ao outro e apaga o que ele tem de bom. Nos jantares, há bons exemplos do contrário: o semifreddo de figo com o Sauternes, em que doçura e acidez se encontram, ou as vieiras com açafrão ao lado de um champagne, em que a borbulha limpa e prepara o paladar para a próxima garfada.


É imprescindível, sempre, provar? Você conhece todos os pratos que serão servidos?


Sim, tanto os vinhos quanto os pratos. Conheço todos eles, ainda que, em algumas etapas, não tenha provado os dois juntos. E aí entra a experiência: quando se conhece bem cada um dos lados, é possível antecipar como vão conversar.



A seleção foi feita a seis mãos, com o Gustavo Giacchero e com o William Lima, chef do Gero. O William conhece a cozinha como ninguém, e o Gustavo conhece o paladar de quem frequenta a casa. Partimos dos vinhos e fomos ajustando os pratos para que cada etapa tivesse sentido dentro da sequência. A prova final, de qualquer forma, é sempre à mesa.


Não é o foco de nenhuma das noites, mas não posso deixar de lhe perguntar sobre os vinhos mineiros. Qual a sua relação com eles? E quão longo ainda é o caminho que essas produções devem percorrer?

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O caminho ainda é longo em relação ao aprimoramento. É natural, porque é uma produção recente. Mas já surpreende que, em tão pouco tempo, tenhamos ótimos vinhos mineiros. É um trabalho que merece atenção e que acompanho com curiosidade.


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