Jéssica Balbino
Jéssica Balbino
Jornalista e curadora de eventos literários no Brasil, escreve sobre corpos dissidentes. Criadora do Margens, projeto que difunde conteúdo sobre mulheres periféricas na escrita.
BODY POSITIVE

Por que é tão importante fazer mulheres odiarem o próprio corpo?

Em palestra no Summit Profissões, Ana Paula Renault faz uma pergunta incômoda: quem lucra quando mulheres passam a vida acreditando que nunca são suficientes?

Publicidade

Mais lidas

Há dois dias, durante o Summit Mulheres nas Profissões, em São Paulo (SP) a jornalista mineira Ana Paula Renault subiu ao palco para falar sobre confiança, carreira e autonomia feminina. Ela vem fazendo palestras pelo país desde que ganhou o BBB 26 em abril deste ano. Inspirada em uma reflexão da atriz Leandra Leal, que afirmou que “a forma mais barata de dominar uma mulher é fazê-la acreditar que não é suficiente, que não é bonita e que nunca estará no padrão imposto pela sociedade”.

Fique por dentro das notícias que importam para você!

SIGA O ESTADO DE MINAS NO Google Discover Icon Google Discover SIGA O EM NO Google Discover Icon Google Discover

Durante e depois da palestra, Ana Paula reforçou a ideia para seus mais de 10 milhões de seguidores: a confiança não é um sentimento, mas uma consequência. Ela nasce quando damos o primeiro passo, mesmo carregando medo, insegurança e a sensação de não estar pronta.

O que mais me chamou a atenção, porém, foi a lucidez do discurso. Em um tempo em que até parte do mercado se apropriou do body positive para transformá-lo em mais um produto, e em que influenciadoras de todos os espectros continuam dizendo às mulheres como elas devem existir, Ana Paula fez o movimento contrário. Em vez de vender autoestima, apontou para a estrutura que produz a falta dela. Não é uma diferença pequena.

Não é segredo para ninguém que sou fã da Ana Paula Renault. Acompanho sua trajetória desde o primeiro BBB, já escrevi sobre ela outras vezes e, talvez por isso, tenha ficado tão feliz ao vê-la usar a visibilidade que construiu para fazer um debate que raramente ganha espaço nas redes sociais e fora delas, como foi feito. Sabemos nesta coluna como este tema me é caro. Ela fala diariamente com milhões de pessoas. Naquele dia, porém, falava olhando nos olhos de centenas de mulheres. Para mim, foi o momento mais potente entre todas as falas do evento.

Imagino que justamente por isso tenha sido também um dos mais criticados, posteriormente. Bastaram algumas horas para que páginas de fofoca e perfis nas redes sociais reduzissem sua fala a uma polêmica sobre aparência. É curioso como, quando uma mulher aponta para a estrutura, há sempre uma pressa em trazer o debate de volta ao indivíduo. É mais confortável discutir se ela exagerou do que perguntar por que tantas mulheres passam a vida acreditando que nunca serão bonitas, jovens ou suficientes.

Foi impossível não ouvir Ana Paula sem lembrar da coluna que publiquei aqui há poucos dias, em que relacionei o retorno da magreza extrema aos mecanismos históricos de controle dos corpos femininos. Na ocasião, argumentei que o feminicídio não começa na agressão física. Ele começa muito antes, quando aprendemos quais corpos merecem desejo, proteção e dignidade e quais podem ser corrigidos, disciplinados ou descartados.

A fala de Ana Paula amplia essa discussão por outro caminho: o da autoestima como tecnologia de poder. Porque nenhuma mulher nasce odiando o próprio corpo. Isso é aprendido.

Aprendemos nas revistas dos anos 2000, quando modelos extremamente magras ocupavam todas as capas e definiam sozinhas o que era considerado belo. Aprendemos na televisão, na publicidade e, hoje, nos algoritmos das redes sociais, que transformaram comparação em modelo de negócio. Aprendemos que sempre há alguma coisa para corrigir: emagrecer, rejuvenescer, esconder rugas, perder medidas, parecer mais delicada, mais desejável, mais aceitável.

A socióloga estadunidense Sabrina Strings demonstra que a obsessão contemporânea pela magreza não nasceu da preocupação com saúde, mas de um longo processo histórico que associou determinados corpos ao autocontrole e à superioridade moral, enquanto outros - especialmente corpos negros e gordos - passaram a representar excesso, desordem e falta de disciplina. A magreza, portanto, nunca foi apenas uma estética. Tornou-se um marcador de valor social.

Naomi Wolf escreveu, ainda nos anos 1990, que o mito da beleza se fortalece justamente quando as mulheres conquistam mais liberdade. À medida que ocupam universidades, empresas, parlamentos e espaços de decisão, surgem novas exigências sobre seus corpos. O controle apenas muda de roupa.

No Brasil, a filósofa Malu Jimenez vem mostrando que a gordofobia não atua sozinha. Ela se cruza com raça, gênero, classe e capacitismo para definir quais corpos serão considerados legítimos e quais viverão sob permanente vigilância. Roxane Gay, por sua vez, escancara como a gordofobia produz um processo contínuo de desumanização. E corpos desumanizados sempre encontram menos empatia, menos proteção e menos justiça. A jornalista Néliane Simioni nos fala da subjetividade do “tornar-se gorda”.

É por isso que não consigo ler a fala da Ana Paula apenas como uma mensagem sobre autoestima. Ela está falando de poder. E de estrutura opressiva.
Quando afirma que a forma mais barata de dominar uma mulher é fazê-la acreditar que nunca será suficiente, descreve exatamente a lógica que sustenta uma indústria bilionária e um sistema social muito mais amplo. Primeiro produzem a insegurança. Depois oferecem a solução. Ou as soluções. E ninguém nunca está satisfeito.

Primeiro convencem mulheres de que seus corpos são um problema. Depois transformam esse problema em mercado.

É um mecanismo sofisticado porque faz parecer escolha aquilo que muitas vezes é condicionamento. Hoje, a vigilância chega travestida de bem-estar, de produtividade, de performance, de “melhor versão de si mesma”. Não se mede apenas beleza. Medem-se calorias, percentual de gordura, juventude, disciplina, eficiência. O corpo continua sendo monitorado, apenas mudou a linguagem.

Foi justamente isso que escapou aos críticos da palestra. Ana Paula não estava dizendo às mulheres para simplesmente se amarem. Ela estava perguntando quem ganha quando elas passam a vida tentando diminuir seus corpos, suas vontades e sua presença no mundo.

Essa pergunta importa. Importa imensamente.

Uma mulher ocupada odiando o próprio corpo tem menos tempo para disputar poder, construir autonomia, negociar melhores salários, romper relações violentas, ocupar espaços e produzir outras formas de existência.

Gostar de si, então, deixa de ser uma questão de vaidade e passa a ser uma questão de autonomia.

Suponho que por isso que a fala tenha provocado tanta reação. Porém, aprendemos com Ana Paula que tá tudo bem ser mal-vista. Ela não ofereceu uma nova dieta, um protocolo de autocuidado ou uma fórmula para aumentar a autoestima. Fez algo muito mais incômodo: apontou para o sistema que transforma a insegurança feminina em negócio.

Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia

Aqui mora toda questão: quando a conversa deixa de ser sobre espelho e passa a ser sobre poder, fica muito mais difícil desviar o olhar. Desejo, de verdade, que ter uma pessoa como Ana Paula Renault à frente desse guia, nos faça perceber como esse mecanismo opera e consigamos nos desgarrar dele.

As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.

Acesse o Clube do Assinante

Clique aqui para finalizar a ativação.

Acesse sua conta

Se você já possui cadastro no Estado de Minas, informe e-mail/matrícula e senha. Se ainda não tem,

Informe seus dados para criar uma conta:

Digite seu e-mail da conta para enviarmos os passos para a recuperação de senha:

Faça a sua assinatura

Estado de Minas

Estado de Minas

de R$ 9,90 por apenas

R$ 1,90

nos 2 primeiros meses

Aproveite o melhor do Estado de Minas: conteúdos exclusivos, colunistas renomados e muitos benefícios para você

Assine agora
overflay