Jéssica Balbino
Jéssica Balbino
Jornalista e curadora de eventos literários no Brasil, escreve sobre corpos dissidentes. Criadora do Margens, projeto que difunde conteúdo sobre mulheres periféricas na escrita.
ARTIGO

Viih Tube e Eliezer transformam trabalho em espetáculo sombrio de dominação

Retirada do programa das redes não encerra o debate sobre consentimento, poder e dignidade nas relações de trabalho, mas tensiona o debate

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Imagina um reality show onde um casal de influencers (ex-participantes de reality, inclusive) têm qeu limpar quintal, esfregar banheiro, fazer reboco, preparar as marmitas da semana, cuidar dos próprios filhos (pasmem!), enfrentar transporte público lotado às 6h da manhã e passar o dia todo sem poder postar absolutamente nada na internet - nem mesmo pegar no telefone. Te apetece? 

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Ao final, não valeria R$ 60 mil. Valeria um salário mínimo no final do mês. A internet chamaria de entretenimento, claro, mas, que fique claro: há muito tempo deixou de ser. 

O novo reality batizado como “As Patroas” foi criado por Viih Tube e Eliezer, em que funcionários da casa de ambos disputam um prêmio em dinheiro por meio de provas e desafios, foi apresentado como algo leve, divertido e uma brincadeira entre pessoas próximas. É aí que mora o problema: nenhuma brincadeira é realmente livre quando quem convida também assina sua carteira de trabalho.

Pouco tempo depois de ser veiculado, lançado na última terça-feira (30), o programa sofreu uma enxurrada de críticas - seja bem-vindo a mais uma delas - e foi apagado das redes sociais e do canal do YouTube. No reality, os funcionários competiam por dinheiro, redução da carga de trabalho (ai ai) e outros “benefícios”. 

Nas redes sociais, Viih chegou a explicar que a ideia foi dela e que o marido, Eliezer, 36, adorou a dinâmica. Ela ressaltou, em vídeo publicado em sua conta no Instagram, que os funcionários que se recusassem a participar seriam automaticamente "eliminados".

Vivemos um momento em que o Brasil finalmente começa a discutir a redução da jornada de trabalho, o fim da escala 6x1, saúde mental, esgotamento e o direito básico ao descanso. Enquanto milhões de trabalhadores reivindicam tempo para viver, uma parcela da elite transforma a relação entre patrão e empregado em conteúdo para as redes sociais.

Há quem diga que "eles aceitaram participar". Essa é uma frase absolutamente confortável para quem nunca precisou aceitar muita coisa para continuar empregado e/ou sobrevivendo. 

O Direito do Trabalho existe justamente porque reconhece que empregador e empregado não ocupam o mesmo lugar de poder. Se ocupassem, não precisaríamos de férias remuneradas, décimo terceiro, limite de jornada, FGTS, licença médica ou normas de proteção. A legislação parte do princípio de que essa relação é estruturalmente desigual. Por isso, consentimento não é uma palavra tão simples quanto parece.

Quando quem pode demitir também convida para brincar, o "sim" nunca é completamente livre e é importante que esse limite seja claro o suficiente para entendermos que, espontaneamente, poucas pessoas topariam entrar no “reality” pelo dinheiro e/ou oportunidade, mas, diante do medo do desemprego, disseram sim à superexposição, às situações vexatórias e a servirem de entretenimento pros patrões, que propositalmente, sujaram a casa para que limpassem e se divertiram com isso. 

Repugnante assitir aos cortes que vi, confesso. De deixar Luciano Huck constrangido (tá, exagerei!). 

Não se trata de dizer que houve necessariamente uma ilegalidade. Caberia a especialistas e, eventualmente, à Justiça analisar qualquer situação concreta. Mas é impossível ignorar a assimetria de poder existente quando empregados passam a disputar dinheiro diante das câmeras de seus próprios patrões. Há um evidente constrangimento estrutural. Afinal, quantos trabalhadores se sentiriam verdadeiramente confortáveis para responder "não quero participar" sabendo quem paga seu salário?

O prêmio de R$ 60 mil é, curiosamente, o detalhe menos importante dessa história, justamente porque o dinheiro serve como verniz para uma dinâmica muito mais antiga: transformar necessidade em espetáculo.

Durante séculos, trabalhadores foram exibidos em programas de auditório, quadros de televisão e campanhas publicitárias como personagens engraçados, simples e espontâneos. Agora, basta uma câmera na vertical e alguns milhões de seguidores para que a exploração ganhe filtro bonito, edição dinâmica e trilha sonora viral.

A casa deixa de ser apenas uma cas, a empresa deixa de ser apenas um local de trabalho e tudo vira cenário e possibilidade de conteúdo e, por consequência, de monetização por quem detém os canais. No caso, Viih Tube acumula algumas dezenas de milhões de seguidores em suas redes sociais, garantindo a monetização necessária para o conteúdo. 

É curioso perceber que a internet adora repetir que "todo trabalho é digno". E é mesmo. O que não é digno é transformar funções domésticas e relações patronais - e quem depende delas para sobreviver - em entretenimento puro e barato. 

A humilhação sempre foi extremamente rentável, mudam apenas os formatos. Antes eram programas de auditório. Alguns ainda são, sabemos. Depois vieram os realities, agora  basta um perfil nas redes sociais e vontade de humilhar gente pobre. 

Há uma perversidade "silenciosa” quando pessoas extremamente ricas passam a monetizar justamente a desigualdade que lhes permite existir. A vida dos empregados vira narrativa. A intimidade do trabalho doméstico vira roteiro. O cotidiano de quem presta serviço vira temporada.

E o público aplaude porque acredita estar vendo uma família divertida. Não está. Está vendo uma relação de poder. A pergunta nunca deveria ser se os funcionários aceitaram. A pergunta é outra: eles podiam recusar sem medo de qualquer consequência?

Enquanto essa resposta não for um "sim" absolutamente inequívoco, talvez a brincadeira nunca tenha sido exatamente uma brincadeira e o reality mais revelador não seja o deles.

Se existe um programa em exibição, é o de um país onde parte da elite ainda acredita que trabalho doméstico pode ser transformado em entretenimento, desde que a edição seja boa, a trilha seja alegre e o prêmio tenha cinco dígitos.

Há quem veja leveza. Eu vejo uma câmera apontada para o lugar errado. Muito errado. Transformar funcionários em conteúdo pode até render curtidas, visualizações e contratos publicitários. Mas não é porque engaja que deixa de ser problemático.

Há uma diferença fundamental entre escolher se expor e ser exposto por quem ocupa uma posição de poder sobre você. Na relação entre patrão e empregado, o consentimento nunca pode ser analisado como se as duas partes estivessem em pé de igualdade. Quem paga o salário também detém autoridade, e isso muda completamente o peso de qualquer convite.

É por isso que o debate não pode ser reduzido a "eles aceitaram" ou "eles estavam felizes". A questão é outra: eles tinham liberdade real para dizer não? Porque dignidade no trabalho não deveria depender da capacidade de sorrir para a câmera, disputar seguidores ou transformar a própria rotina em espetáculo.

Nem tudo o que viraliza merece aplauso. E quando a vida de trabalhadores vira entretenimento, o limite entre diversão e exploração fica perigosamente borrado. O algoritmo pode premiar esse tipo de conteúdo, mas isso não o torna menos desigual.

Pra mim, a pergunta nunca foi se os funcionários estavam felizes. A pergunta é por que tanta gente achou divertido assistir trabalhadores disputando a aprovação dos próprios patrões. Talvez porque o Brasil tenha naturalizado tanto a desigualdade que já não consegue reconhecê-la quando ela vem editada, com trilha sonora e publicada em alta definição.

No Brasil, a gente ainda insiste em dizer que todo trabalho é digno, então está na hora de aprender outra frase. Toda pessoa que trabalha também merece dignidade e dignidade não é prêmio de reality com patrão mandando e desmandando em gente que já está ali sendo explorada. 

Apagaram os vídeos?  Ótimo. Agora falta apagar uma ideia muito mais antiga: a de que quem paga o salário também pode transformar a vida de quem trabalha em espetáculo. Porque existem relações que não deveriam render conteúdo. Deveriam render apenas respeito.

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A internet vive repetindo que "o pobre também pode vencer". mas o que ela realmente queira seja apenas assistir ao pobre competindo, mesmo quando o jogo é organizado pelo patrão.

As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.

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