Jéssica Balbino
Jéssica Balbino
Jornalista e curadora de eventos literários no Brasil, escreve sobre corpos dissidentes. Criadora do Margens, projeto que difunde conteúdo sobre mulheres periféricas na escrita.
ARTIGO

A obsessão por Ana Paula não é à toa: ela deixa os homens desconfortáveis

Entre bruxas, lobas e mulheres cansadas de agradar, a campeã do BBB 26 virou mais do que um fenômeno pop: despertou um método de sobrevivência para as mulheres

Publicidade

Mais lidas

“Tudo que transborda dela para a tela inunda os olhos do telespectador, irremediavelmente seduzido”. Foi assim que Pedro Bial definiu Ana Paula Renault ao gravar um discurso/homenagem sobre sua vitória no BBB 26. E talvez essa seja a melhor frase possível para explicar o que aconteceu com o Brasil nas últimas semanas. Porque sim: estamos irremediavelmente seduzidas.

Fique por dentro das notícias que importam para você!

SIGA O ESTADO DE MINAS NO Google Discover Icon Google Discover SIGA O EM NO Google Discover Icon Google Discover

E digo “estamos” porque esse texto não nasce de um lugar analítico. Nasce do olho vidrado no pay per view e de termos visto ela na cena mais triste da história do reality shows, do Twitter aberto 24 horas por dia, da busca por migalhas nas redes sociais depois que o programa acabou. Nasce da abstinência coletiva de quem se acostumou a ver Ana Paula Renault existir sem filtro diante das câmeras.

Meu Twitter - me recuso terminantemente a chamar aquilo de X - virou um grande altar dedicado a ela. E não é só o meu. O algoritmo entendeu antes da crítica cultural: existe alguma coisa acontecendo aqui.

As pessoas sentem falta da rotina de skincare. Da voz. Das danças. Dela ser barrada nas festas. Dos surtos. Das análises políticas. Das frases absurdamente boas ditas às três da manhã como se fossem comentários banais sobre café.

Do ponto de vista narrativo, é perfeito: Ana Paula entregou tudo que um reality show sonha em ter. Humor, vulnerabilidade, caos, inteligência, contradição, sofrimento real, carisma e um plot twist devastador. Mas não foi isso que nos pegou.

O que capturou tantas mulheres foi outra coisa: Ana Paula Renault nos lembrou que é possível ser mal vista e ainda assim continuar existindo inteira. Sem pedir desculpas o tempo todo. Sem se diminuir para caber. Sem transformar personalidade em pedido de licença.

Ela não tenta parecer agradável. E talvez seja exatamente por isso que seja tão magnética.

Na timeline pipocam frases como “desperte sua Ana Paula Renault interior”, “estou possuída pelo espírito de Ana Paula Renault” ou “qual o arquétipo de Ana Paula?”. Sim, chegamos ao ponto em que uma participante de reality show virou arquétipo feminino brasileiro. E honestamente? Faz sentido.

Porque ela ocupa um espaço raríssimo: o da mulher que não performa docilidade para ser aceita. Ana Paula pode ser exagerada, contraditória, intensa, caótica e até irritante às vezes. Mas nunca parece domesticada. E isso enlouquece muita gente - especialmente homens acostumados a mulheres treinadas para suavizar tudo.

Não demorou nem uma semana aqui fora para tentarem chamá-la de louca, histérica e desequilibrada de novo. Dessa vez, porque ela desceu de madrugada para exigir que um bar embaixo do prédio onde mora diminuísse o som após horas de perturbação para os moradores. Os donos filmaram. Tentaram transformá-la numa caricatura da mulher histérica.  Conseguiram transformar o bar num problema público.

O estabelecimento sofreu vistoria, fiscalização, virou pauta na internet e descobriu rapidamente que mexer com a campeã do BBB talvez não fosse a estratégia de marketing mais inteligente do planeta.

E talvez esse seja o ponto mais fascinante sobre Ana Paula Renault: ela não deixa as coisas passarem. Ela reage, verbaliza desconforto, constrange situações que nós fomos ensinadas a suportar em silêncio.

Enquanto muitas mulheres passam a vida inteira tentando parecer “fáceis”, “leves”, “boazinhas” e “compreensivas”, Ana Paula parece perguntar o tempo inteiro: mas por quê? Por que eu deveria aceitar isso? Por que eu deveria me diminuir? Por que eu deveria sorrir? Por que eu deveria fingir conforto? E o mais revolucionário: ela faz isso em rede nacional.

Quando se recusou a usar uma roupa que a deixava desconfortável, bancou até o fim. Foi chamada de mimada, louca, difícil e exagerada - inclusive por aliados. Mas não afrouxou para agradar. Preferiu o desconforto à domesticação. E talvez nenhuma frase explique melhor o fenômeno Ana Paula Renault do que essa.

Porque o público feminino entendeu imediatamente o que estava sendo debatido ali. Nunca foi sobre uma roupa. É sobre quantas vezes mulheres passam por cima dos próprios limites para evitar o julgamento coletivo.

Ana Paula não passou. E isso muda alguma coisa dentro da gente. Minha mãe, de 78 anos, me disse outro dia: “Ana Paula me representa”. Tenho amigas adolescentes completamente obcecadas por ela. E talvez seja porque Ana Paula encoste justamente nessa parte meio ferida, meio raivosa, meio cansada que existe em muitas mulheres.

A parte que queria responder. A parte que queria ir embora. A parte que queria dizer não. A parte que queria parar de explicar a própria existência.

Enquanto isso, os homens da internet surtam diariamente. Sempre o mesmo perfil: musculatura de academia, argumento de TikTok e uma profunda dificuldade em lidar com mulheres que sabem quem são. Ana Paula os desorganiza. Mulheres como ela - e como nós, por que não nos reconhecermos assim, se somos? - fazem isso.  Porque ela não parece interessada em aprovação masculina. E isso, para certos homens, é quase ofensivo.

Ainda assim, talvez o mais impressionante seja outra coisa: ela não transformou posicionamento político em performance artificial. Ana Paula fala de feminicídio, racismo, trabalho, escala 6x1, assédio, LGBTQIA+fobia e violência contra mulheres do mesmo jeito que comenta skincare, cerveja, festa e música pop. Sem tom professoral. Sem parecer panfleto. Sem transformar a própria fala numa palestra insuportável.

Ela fala como alguém que entendeu que comunicação de massa não acontece pelo constrangimento moral - acontece pela identificação. Talvez seja exatamente essa ponte que esteja faltando. Fato é: a sociedade só tem a ganhar ao ter Ana Paula Renault. Principalmente se ela estiver dizendo para as massas. Eu, mesma, já falei dela aqui e da importância dela trazer pautas sobre o controle do corpo feminino, os padrões de beleza e o feminicídio. 

Talvez seja justamente aí que Ana Paula Renault se torne maior do que um fenômeno de reality show. Num país que registrou o trimestre mais letal da história para mulheres, com 399 vítimas de feminicídio apenas nos três primeiros meses de 2026 - uma mulher assassinada a cada cinco horas -, ver uma mulher ocupando espaço sem pedir desculpas deixa de ser apenas entretenimento. Porque o feminicídio não começa no assassinato. Ele começa no silenciamento. Começa quando mulheres aprendem que devem suportar desconfortos para não parecerem difíceis, exageradas, histéricas ou “mal vistas”. E Ana Paula rompe justamente com essa lógica ao verbalizar incômodos, impor limites, exigir respeito e não suavizar sua existência para caber no conforto masculino. Quando milhões de mulheres assistem alguém dizer “não”, reagir, se posicionar e continuar existindo inteira depois disso, algo se movimenta coletivamente. Talvez o impacto de Ana Paula esteja exatamente aí: transformar enfrentamento em linguagem acessível e mostrar, em rede nacional, que mulheres não precisam aceitar violências cotidianas para serem amadas, desejadas ou respeitadas.

Num país tomado por redpills, Virgínias, influencers vendendo tigrinho, masculinidade performática e conservadorismo embalado em linguagem jovem, Ana Paula Renault aparece oferecendo outra possibilidade de existência. Uma mulher contraditória. Imperfeita. Intensa. Exageradamente livre. 

Uma mulher que não parece interessada em ser exemplo perfeito de nada, e justamente por isso acaba inspirando tanta gente. No fim das contas, talvez o Brasil não tenha se apaixonado pela campeã do BBB, tenha se apaixonado pela possibilidade de existir sem pedir desculpas o tempo inteiro. E isso, convenhamos, é muito mais perigoso.

Que sejamos bruxas.

Lobas.

Voadoras.

Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia

E, principalmente, mal vistas.

As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.

Acesse o Clube do Assinante

Clique aqui para finalizar a ativação.

Acesse sua conta

Se você já possui cadastro no Estado de Minas, informe e-mail/matrícula e senha. Se ainda não tem,

Informe seus dados para criar uma conta:

Digite seu e-mail da conta para enviarmos os passos para a recuperação de senha:

Faça a sua assinatura

Estado de Minas

Estado de Minas

de R$ 9,90 por apenas

R$ 1,90

nos 2 primeiros meses

Aproveite o melhor do Estado de Minas: conteúdos exclusivos, colunistas renomados e muitos benefícios para você

Assine agora
overflay