O dia que descobri que jumentos estão em extinção
Uma pauta que parecia aleatória virou um mergulho em dados frágeis, cosméticos milionários e um desaparecimento que diz muito sobre o que escolhemos não ver
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Fui dormir colunista – já falei aqui que me sinto a própria Carrie Bradshaw latina, né? – e acordei defensora de jumentos que estão à beira da extinção em nome do padrão estético e do skincare e, se você acha isso confuso, vem comigo que vou tentar explicar os motivos que essa pauta, aparentemente aleatória, também deveria te preocupar – e muito!
Foi através de um convite, desses que chegam como as coisas que parecem pequenas, mas não são: uma menção em meio a uma reunião de pauta sobre qualquer outro assunto e, de repente, nada mais me trazia concentração, eu só pensava: existe uma ONG que defende jumentos brasileiros da extinção.
Piadas à parte (sim, eu também fiquei tentada a dizer: como, se a população de ‘burros’ só aumenta, vide nossos Congresso e Senado, etc), mas, existe sim. É a The Donkey Sanctuary – confesso que o nome me traz um quentinho no coração toda vez que leio ou repito – e, movida pela curiosidade jornalística (obrigada, profissão, por me lapidar nisso), oscilei entre aquele leve “será?”. Porque, né, entre festivais literários, livros e crônicas, como é que eu ia parar ali, no meio de uma discussão sobre asininos?
Aceitei. E foi aí que o mundo virou um pouco. Comecei achando que ia escrever um texto técnico, desses que a gente resolve com uma boa apuração, duas ligações e um café. Mas o que veio foi um mergulho. E não só em dados – em indignação.
A história começa com um número: 78 mil jumentos no Brasil. Bonito, redondo, até reconfortante. Um número que, se você lê rápido, dá a sensação de abundância. Tá tudo bem, pensamos. Tem jumento suficiente. Mas não tem.
O número veio de um site chamado World Population Review, que, descobri depois, começou como um blog e hoje mistura estatísticas sérias com listas curiosas tipo “as bandeiras mais roxas do mundo”. E o problema não é nem existir esse tipo de plataforma. O problema é quando um dado frágil ganha status de verdade conveniente. Porque, enquanto isso, cientistas, pesquisadores e organizações estão gritando outra coisa.
No meio da apuração, esbarrei numa dessas “gracinhas” de internet, um gráfico viral dizendo que, de cada 100 jumentos no Brasil, hoje restam apenas 6. Parece meme, parece exagero, mas não é. O dado ecoa o que pesquisadores ligados à Universidade de São Paulo e à The Donkey Sanctuary vêm alertando: a população despencou cerca de 94% nas últimas décadas, chegando a pouco mais de 78 mil animais. É o tipo de informação que circula leve no feed, mas pesa quando a gente entende que não é só um número, é um desaparecimento em curso, silencioso, quase sem testemunhas.
Em 2025, um grupo cruzou dados de diferentes fontes - IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) Ministério da Agricultura, projeções mais cuidadosas, e chegou a um número bem menos confortável: cerca de 78 mil jumentos no Brasil. Setenta e oito mil.
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Soa alarmante? Talvez não, se a gente continuar tratando tudo como número, gráfico ou estatística distante. Mas basta puxar a imagem real para perto: aquele bicho orelhudo, bonito, charmoso, que atravessa o nosso imaginário, das estradas de terra às fotografias que a gente acha “fofas”, está sendo abatido para virar matéria-prima de um produto da medicina alternativa chinesa, o ejiao. Um destino que mistura crueldade e ironia: um animal historicamente ligado ao trabalho, à sobrevivência e à cultura popular brasileira sendo reduzido a ingrediente de um cosmético que promete vitalidade, enquanto ele próprio desaparece.
O que pouca gente sabe, e talvez por isso doa mais quando a gente descobre, é que a pele do jumento tem sido usada na produção do ejiao, uma substância tradicional na China, transformada em colágeno e incorporada a uma série de produtos que vão de suplementos a cremes cosméticos. Vendido como promessa de vitalidade, rejuvenescimento e até melhora da circulação, o ejiao movimenta um mercado milionário, apesar de não haver comprovação científica robusta desses benefícios. E é aí que o contraste se impõe: enquanto o produto é embalado como luxo e cuidado, a origem dele está diretamente ligada ao abate em massa de jumentos, pressionando populações inteiras - inclusive no Brasil - a um nível crítico de sobrevivência.
E esse abismo não é só técnico – ele é político, econômico, simbólico. Porque enquanto números inflados circulam por aí, ajudando a construir uma falsa sensação de segurança, o que está acontecendo na prática é um colapso silencioso. Desde 2016, quando o Brasil passou a permitir o abate de jumentos para exportação de peles, a população entrou em declínio acelerado.
A pele desses animais é usada para produzir ejiao, um produto da medicina alternativa chinesa que promete benefícios à saúde, sem comprovação científica. Para sustentar a demanda global, são necessárias cerca de 5,9 milhões de peles por ano. Repito: milhões.
No Brasil, essa cadeia sequer se sustenta como cadeia. Um estudo da Esalq/USP aponta que não existe estrutura produtiva organizada, não há manejo reprodutivo planejado, reposição de plantel ou previsibilidade de oferta. É extrativismo puro.
Hoje, há apenas um frigorífico operando com isso no país, na Bahia, com menos de 150 empregos. Um modelo que carrega, no próprio funcionamento, a data de validade. Porque ele depende de um recurso que está acabando.
E talvez o dado mais duro de todos seja esse: em três décadas, o Brasil perdeu 94% da sua população de jumentos. De cada 100 animais, restam apenas 6.
Se isso não é um alerta, eu já não sei o que é.
No meio dessa história, ainda existe um detalhe que diz muito sobre como o problema se distribui de forma desigual: nem todos os jumentos estão igualmente ameaçados. A raça pêga, por exemplo, bastante presente em Minas Gerais, tem alto valor agregado e é criada quase como animal de elite. Esses não entram na lógica do abate.
Ou seja: o jumento nordestino, historicamente ligado ao trabalho, à sobrevivência, à cultura popular, é quem está mais exposto. É ele que pode desaparecer. E desaparecer não como metáfora. Desaparecer de fato.
E talvez seja impossível não traçar um paralelo com os corpos humanos que também vão sendo empurrados para o desaparecimento. Porque, assim como o jumento nordestino, há corpos que historicamente carregam trabalho, história, sobrevivência - e que, ainda assim, são tratados como algo a ser corrigido, reduzido, eliminado. A gordofobia opera nesse mesmo lugar: transforma corpos gordos em problema, em excesso, em algo que precisa ser ajustado por meio de emagrecimentos compulsórios, procedimentos estéticos cada vez mais invasivos, promessas de uma beleza ultramoderna que, no fundo, padroniza e apaga. Não é sobre escolha individual apenas - é sobre um sistema que define quais corpos podem existir plenamente e quais devem, aos poucos, desaparecer.
Eu, que nunca escondi meu vício em skincare – esse ritual quase religioso de potes, séruns e promessas de uma pele melhor amanhã –, precisei encarar um desconforto difícil de diluir em qualquer creme: o de que a beleza que a gente consome, muitas vezes, tem um custo que não aparece no rótulo. Esse freela abriu uma fresta incômoda na rotina automática de autocuidado e me fez perguntar de onde vem, de fato, o que eu passo no rosto. Porque, no fim, não é só sobre hidratação, viço ou prevenção de linhas, é sobre uma indústria que, não raro, se sustenta em lógicas predatórias, explorando corpos (humanos e não humanos) em nome de um ideal que nunca se completa. E talvez o mais perturbador seja isso: perceber que, enquanto a gente busca se cuidar, pode estar, sem saber, participando do desaparecimento de alguma coisa, ou de alguém.
Teve um momento, no meio da apuração, em que eu me peguei pensando que essa talvez seja uma das histórias mais brasileiras que existem. Um animal que sustentou modos de vida inteiros sendo descartado quando deixa de ser economicamente útil. Dados inflados sendo usados para suavizar um problema real. Falta de política pública. Invisibilidade.
Tudo isso enquanto a gente segue, distraído, achando que tem 730 mil jumentos por aí.
Trabalhar com a The Donkey Sanctuary me fez entender que, às vezes, o jornalismo não é sobre contar grandes histórias, é sobre impedir que pequenas histórias desapareçam.
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Porque, no fim das contas, não é só sobre jumentos. É sobre o que a gente escolhe ver. E, principalmente, sobre o que a gente aceita perder em silêncio.
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.
