Jéssica Balbino
Jéssica Balbino
Jornalista e curadora de eventos literários no Brasil, escreve sobre corpos dissidentes. Criadora do Margens, projeto que difunde conteúdo sobre mulheres periféricas na escrita.
ARTIGO

Histérica, mas com microfone

Entre o constrangimento no aeroporto e a escuta radical da Bitita, uma reflexão sobre como corpos fora do padrão seguem lutando para falar e, agora, começam tam

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Encontrei André Novais em Belo Horizonte e virei uma idiota. Não digo isso com desdém contra mim mesma, mas com a sinceridade meio ridícula de quem admira muito alguém e, na hora decisiva, falha em articular qualquer pensamento minimamente sofisticado. Eu queria dizer que sou fã do trabalho dele na Filmes de Plástico, que admiro a delicadeza brutal com que ele filma a vida, que em O dia que te conheci há uma humanidade rara - sim, pra mim é o nosso “Dias Perfeitos”- , uma representação preta que não se curva à caricatura, uma presença gorda na tela que não aparece como piada, castigo ou desvio. Eu queria dizer tudo isso. Em vez disso, fiquei embolada, rindo, tropeçando nas palavras, incapaz de apresentar até o roteiro da minha própria vida.

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Talvez porque, às vezes, a gente só saiba mesmo rir diante do que nos devolve dignidade. Pouco depois, vi meu nome projetado no Palácio das Artes. Trechos do Porca gorda apareciam ali, inscritos numa parede que devolvia a mim mesma uma imagem improvável: a de que minha escrita tinha chegado. A de que meu corpo, tantas vezes lido como excesso, erro ou estorvo, também podia ser linguagem, projeção, presença. E naquele instante me senti, de algum modo, justiçada. 

Mas para chegar até ali, eu tinha atravessado justamente o oposto de qualquer dignidade. E aí é que entra o roteirista da minha vida: sempre pronto a servir ironia e dramédia da melhor qualidade até aos mais sisudos. Se eu não tivesse vivido, não acreditaria na comédia de situação que a minha vida, por vezes, se torna. 

Então vem visualizar o cinema que é minha vida. Antes de encontrar, por acaso, o André Novais, minha reserva de voo simplesmente desapareceu do sistema da companhia aérea. Sumiu. Evaporou. Como se eu nunca tivesse comprado passagem, como se o meu deslocamento fosse uma ficção. No balcão, recebi deboche. A proposta era pagar R$ 3,6 mil para embarcar. Fiquei no aeroporto largada, a ver aviões, com a pergunta martelando: quais corpos são tratados assim?

De um lado para outro gritando, percebi a ironia quase literária nisso: eu vestia uma camiseta com a imagem de uma mulher gritando, segurando uma HK, e a palavra HISTÉRICA estampada no peito. Eu era, portanto, a histérica em circulação. Olha, Freud, sinceramente…

Depois derrubei café na camiseta. A humilhação sem fim. Não antes de ser abordada por duas pessoas diferentes no aeroporto, perguntando se poderiam orar por mim. Isso misturado a um sentimento de: se eu recusar, serei a pior pessoa do mundo, mas, eu quero mesmo orar em conjunto com alguém nessa situação? Comecei, jornalisticamente, a me interessar pelos grupos que fazem isso. De onde surgem? Qual propósito? Por que em aeroportos? Quantas pessoas eles convencem por dia? Pedem dinheiro ao final da oração? Entregam um panfleto com pessoas brancas num campo florido alisando onças? Qual é a dessa galera, afinal?



São muitas perguntas e eu tinha pouca disposição para me lançar nessa investigação do ofício - sim, eu sei, já fui melhor  nisso. Mas poxa, vida, estou exausta. E tava histérica, lembrem. 

No ônibus, a pessoa ao meu lado quis trocar de poltrona assim que percebeu que viajaria com uma mulher gorda. Nada explícito o suficiente para virar denúncia formal. Tudo evidente o suficiente para marcar o corpo.

É por isso que quando se fala em escuta, não se trata de metáfora. Escuta é estrutura.

E o Brasil, curiosamente, atravessa um momento em que essa estrutura começa a ser tensionada também no campo legal. A recente aprovação da lei antimisoginia - O Senado brasileiro aprovou em março de 2026 o  PL 896/2023, conhecido como Lei Antimisoginia, que equipara o ódio ou aversão às mulheres (misoginia) ao crime de racismo. A proposta prevê pena de 2 a 5 anos de prisão e multa para condutas que promovam a hostilidade contra mulheres, tornando o crime inafiançável e imprescritível ainda que cheia de limites, como toda lei - inaugura um reconhecimento importante: o de que silenciar mulheres não é apenas um efeito colateral da cultura, mas uma prática que pode e deve ser enfrentada. Nomear a misoginia, tipificá-la, criar mecanismos de responsabilização, é também mexer na engrenagem da escuta.

Nikolas Ferreira e todos os demais misóginos desse país podem espernear à vontade. É tão bom vê-los morrendo pela boca. Não que ainda não soubéssemos, mas né.  Porque não basta garantir o direito à fala se o ambiente continua organizado para não ouvir.

A lei, nesse sentido, funciona como uma espécie de freio simbólico e prático. Ela não resolve o problema, nenhuma lei resolve, mas desloca o jogo. Obriga instituições, espaços e indivíduos a reconsiderarem o custo do silenciamento. E isso impacta diretamente o modo como mulheres falam. Quando há algum respaldo, por menor que seja, o corpo arrisca mais. A voz avança alguns centímetros. A palavra se sustenta por mais tempo. Mas a lei, sozinha, não cria escuta.

Por isso, escrevo esse texto. Para, ao final, celebrar a escuta. Foi na Bitita – Festa da Palavra, em Belo Horizonte (MG), que senti essa outra camada acontecer.

Fui convidada pelo curador e escritor Renato Negrão e pela realizadora Luciana Salles, que mediou a mesa que dividi com Brisa Marques: “Voz, corpo e imagens insurgentes na escrita contemporânea”. Não era uma mesa decorativa. Era um espaço de fricção. Um lugar para pensar como palavra, corpo e imagem operam como enfrentamento, como invenção, como deslocamento do sensível. E ali havia algo raro: escuta real.

Uma plateia diversa, de diferentes idades, corpos e experiências, gente cis, trans, negra, branca, def, reunida não para assistir, mas para se implicar. Para ouvir sem transformar a fala do outro em curiosidade ou exotismo. Para reconhecer que há conhecimento sendo produzido a partir dos corpos que historicamente foram empurrados para fora da cena.

A Bitita refrescou a minha existência. Refrescou porque me lembrou que há diferença entre ser tolerada e ser ouvida. A tolerância ainda carrega hierarquia. A escuta reorganiza o espaço. A escuta desloca o centro. A escuta reconhece que há pensamento nas margens - e que esse pensamento não é complementar, é fundamental.

Na mesa, ao lado de Brisa Marques, isso se ampliou. Brisa tensiona o mundo a partir de uma perspectiva que recusa a normalidade como destino. Quando afirma que o futuro será def, ela não está criando uma metáfora confortável. Está propondo uma ruptura. Uma imaginação contracolonial do tempo. Um futuro que não se organiza a partir do corpo ideal, produtivo e obediente, mas dos corpos que foram historicamente tratados como inadequados. O futuro será def porque o futuro, para existir, precisa ser dissidente.

Precisa desmontar o mundo que deixa alguém abandonada num aeroporto. Precisa recusar o gesto automático de mudar de lugar quando uma mulher gorda senta ao seu lado. Precisa entender que o problema nunca foi o corpo, foi sempre o olhar que tentou reduzi-lo. E precisa, sobretudo, aprender a ouvir.

Ouvir sem exigir pedagogia da dor. Ouvir sem transformar experiência em espetáculo.
Ouvir sem esperar que a mulher precise quase se destruir para ser levada a sério.

No aeroporto, duas mulheres me abordaram perguntando se podiam orar por mim. Recusei com constrangimento. Depois, um homem disse que Jesus estava voltando. Eu respondi mandando mensagem no grupo de amigos: se eu morrer, espalhem meu PDF. Afinal, é tudo que tenho. E talvez essa seja a questão.

Quantas vezes uma mulher precisa desaparecer para ser lida? Minha lápide seria um QR code? Morta, eu circularia melhor? A lei antimisoginia tenta responder a isso dizendo: não, vocês não precisam morrer para serem ouvidas. Mas a lei é só o começo.

O que a Bitita fez foi outra coisa: criou um espaço em que essa escuta já acontece. Em que a fala não vem como concessão, mas como direito vivido. Em que o corpo não é tolerado - é reconhecido como linguagem.

Saí de lá sem ilusões, mas com um tipo raro de certeza. Corpos dissidentes não querem só entrar. Querem permanecer, narrar, tensionar. E querem, finalmente, ser ouvidos.

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