BBB: a dor de Ana Paula Renault ao perder o pai e o luto de Tadeu Schmidt
Jornalista foi informada da morte do pai, Gerardo Renault, de 96 anos, minutos antes do último paredão da temporada antes do TOP; ela decidiu seguir na casa
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Nem o melhor roteirista poderia nos entregar o que vimos ontem: a cena mais triste da história dos reality shows. Nenhum protocolo resistiu à combinação do luto de Ana Paula Renault, participante veterana da 26ª edição do Big Brother Brasil (BBB) ao do apresentador Tadeu Schmidt, que na quinta-feira (17/4) perdeu o irmão, o atleta de basquete, Oscar Schmidt. Juntos e separados por uma tela, ambos choraram e, de alguma forma que beira o impossível, se consolaram, provocando no espectador uma das cenas mais marcantes da história do programa ao longo desses 26 anos e, quiçá, da televisão brasileira.
O Black Mirror da vida real está acontecendo. Qualquer cena do Show de Truman fica pequena diante do que presenciamos. E não, não venho aqui como comunicadora, falar dos limites da dor pessoal e da exposição na TV. Isso fica completamente de lado quando somos atravessados pelo luto, que, na psicanálise, é o que chamam de atravessamento do real. Nada é soberano a este corte que nos puxa e nos lembra: existe vida e morte - precisamos, mesmo à contragosto, lidar com elas.
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Pouco antes das 23h, depois de uma crise de ansiedade, de ter muito enjoo e passar mal, Ana Paula Renault foi chamada ao confessionário e informada da morte do pai, Gerardo Henrique Machado Renault, de 96 anos.
Nós, que aqui fora, sabíamos que ele estava internado desde o começo do mês, temíamos isso, torcíamos para que ela conseguisse sair e, num voo fretado, fosse a Belo Horizonte vê-lo, antes de cumprir a agenda montada pela Globo ao participante vencedor. O que não esperávamos era que isso fosse acontecer diante dos nossos olhos atentos - e sedentos por tretas típicas de reality show: comida, monstro, feijão, beijo, voto, paredão, limpeza, cama e, também, o prêmio de quase 6 milhões de reais. Ligamos a TV - ou ao menos eu - em busca de alienação máximo e recebo um sem número de motivos para estar aqui, numa segunda-feira cedo, escrevendo essa coluna, com uma lista de pautas para a terapia de mais tarde (espero que meu analista venha e não tenha emendado o feriado) e, um jeito muito específico de ter os machucados de todos os lutos anteriores com a casquinha sendo arrancada e doendo novamente.
É óbvio que chorei vendo a edição de ontem. E não só. Eu me tremi inteira. Exatamente como quando recebi a notícia que meu pai havia morrido. Exatamente como quando recebi a notícia que meu analista havia morrido. Exatamente como quando eu fico quando alguém que amo parte, assim, no meio de alguma coisa, desafiando o roteiro do universo, escancarando toda dor que possa existir, humanizando-nos, literalmente.
O luto de Ana Paula, ao vivo, mexe com coisas muito comoventes e dilacerantes. Jamais esqueceremos a cena mais triste de todas: quando Ana Paula se ajoelhou no gramado externo, após a saída do último participante antes do TOP 3, com os finalistas, e chorou a morte do pai, a qual havia sido informada minutos antes, no confessionário.
Eu, que passei o sábado e o domingo inteiros, praticamente, indo contra o posicionamento oficial da equipe de Ana Paula e fazendo mutirão #ForaMilena para tentar - naquela nossa inocência de controlar alguma coisa - garantir à Ana Paula e a nós, fãs, uma final mais tranquila - me arrependi no exato momento em que ela, ainda ajoelhada no gramado, grita: Tia Milena, meu pai morreu. Milena fica sem reação, mas, à sua maneira, tenta acolher e, poucos minutos antes, sem saber, entra no quarto e oferece chá, já que sabia que Ana Paula estava enjoada. Ela aceita e elas se abraçam. Dizem se amam.
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Ana Paula, ao receber a notícia, saiu do confessionário para o quarto, pensando que poderia ser eliminada ainda naquele paredão. Conta apenas ao participantes Juliano Floss o motivo do choro, desabafa e desaba e pede: não conte a ninguém. Neste momento, ela se refere aos também emparedados Tia Milena e Boneco. E eles seguem. Ela vai para a sala, ouve o discurso do Tadeu - que respeita o fato dela não ter contado - e, em prantos, vai até a saída acompanhar Boneco, o quarto finalista da disputa.
Chamo aqui, atenção para a empatia de Ana Paula. Mesmo tendo perdido o pai. Mesmo sofrendo a maior dor que poderia sofrer na vida, teve a consciência de poupar os adversários de jogo - e colegas de vida - da informação e do que isso poderia abalar os momentos deles.
Ela, que durante boa parte do jogo, foi chamada de desumana, aos gritos. Agredida fisicamente e psicologicamente. Teve comida negada e furtada. Enfrentou paredões, ficou de fora de cinco feitas, barrada pelos líderes, fez e desfez aliança e nunca deixou de ser leal ao próprio grupo, ainda pensou em quem estava ao lado dela, ao se desculpar com Juliano, por estar desabando ao lado dele e dizer: "Eu era filha dele... a única coisa que eu tinha de bom era ser filha dele. Agora, eu não sou filha de ninguém.”
Ouvir isso, em rede nacional, com uma pessoa, ao vivo, externalizando seu luto, minutos antes de enfrentar um último paredão antes da final, me quebrou inteira. Me dilacerou. A família de Ana Paula (suas irmãs e madrasta) gravam um vídeo em que dizem optar por não informá-la da morte do pai, seguindo, inclusive um desejo dele, que partiu consciente. Gerardo Henrique Machado Renault tinha 96 anos e passou as últimas três semanas internado num hospital em Belo Horizonte (MG), onde vivia, antes de morrer no início da noite de domingo.
A Globo, por contrato, precisou comunicar à Ana Paula e mostrou a ela - que não pode ter acesso a informações externas dentro do confinamento do reality - um trecho do vídeo das irmãs dando a notícia e dizendo que era o desejo dele que ela continuasse. A ela, foi dado o poder de decisão: seguir no jogo ou sair.
Ana Paula decidiu, no primeiro momento, seguir, por entender que sairia naquele paredão de ontem e que uma das irmãs estaria indo ao Rio de Janeiro encontrá-la. Ao perceber que ficou, não soube como reagir e, recebeu de Tadeu Schmidt não apenas uma fala de conforto, mas um exemplo de motivação:
"Antes de mais nada, Ana Paula, eu queria te dar um abraço. Você vai ter o seu tempo para entender. O seu tempo para receber esse choque, esse baque, e a gente respeita demais tudo que você quiser fazer. Eu queria, também, Ana Paula, te contar uma coisa que foge totalmente do protocolo, mas, nessas alturas, que se dane o protocolo. Sabe quando a gente está sofrendo e a gente se dá as mãos para ficar mais forte? [...] Eu também estou vivendo um luto, meu irmão morreu anteontem [...] Eu imagino que o seu Gerardo estaria te aplaudindo, imensamente orgulhoso de você, como eu sei que meu irmão diria para mim: 'Não se atreva a ir embora', porque era essa a minha relação com ele”
Ao ouvir o apresentador, Ana Paula não se conteve: "Meu deus, Tadeu, que roteirista é essa? Como é que você está aí trabalhando, também?"
E o fato é: não existe protocolo para o luto alheio. Muitas vezes, levamos tempo a processar e, apenas seguimos fazendo as coisas, de forma “normal”, até que, em algum momento, a ficha cai e a dor avassaladora nos atinge novamente. Não dá para julgar, criticar ou legislar sobre as escolas dos outros.
É compreensível que a família de Ana Paula não tenha querido comunicá-la a dois dias da grande final - em que ela é favorita a disputar e, se desistir, perde todos os prêmios acumulados, entre eles, um apartamento no valor de R$ 270 mil conquistado ontem, com a chegada ao TOP 3 - é entendível que exista um contrato e que, nele, ela tenha pedido para ser informada caso algo acontecesse. E todas as reações: do choro desesperado à decisão de seguir, são compreensíveis.
O que a gente segue sem compreender, de fato, é o roteiro. A realidade supera a ficção quando, numa tentativa de dormir, começo, mentalmente, a refazer o arco da personagem, que, 10 anos depois de ser expulsa do programa por “agressão” a um participante, retorna como convidada veterana e, desde o primeiro dia, escala para o posto de favorita, mantendo-o ao longo de 98 deles, entre muitas emoções e embates, como pede um bom reality.
O que não esperávamos é que, a dois dias da final, Ana Paula viveria sua maior dor de forma televisionada, com seu luto exposto num domingo a noite, pós-fantástico na Globo, tentando assimilar que é finalista ao prêmio de quase 6 milhões de reais e que nunca mais vai ver o pai.
Em 2016, formada em jornalismo, mas anônima, Ana Paula entra no BBB16, após ser vista por um casal de olheiros em Belo Horizonte no ano anterior e não ter sido escolhida. Lembram dela na seletiva e ela entra. É a favorita da edição por ter posicionamentos fortes, brigas cinematográficas e uma energia singular durante o programa. Isso a leva a um paredão falso que vira “histórico” no programa. É expulsa poucos dias depois, mas sai aclamada, pauta de programas de TV e, desde então, figura entre nomes interessantes e expoentes do entretenimento e do jornalismo brasileiro, com uma passagem em outro reality show e em programas de TV e portais.
Em 2025, recebe o convite para o BBB26 e topa voltar: 10 anos depois, fazendo jus ao discurso de Pedro Bial durante sua eliminação em 2016: mil vezes eliminada, mil vezes voltaria. Para o delírio dos fãs que a acompanham desde então - e também dos haters - é a última a entrar na casa e, no brilho que a atinge, sabe-se favorita desde então.
Nos primeiros dias, revela que quase não entrou, com medo do pai morrer. Conta que antes do confinamento, ele esteve muito doente, mas melhorou um pouco e, em decisão com ele, as irmãs e a madrasta, optou por entrar.
Ana Paula Renault, que perdeu a mãe, Maria da Conceição, aos 16 anos, vítima de um acidente de carro, temia perder o pai e não se poupou em externar isso inúmeras vezes durante o confinamento. Ontem, ao receber a notícia, disse tanto a Juliano, como a Milena: “eu já não tenho mãe, agora não tenho pai. Não tenho ninguém”.
A saudade da mãe, morta há 27 anos, apareceu em vários momentos e falas da participante, inclusive durante um Cine BBB, em que assistiu ao lado dos participantes Breno Corã e a Chaiany Andrade ao documentário “eu te I love iú”, com a história da banda Mamonas Assassinas, morta em um acidente aéreo há 30 anos. Ali, Ana Paula revelou que nunca mais teve coragem de ver as fotos e videos da mãe e que, num feriado de dia das crianças, ela saiu para ir ao sítio da família, como sempre fazia, indo na frente para organizar tudo e, nas palavras dela “nunca mais voltou”. Em outros momentos, ao ser acordada com músicas dos anos 1990, Ana Paula dançou e lembrou: “saudade dessa época, eu tinha mãe, as coisas iam bem”.
Escrevo isso para dizer que o luto não é linear. Ele vai e vem. E, completa o arco narrativo “invejável” a qualquer roteirista. De volta ao reality, logo na primeira semana, se torna alvo de alguns participantes, vai para o embate direto, relembra o público da saudade que sentiam da apocalíptica Ana Paula Renault de 2016, mas vem mais madura, mais ponderada, ainda mais jogadora e, num jogo interno e externo impecáveis, com alguns momentos de tirar o sono do público - como o dia que tentou ir para cima do participante Alberto Cowboy por ele debochar dela e da saúde do pai dela e, impedida pelos amigos de confinamento, amassou o chapéu dele e fez os fãs passarem a noite em claro, com medo de uma nova expulsão.
Aguentou humilhações várias, privação de sono, de comida, ofensas à mãe já falecida, foi chamada de cobra cruel cascável, desumana, manipuladora, desleal, sem coração. Aceitou os adjetivos e, do desconhecimento dos adversários de quem ela realmente é, entregou toda sua vulnerabilidade aos aliados e, neste corte doloroso e final: ao Brasil inteiro.
É impossível não se emocionar com a cena. É impossível não valorizar a trajetória. De todos os paredões da temporada, talvez um ou dois não estavam diretamente ligados a embates de Ana Paula. Os demais, ou foram protagonizados por ela, fazendo jus à frase que ela ama dizer: “eu desci para ser protagonista de tudo que me proponho a fazer”, ou tiveram uma ligação direta.
Um a um, os adversários foram saindo e, na última quinta e sexta-feira, atuou incansavelmente para fazer com que os aliados vencessem a última prova e não fossem os três juntos ao paredão, excluindo um da disputa.
E, no domingo, mesmo atônita com a notícia da morte do pai, teve forças para abraçar os aliados e dizer: nós conseguimos, ao vivo, ao ser questionada pelo apresentador Tadeu.
Sim, Ana Paula, vocês conseguiram. E foi triste e bonito, ao mesmo tempo, ver Juliano, um jovem de apenas 21 anos, ter a sensibilidade e o tato necessários para o conforto. Assim como Milena, que mesmo distante há muitos dias, esqueceu qualquer confronto para consolá-lá.
Assim, desde o dia 1, Ana Paula Renault vem protagonizando uma série de momentos, que passam por ter virado fantasia de Carnaval aqui fora, hitado a música “World Hold On”, do artista Bob Sinclair, ter feito a música “Rio 40 Graus” subir no Spotify e ter mobilizado torcidas de artistas como Xuxa, Anitta, Valeska Popozuda, Zélia Duncan, entre outras.
Dentro da casa, Ana Paula teve falas importantíssimas contra o feminicídio, contra o padrão de beleza e pressão estética, a favor do fim da escala 6x1, em prol do SUS e da saúde pública e levantou pautas que são essenciais, furando exatamente a bolha que precisamos furar. Foi ridicularizada pelos adversários. Teve e viu as pautas serem banalizadas. Foi acusada de ferir direitos humanos, tendo a própria humanidade invalidade e colocada à prova.
Nas nossas telas há 99 dias, criou um universo e uma narrativa que se tornaram a identidade dessa edição. Vê-la perder o pai é como ver um amigo - ou alguém muito próximo, que cometemos a loucura de ver dormindo, acordando, comendo, escovando os dentes - sofrer por isso.
Ontem, Ana Paula nos fez perceber que não é mais “show”, só “reality” e que, quando essa se impõe, faltam palavras. O Brasil inteiro comovido com essa dor. Uma torcida inteira, já sedenta por fazê-la campeã, despedaçada, mais ainda sim, muito disposta.
A dor e o choro expostos, em rede nacional, num abraço possível de ser sentido à distância transformam o livre arbítrio de Ana Paula diante do luto, também o nosso: não existe fórmula. Existe uma irmandade. Algo que só quem divide junto, sabe como é. Juliano e Milena nunca mais esquecerão aquele momento no gramado. Nem o cheiro que estava no ar. Nem o grito de dor da Ana Paula. E a gente também não.
Uma pessoa de luto não “entende” a dor do outro. Mas se reconhece. E isso é tudo o que temos quando a saudade invade. Quando o desespero bate à porta. Quando o enjoo que Ana Paula sentiu ontem, antes de receber a notícia e sem saber de nada, aparece.
Eu, do alto do meu luto de perder meu pai há 1 ano e meio - e sentia o mesmo medo narrado por Ana Paula, uma vida toda tendo um pai velho e com medo dele partir - do meu luto de perder 23 pessoas próximas em pouco mais de um ano, do meu luto de ter perdido meu analista há 4 anos e não ter superado. Do meu luto de ter perdido minha melhor amiga da faculdade dias depois da nossa colação de grau. Do meu luto de ter perdido uma amiga de infância. Dos lutos da vida toda. Esses machucados que ficaram doloridos desde ontem a noite, quando eu tremi, como quem recebe a notícia da partida de alguém importante e chorei, junto com Ana Paula, junto com Tadeu, junto com muita gente que estava com a TV ligada.
Como jornalista formada há algum (bastante, ok!) tempo, ouso dizer que, poucas vezes, vi o que ocorreu, ser assim: a espetacularização do luto deu lugar à comoção e ao abraço. À empatia. A uma solidariedade e uma coletividade únicas. Tadeu Schmidt fez o impensável por dois dias neste BBB: humanizou os jornalistas enquanto gente, não apenas enquanto profissionais robóticos. Muitas vezes, temos que seguir, mesmo que nosso mundo esteja desabando, mesmo que alguém muito importante tenha partido. Mesmo que o corte do real esteja se interpondo ali, na nossa frente. Mas, podemos seguir e nos emocionar. Tadeu Schmidt e Ana Paula Renault nos humanizam com isso.
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Dito isso, Ana Paula, você é incrível e merece, não apenas os quase 6 milhões de reais pelo prêmio como a maior jogadora da história desse programa, como todo amor do mundo, que seus fãs e admiradores estão ansiosos para te dar. O luto não passa nunca. Mas o amor que recebemos ajuda a dor a não inflamar tanto. Desejo que você e sua família fiquem bem, dentro do que dá para ficar e que saibam que seu pai está absolutamente orgulhoso de ti. Você fez uma grande história - e mais do que isso - no seu momento de dor mais profunda, libertou a gente da nossa também. Tá tudo bem sentir. Voa, bruxona. Os homens continuarão a ter medo das mulheres que voam: sejam elas livres, sejam elas bruxas. E nós continuaremos voando, segurando as nossas mãos.
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.
