Tornar-se juntas, gordas
Obra de Néliane Catarina Simioni, que será lançada no Dia Mundial da Luta contra a Gordofobia, afirma o corpo gordo como identidade política e coletiva
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Há encontros que funcionam como espelhos, mas não desses que apenas devolvem a imagem. São espelhos que reorganizam o que a gente pensa saber sobre si, que iluminam zonas ainda sem nome e oferecem linguagem ao que já ardia por dentro. Foi assim quando encontrei Néliane Catarina Simioni, autora de Tornar-se gorda: desestabilizando os sentidos da gordofobia pelo discurso digital, livro que será lançado no dia 4 de março, às 19h, data que também marca o
Dia Mundial de Luta contra a Gordofobia. Não era apenas o encontro com uma pesquisadora, mas com um corpo que pensa a partir de si e que transforma experiência em teoria sem pedir licença.
Encontrar Néli foi perceber, na prática, que tornar-se gorda não é apenas uma condição física, mas um gesto político. O livro, publicado pelo selo Contra o Vento, da Alta Books, nasce de uma dissertação defendida na Unicamp e parte de uma pergunta que parece simples, mas que desarma qualquer neutralidade: como se constrói a opressão contra pessoas gordas? Ao invés de oferecer respostas fáceis, Néli escolhe o rigor da Análise de Discurso e a potência dos Estudos do Corpo Gordo para revelar que a gordofobia não é acidente moral nem opinião isolada, mas engrenagem social. Ela atravessa memes, diagnósticos médicos, reportagens, piadas aparentemente inofensivas e discursos cotidianos para mostrar como o corpo gordo é reiteradamente associado ao erro, à falha, à doença, à preguiça e à necessidade de correção. O que parece cuidado, muitas vezes é controle; o que se apresenta como preocupação, frequentemente é punição simbólica.
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Lançar o livro no dia 4 de março é um gesto que carrega camadas. A data, inicialmente instituída como Dia Mundial da Obesidade por organizações internacionais de saúde, foi sendo ressignificada por ativistas e coletivos antigordofobia ao redor do mundo como Dia Mundial de Luta contra a Gordofobia. Essa mudança não é mero detalhe semântico, mas deslocamento político profundo: sair da lógica exclusiva da patologização para afirmar o enfrentamento à discriminação estrutural. Em um mundo onde mais de um bilhão de pessoas vivem em corpos considerados acima do peso segundo critérios biomédicos, segundo dados recentes da Organização Mundial da Saúde (OMS), a insistência em tratar gordura apenas como epidemia de saúde pública inviabiliza as violências sociais que recaem sobre esses corpos. A data, portanto, torna-se um campo de disputa simbólica. Não se trata de negar questões de saúde, mas de recusar que elas sejam usadas como justificativa para a exclusão, o constrangimento e a desumanização.
O título da obra dialoga diretamente com Tornar-se negro, da psiquiatra e psicanalista Neusa Santos Souza, que ensinou que identidade não é essência, mas processo atravessado por história, racismo e desejo. Ao evocar esse “tornar-se”, Néliane inscreve a gordura no campo das construções políticas e discursivas. Ser gorda, nesse sentido, não é apenas carregar determinado volume corporal, mas enfrentar um regime de significações que insiste em reduzir esse corpo à anomalia. Há algo de profundamente psicanalítico nesse gesto: reconhecer que o sujeito é produzido pela linguagem e que, portanto, disputar o discurso é disputar existência.
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Quando a sociedade interpreta o corpo gordo exclusivamente sob o signo da inadequação, instala-se uma engrenagem que parece natural porque se repete. Néli insiste que é preciso interromper essa repetição para construir uma identidade gorda positiva, da pessoa gorda e sobre a pessoa gorda, entendida como identidade política e coletiva. Essa formulação me atravessa porque dialoga com tudo o que venho escrevendo há anos: o corpo não é apenas matéria orgânica, é território simbólico. Ele é falado antes de ser vivido. Ele é medido antes de ser sentido. Ele é julgado antes de ser amado.
A pesquisa que sustenta o livro mergulha, entre outras materialidades, em dois memes que circularam durante a pandemia de Covid-19, quando o medo de engordar parecia competir com o medo de morrer. Ao analisar esses artefatos digitais, Néli mostra como a gordofobia se atualiza com leveza aparente, como se fosse só humor. Mas humor também produz verdade. E, nesse jogo de versões, o corpo gordo continua sendo a piada pronta, o erro visível, o alerta moral. A pergunta que atravessa a obra – quem dá os sentidos? – é também a pergunta que deveria atravessar qualquer sociedade que se pretenda democrática.
Nosso encontro, duas mulheres gordas conversando sobre teoria, desejo e política sem a necessidade de justificar a própria existência, foi a prova concreta de que tornar-se gorda é também experiência compartilhada. Quando corpos gordos se encontram fora da lógica da comparação e da eterna promessa de emagrecimento, algo se desloca. Não há cálculo silencioso de quem está tentando caber melhor no mundo, mas o reconhecimento de que existir já é um ato de insubordinação. E reconhecimento produz subjetividade, produz linguagem, produz mundo.
Tornar-se gorda é livro, mas também é travessia. É pesquisa, mas também é memória e afeto. Ele convida quem lê a perceber que a gordofobia não se limita a um insulto isolado; ela se articula a sistemas maiores – capitalistas, patriarcais e midiáticos – que lucram com a insatisfação corporal e com a vigilância permanente. Questioná-la é disputar os sentidos que definem acesso à saúde, à mobilidade, ao trabalho e à dignidade. É exigir que políticas públicas não tratem o corpo gordo como exceção, mas como parte constitutiva da coletividade.
Talvez tornar-se gorda seja compreender que identidade não é destino fixo, mas movimento. Que a fricção com o mundo pode produzir dor, mas também consciência. E talvez o mais radical seja perceber que, quando fazemos esse movimento juntas, quando dois corpos gordos se encontram e produzem conhecimento a partir da própria experiência, deixamos de ser objeto de análise para nos tornarmos sujeitos de discurso.
E, quando isso acontece, não é apenas o espelho que muda. É o mundo.
Sobre a autora
Néliane Catarina Simioni é jornalista, pesquisadora e mestra em Divulgação Científica e Cultural pela UNICAMP. Sua dissertação acadêmica, concluída em 2024, deu origem ao livro ‘Tornar-se gorda’.
Como ativista, criou o projeto ‘Meu Corpo Sou Eu’, uma plataforma de letramento social que promove o debate e a reflexão sobre a gordofobia. A iniciativa inclui perfil no Instagram (@meucorposoueu), newsletter e o podcast ‘Isso não é sobre corpo’, com duas temporadas de entrevistas com pessoas diversas sobre questões relacionadas às corporeidades a partir da crítica à gordofobia.
Com sua pesquisa e atuação, Néliane busca ampliar as discussões sobre corpos gordos, disputando sentidos para afirmar dignidade, autonomia e reconhecimento social às pessoas gordas.
Evento de lançamento
O livro ‘Tornar-se gorda’ será lançado em São Paulo no dia 4 de março, data em que se celebra o Dia Mundial da Luta contra a Gordofobia. O evento ocorre na Livraria Martins Fontes Paulista, das 19h às 21h, e contará com uma roda de conversa sobre gordofobia com a autora, seguida de sessão de autógrafos.
Serviço
Local: Livraria Martins Fontes Paulista - Av. Paulista, nº 509
Data: 4 de março
Horário: 19h às 21h
Atividade: Roda de conversa com a autora + sessão de autógrafos
Ficha técnica da obra
Título: Tornar-se gorda: desestabilizando os sentidos da gordofobia pelo discurso digital
Autora: Néliane Catarina Simioni
Editora: Contra o Vento (Alta Books)
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As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.
