Nomear não basta: o corpo continua
Camelô. Vendedora ambulante. Comerciante informal. Quitandeira. Zungueira. Rabidante. Bidera. Palaiê. Parece uma lista de sinônimos, mas não é
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No Dia da Língua Portuguesa, a gente costuma falar de Camões, de literatura, de patrimônio, dessas coisas que cabem bem em discurso oficial e em post de rede social com fundo bege. Mas a língua que mais me interessa hoje não é a que se celebra em auditório, é a que se fala na rua: essa que tropeça, mistura, inventa, e sobretudo nomeia gente que quase nunca é nomeada direito.
Dia desses, nas ruas de São Paulo, me peguei pensando em quantos nomes cabem numa mesma pessoa. Camelô. Vendedora ambulante. Comerciante informal. Quitandeira. Zungueira. Rabidante. Bidera. Palaiê. Parece uma lista de sinônimos, mas não é. É quase um mapa do mundo, ou melhor, um mapa de quem pode ser visto no mundo. Dependendo da palavra, muda tudo: o jeito que a gente olha, o lugar que essa pessoa ocupa, o tipo de respeito (ou falta dele) que ela recebe. E, no entanto, como me disse Margarida Teixeira, gestora de comunicação da StreetNet - aliança global de vendedores ambulantes que representa mais de 800 mil membros - , talvez a questão não seja exatamente qual palavra usamos, mas o que a ausência de reconhecimento faz com todas elas.
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“A questão aqui não é tanto a designação regional, mas a falta de reconhecimento”, ela me disse, com a tranquilidade de quem está acostumada a ver o debate girar em torno do nome enquanto o problema continua intacto. E é curioso, porque estamos falando de uma profissão que existe em todo lugar, atravessa cidades, países, continentes, sustenta economias inteiras - e ainda assim não tem um nome único, estável, incontestável na língua portuguesa. “É uma profissão única, de certa forma, por ser tão comum e tão integral ao cotidiano urbano, e no entanto não ter um único termo”, completa Margarida. Como se a língua desse voltas para nomear, mas nunca chegasse exatamente lá.
Logo eu, tão psicanalítica sempre, pensei que talvez porque nomear, no fundo, seja reconhecer - e reconhecer custa.
A gente gosta de fingir que não, que é só semântica, uma questão de estilo, escolha editorial, mas experimente trocar “camelô” por “comerciante informal” num texto e veja o que acontece. O discurso tem importância. Um parece quase uma acusação, o outro um eufemismo elegante, quase um pedido de desculpas. Maíra Vannuchi, da StreetNet, ri quando falo disso e desmonta a expectativa: não existe uma hierarquia tão rígida assim entre os termos, depende do país, do contexto, de como os próprios trabalhadores se identificam. Em Pernambuco, me diz, usa-se mais “comerciante informal”; no Rio, “camelô”; em Minas, “ambulante”. E ninguém está exatamente esperando que um termo salve o outro.
O que existe, sim, é outra coisa e aí a conversa fica mais interessante.
“O mais importante sempre é a designação das próprias trabalhadoras em relação ao seu trabalho e como querem ser designadas”, diz Margarida. E de repente a língua deixa de ser um sistema fixo e vira disputa, escolha, identidade. Lembro imediatamente da língua pretuguesa que a Lélia Gonzalez nomeou para falar dessa língua atravessada pela presença africana, viva, inventiva, insubmissa. Não existe erro ali, existe história. Não existe desvio, existe corpo.
E aí, faz todo sentido que tantas dessas palavras sejam femininas: zungueiras, quitandeiras, varinas. Porque, veja bem, segundo dados dos mais de 800 mil membros da StreetNet, mais de 70% desses trabalhadores são mulheres. A língua, nesse caso, não só nomeia - ela denuncia. Antes mesmo da estatística, já estava lá, no som da palavra, no gênero que ela carrega.
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Mas a língua também gosta de se comportar, de se “civilizar”. E aí entra uma das falas mais deliciosamente incômodas da Albertina Simango, vendedora ambulante em Moçambique, “economia informal” é o termo civilizado. Civilizado para quem, eu me pergunto. Civilizado porque cabe no relatório, na política pública, no documento internacional. Civilizado porque transforma uma prática ancestral, cotidiana, vital, em categoria administrável. Civilizado porque apaga as bordas, os sotaques, os excessos.
Reconhecer custa. Custa dinheiro, política pública, redistribuição de espaço, enfrentamento de desigualdades, mas custa também no nível mais íntimo, porque reconhecer exige olhar para esses corpos sem o conforto da abstração. Quando a gente nomeia alguém como “informal”, “por conta própria”, “ambulante”, não está apenas organizando o mundo em categorias mais limpas: está decidindo quanto daquela vida cabe ali dentro e quanto precisa ser deixado de fora para que o termo funcione. Há palavras que se enquadram, outras que escapam, outras que domesticam. E, nesse processo, subjetividades inteiras podem ser comprimidas até caber num rótulo aceitável - ou resistir, insistindo em existir para além dele. Porque um corpo não é um termo técnico. Um corpo carrega história, gênero, território, cansaço, invenção. E toda vez que a língua tenta simplificar demais, alguma coisa desse corpo fica de fora - e é justamente ali que mora o que mais importa.
Ao mesmo tempo, e é aqui que a coisa complica, esse mesmo movimento pode garantir direitos. Nos documentos internacionais, explica Margarida, o termo mais rigoroso é “trabalhadores por conta própria”, porque reconhece o estatuto de trabalhador sem a necessidade de um patrão. Ou seja: a linguagem técnica, que simplifica e padroniza, também pode abrir portas. Mas abre portas ao custo de quê? O que fica pelo caminho quando “zungueira” vira “trabalhadora por conta própria”?
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Talvez a resposta esteja no cotidiano dessas pessoas, que continuam existindo independentemente da palavra que escolhemos usar. Os vendedores ambulantes e feirantes estão em todos os lugares: vendem comida, roupa, cosmético, consertam celular, fazem a economia girar quando tudo mais trava. A maioria vive em situação de vulnerabilidade, sem proteção social, sem segurança de renda, sob risco constante de assédio, violência e apreensão de mercadorias. Muitos sequer aparecem nas estatísticas - não declaram ocupação, trabalham de forma intermitente, são empurrados para categorias como “microempreendedores”, que parecem mais organizadas do que a realidade permite.
Em São Paulo, por exemplo, são mais de 12 mil ambulantes em pontos fixos. A maioria é dona do próprio ponto, mas menos da metade tem autorização oficial. Trabalham mais de 44 horas por semana para uma renda média de cerca de R$ 3 mil. São fundamentais para grandes eventos, para o funcionamento cotidiano das cidades, para cadeias produtivas inteiras - e ainda assim operam numa zona cinzenta, onde o reconhecimento nunca é completo.
Como se não bastasse, o debate que a gente insiste em tratar como coisa do passado voltou com força total com a economia de plataformas. Porque, no fim das contas, como aponta a própria Margarida, tanto um motorista de aplicativo quanto uma vendedora ambulante podem ser considerados trabalhadores por conta própria, ambos dependentes de estruturas que regulam seu trabalho, muitas vezes de forma exploratória. Mudam os aplicativos, mudam as ruas, mas a lógica insiste em permanecer.
Então, talvez, neste 5 de maio, a pergunta não seja quantas palavras temos para nomear essas pessoas. Talvez a pergunta seja outra, mais incômoda e, por isso mesmo, mais honesta: por que precisamos de tantas e ainda assim nenhuma dá conta?
Porque a língua portuguesa, com toda sua beleza, sua história e sua capacidade infinita de invenção, continua esbarrando no mesmo limite: ela nomeia, mas nem sempre reconhece. E, no fim, não é a falta de palavras que mais machuca.
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É a falta de mundo onde essas palavras possam existir com dignidade.
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.
