Jéssica Balbino
Jéssica Balbino
Jornalista e curadora de eventos literários no Brasil, escreve sobre corpos dissidentes. Criadora do Margens, projeto que difunde conteúdo sobre mulheres periféricas na escrita.
EMAGRECIMENTO

A magreza voltou a ser a senha da humanidade

Magreza voltou a funcionar como um passaporte para o afeto, o respeito e a dignidade. Mas desde quando a humanidade passou a depender do tamanho de um corpo?

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Outro dia estávamos em três. Ela chegou primeiro. Bastou atravessar a porta para que os elogios começassem. "Nossa, como você emagreceu!" "Você está linda." "Tá com outra cara." "Rejuvenesceu."

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Minutos depois, alguém brincou: "Agora eu preciso te apresentar um amigo."

O "agora" ficou ecoando em mim. Como se o amor também obedecesse ao índice de massa corporal. Como se romances fossem um benefício reservado a determinados corpos.

Eu estava ao lado dela. Recebi um abraço, um beijo no rosto e um "quanto tempo". Nenhuma amiga me achou mais bonita. Nenhuma imaginou um namorado para mim. Nenhuma perguntou se eu estava apaixonada. Foi uma cena pequena. Quase imperceptível, mas grandes violências costumam começar assim.

Dias antes, voltando de uma viagem, o motorista do aplicativo abriu o porta-malas. Pegou a mala da minha amiga, colocou cuidadosamente na calçada, fechou o compartimento e voltou para o banco do motorista. A minha mala continuava lá dentro.

Não houve grosseria. Não houve ofensa. Apenas uma suposição silenciosa: quem ocupa mais espaço também pode carregar mais peso. Passei dias pensando nessas duas cenas e nenhuma delas era, diretamente sobre emagrecimento, mas ambas eram sobre humanidade.

Porque talvez a maior mentira da nossa época seja dizer que as pessoas querem ser magras. Não. As pessoas querem os acessos que a magreza oferece.

Querem entrar numa sala e serem chamadas de bonitas antes mesmo de dizer bom dia, ser imaginadas em histórias de amor. Querem que alguém carregue suas malas. Querem experimentar qualquer roupa sem que uma vendedora as conduza discretamente para "aquela seção ali no fundo". Querem fazer uma consulta médica sem transformar cada dor em consequência do próprio corpo. Querem sentar no avião sem pedir desculpas. Querem existir sem que o corpo seja a primeira informação sobre quem são.

A promessa nunca foi a magreza, sempre foi a dignidade.

Naomi Wolf já alertava, em O mito da beleza, que os padrões estéticos nunca funcionaram apenas como padrões estéticos. Funcionam como mecanismos de disciplina. À medida que mulheres conquistam mais espaço na política, no mercado de trabalho e na vida pública, cresce também a pressão para que dediquem tempo, dinheiro e energia à administração dos próprios corpos.

Há mais de trinta anos que autora acima citada pontua que os padrões de beleza nunca foram apenas sobre beleza. Eles organizam poder. Determinam quem ocupa espaço, quem merece desejo, quem é levado a sério. Hoje, olhando para a euforia em torno das canetas emagrecedoras, para o abandono do body positive por algumas de suas principais vozes e para a volta da magreza extrema como ideal, me pergunto se estamos assistindo apenas a uma tendência estética ou ao retorno de uma velha promessa: "Emagreça, e nós devolveremos a você aquilo que nunca deveríamos ter tirado."

Hoje, diante da explosão das canetas emagrecedoras, da volta da magreza extrema como ideal estético e da velocidade com que tantas pessoas anunciam o abandono do discurso da aceitação corporal, me pergunto se estamos realmente discutindo saúde.

Ou se estamos, mais uma vez, negociando humanidade. Porque é impossível ignorar o que acontece quando alguém emagrece.

Os elogios aparecem, as oportunidades aumentam - em algumas casos, elas aparecem. Os convites “brotam” e os romances, que pareciam impossíveis, ganham, literalmente, corpo. O tratamento muda. E muda na fila do pão, no restaurante, no banco, no elevador.

É como se a sociedade dissesse: "Bem-vinda à vida”

Mas qual vida? Se a dignidade depende da perda de peso, então nunca foi dignidade. É tratada como prêmio. Como conquista.

É por isso que me incomoda tanto ouvir que o movimento contra a gordofobia fracassou porque algumas pessoas decidiram emagrecer. Essa nunca foi a questão.

Toda pessoa tem o direito de fazer o que quiser com o próprio corpo. Emagrecer, engordar, fazer bariátrica, usar canetas e, sobretudo, não fazer nada disso. A autonomia corporal sempre foi um princípio feminista.

O problema começa quando confundimos liberdade de escolha com liberdade de contexto. Porque escolher emagrecer numa sociedade que premia sistematicamente corpos magros nunca é uma decisão isolada. É uma decisão atravessada por afeto, trabalho, acesso, segurança, desejo e reconhecimento. Não se trata de condenar quem emagrece.

Trata-se de perguntar por que a magreza continua funcionando como um certificado de valor moral.

Porque alguém magro é automaticamente visto como disciplinado, saudável e bem-sucedido, enquanto alguém gordo precisa provar inteligência, competência e autocuidado antes mesmo de abrir a boca.

No fundo, o sonho talvez nunca tenha sido caber no manequim 38. O sonho talvez seja caber no mundo. Ou, minimamente, tratada com algum tipo de cuidado. É justamente aí que mora a crueldade do nosso tempo.

A sociedade vende a magreza como um projeto de saúde, quando, na verdade, comercializa outra coisa. Ela vende pertencimento, amor, respeito, humanidade.

O preço? Além de uma caneta de procedência duvidosa, a ausência de fome, de vida, de desejo, é também o de se anular, de brigar pra caber, de perder-se de si para atender à expectativa alheia que criaram sobre qual tipo de corpo se deve ter para “merecer a felicidade”.

Por isso, a frase, as trends e a premissa de que “a felicidade é magra” e a forma de agir como se ela fosse um prêmio ou conquista moral me desafiem tanto. Desde muito cedo, entendi que o desejo do outro é do outro. Ele não pode ser/passar pelo meu próprio corpo. Corpo este, inclusive, que pode desejar do tamanho que for. A magreza não pode ser um objetivo. Ser magra não pode ser atrelado a ser gente. Eu sou uma pessoa e não vou me desculpar por existir. Isso vai enlouquecer outras pessoas? Pode ser que sim. Mas, enquanto eu existir, existirei na desobediência. Na luta para que não sejamos reféns dos padrões, já que hoje, eles exigem uma magreza extrema, tão extrema que há muito deixou de ser saúde, mas é vendida como, não importa quanto sua saúde física e mental fique pelo caminho, desde que o elogio venha, o desejo do outro chegue.

E enquanto continuarmos confundindo essas coisas, seguiremos acreditando que algumas pessoas emagreceram quando, na verdade, apenas conquistaram aquilo que jamais deveria ter lhes sido negado. Porque a magreza nunca foi a recompensa. A recompensa sempre foi ser tratado como gente.

A maior crueldade da cultura da magreza não é convencer pessoas de que elas precisam emagrecer. É convencê-las de que só depois disso serão plenamente amadas, respeitadas e reconhecidas como humanas. Não é e nunca foi sobre emagrecer e ter saúde, mas sempre foi sobre a distribuição desigual da humanidade.

A magreza voltou a ser a senha da humanidade e não é porque quem está magro seja mais humano, mas porque as tratamos como se fossem. Emagrecer nunca foi apenas perder peso. Sempre foi recuperar privilégios que deveriam pertencer a qualquer corpo: respeito, emprego, atendimento médico digno, desejo, inteligência presumida, afeto e o direito elementar de existir sem precisar pedir desculpas. Não basta existir. É preciso caber. Na roupa, na cadeira do avião, na foto, no consultório e, sobretudo, na imaginação de uma sociedade que insiste em confundir valor moral com circunferência abdominal.

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A magreza é vendida e funciona como uma anistia social e minha grande questão nesta coluna é perguntar: Por que a magreza continua sendo a condição para que alguém seja tratado como plenamente humano?

As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.

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