Jéssica Balbino
Jéssica Balbino
Jornalista e curadora de eventos literários no Brasil, escreve sobre corpos dissidentes. Criadora do Margens, projeto que difunde conteúdo sobre mulheres periféricas na escrita.
O AMIGO QUE VOTA CERTO E HUMILHA ATRAVÉS DO CORPO

A revolução acaba na barriga dos outros

O quão progressistas são nossos pares que leem, vão às manifestações, sobem hashtags, mas nos reduzem a não humanos por características que não escolhemos?

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Outro dia percebi uma coisa curiosa: no Brasil, toda discussão política termina numa avaliação estética e não importa o assunto.

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Pode ser a taxação dos super-ricos, o desmonte do SUS, a alta do feminicídio, a Copa do Mundo ou o preço do café, sempre aparece alguém para dizer: "Mas você viu o tamanho da barriga dele?”, “mas ele é careca”, “mas ela tem o pé horroroso”, “mas ele é baixinho” e a lista segue, infinita. 

É impressionante, o argumento dura dois minutos. Depois começa um concurso de Miss Brasil do ressentimento. Noto que o brasileiro tem uma dificuldade enorme de discordar sem abrir uma banca de jurados. Todo mundo vira especialista em nariz, papada, cabelo, ruga, celulite, calvície, peito, bunda, peso. A democracia vira um desfile apresentado por pessoas que jamais aceitariam ser avaliadas pelos próprios critérios.

Meu personagem favorito, porém, é o progressista. Esse merece um estudo, porque assina abaixo-assinado, compartilha campanha contra o feminicídio, defende universidade pública, faz doação para vaquinha de artista independente, até lê autoras feministas, ouve podcasts desconstruindo ideias, ostenta o manual antirrascista debaixo do braço, sabe até citar cinco artistas negros, reconhece a palavra gordofobia como algo que não se pode cometer de luz acesa, explica interseccionalidade na mesa do bar, paga a mais para a faxineira como forma de reparação histórica, sabe a diferença entre racismo estrutural e institucional e até fala sobre isso.

Quando o tema é representatividade, ele poderia palestrar por horas e horas. Mas, basta alguém de quem ele discorda aparecer na televisão e a primeira frase sai automática: "Também... olha a cara dele”, ou "Você viu como ela engordou? Ela está IMENSA”, ou ainda: “Com essa calvície eu ficava quieto.”

É curioso como a revolução termina exatamente onde começa o corpo dos outros. Tenho pensado que existe um limite para boa parte do progressismo brasileiro e ele não passa pela reforma agrária, nem pela taxação das grandes fortunas, nem pela desmilitarização da polícia. O limite costuma passar pela cintura alheia.

Basta sentir raiva de alguém para esquecer, por alguns segundos, tudo o que se aprendeu sobre dignidade humana. E aqui, me incluo nessa equação, claro.  É como se existisse um botão de emergência instalado desde a quinta série. Você aperta e imediatamente reaparecem os mesmos insultos de sempre. Gordo. Careca. Feia. Velha. Narigudo. Baleia. Porca. Botijão. Mal comida. Acabada.

O repertório muda muito pouco. Só ganha um verniz universitário. E não, não estou dizendo que isso seja um monopólio da esquerda. A direita nunca fez questão de esconder sua obsessão em controlar corpos. O problema é outro. É quando quem diz lutar por liberdade continua escolhendo exatamente o corpo como primeira arma. Porque ninguém escolhe ficar careca. Ninguém acorda aos quinze anos pensando: "acho que vou investir numa boa calvície".

Ninguém sonha em desenvolver lipedema, ninguém faz um plano de carreira para envelhecer. Ninguém decide produzir rugas para irritar desconhecidos na internet. A gente sabe disso. Ainda assim, quando quer diminuir alguém, corre exatamente para aquilo que essa pessoa nunca pôde escolher.

Descobri, então, que os preconceitos têm um hábito interessante: eles aparecem justamente quando a educação vai embora. Enquanto tudo está bem, somos civilizados.  Ou fingimos ser. 

Quando a conversa esquenta, revelamos quais características realmente consideramos indignas. Nunca insultamos aquilo que acreditamos ser irrelevante. Ninguém tenta humilhar outra pessoa dizendo: "Seu consumidor de lentilha." "Sua pessoa de tornozelos perfeitamente medianos." "Seu cidadão com cotovelos simétricos." Não funciona.

Os insultos denunciam as hierarquias que carregamos. Se chamar alguém de gordo ainda parece uma boa estratégia para ofender, é porque continuamos acreditando, lá no fundo, que gordura diminui uma pessoa. Se chamar alguém de careca provoca risadas, é porque seguimos tratando cabelo como certificado de valor. Se uma mulher vira "acabada" assim que envelhece, talvez nunca tenhamos acreditado que ela valia muito além da juventude.

A piada não cria o preconceito, mas escancara e entrega onde ele mora.

E talvez seja justamente por isso que me incomodem tanto aquelas pessoas que defendem todos os corpos - desde que eles apareçam bonitos na foto. As mesmas que fazem longos discursos sobre diversidade, mas passam meia hora comentando como determinada atriz "largou mão de si".

Que defendem mulheres até encontrarem uma mulher de quem não gostam, nesse momento, ela deixa de ser autora, jornalista, política ou cantora. Vira "gorda". "Mal comida." "Feia." Como num passe de mágica. É impressionante a velocidade com que uma divergência de ideias vira uma análise dermatológica.

Talvez porque ainda exista um preconceito considerado socialmente elegante, você não pode mais fazer determinadas piadas sem ser confrontado. Mas pode rir da barriga de alguém.

Pode transformar a calvície em meme, pode comentar o peso de uma mulher como se estivesse fazendo meteorologia, pode dizer que alguém "precisa se cuidar", esse eufemismo nacional para lembrar que certos corpos seguem sendo tratados como projetos fracassados. E tudo isso costuma ser vendido como senso de humor.

Eu desconfio profundamente das pessoas cujo humor depende da humilhação física dos outros, não porque elas sejam monstros. Mas porque esse tipo de piada revela uma pedagogia: nos ensina quais corpos merecem aplauso e quais merecem constrangimento.

Quem merece desejo e quem merece pena. Quem pode ocupar espaços sem pedir desculpas e quem deve passar a vida inteira tentando caber - na cadeira, na roupa, na fotografia e, principalmente, na expectativa alheia. É por isso que discutir corpos nunca foi um assunto menor.

Quem aprende a rir de determinados corpos também aprende, quase sem perceber, a aceitá-los como menos dignos de respeito, de escuta, de cuidado e de direitos. Antes de decidir quem merece políticas públicas, uma sociedade costuma decidir quem merece humanidade. E essa decisão quase sempre começa pela aparência.

Outro dia alguém me perguntou como reconhecer uma pessoa preconceituosa. Achei difícil responder. Porque quase ninguém se apresenta assim, mas todo mundo é. Você que está me lendo, eu que estou escrevendo, meus melhores amigos que juram por Deus que o progressismo é o que guia suas vidas, mas que, no off, fazem piadas tão horríveis quanto qualquer conservador. E às vezes nem tão no off assim, vamos combinar. 

As pessoas aprendem novas palavras, leem novos autores, trocam a foto do perfil, vão às manifestações. Sobre hashtags. Publicam livros, organizam eventos, analisam a grade para ver se a porcentagem de negros e brancos está equiparada. Compartilham campanhas importantes, mas existe um teste simples.

Escute com atenção qual é o primeiro insulto que elas escolhem quando querem destruir alguém. Ali mora uma verdade que nenhum discurso consegue esconder. Porque a maioria das pessoas não revela seus preconceitos quando encontra alguém diferente. Revela quando perde a paciência. E quase sempre corre para aquilo que o outro nunca pôde escolher: o próprio corpo.

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Existe um jeito muito simples de descobrir quais corpos você considera menos humanos, não olhe para quem você ama. Olhe para quem você odeia. E, principalmente, para aquilo que você escolhe atacar quando quer que essa pessoa doa. Porque ninguém insulta um corpo por acaso. O corpo nunca é só um corpo. É onde a nossa educação termina e os nossos preconceitos começam. O discurso mais sincero de uma pessoa não é o que ela faz quando está certa. É o insulto que ela escolhe quando está com raiva.

As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.

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