Jéssica Balbino
Jéssica Balbino
Jornalista e curadora de eventos literários no Brasil, escreve sobre corpos dissidentes. Criadora do Margens, projeto que difunde conteúdo sobre mulheres periféricas na escrita.
LITERATURA

Horror e realismo mágico na escrita sobre gordura e memória

Livro ficcional sobre gordofobia e ancestralidade é lançamento da coleção "Papéis Selvagens" na FLIP

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Cida é o nome que consegue dar à personagem que anseio ser: a que se vinga, de fato. A que, no limite do horror da vida, esbarra no realismo mágico - aquele, tão latino-americano que só a gente entende - e consegue dar vida ao que parece morto. Nome, ao que não conseguimos pôr em palavras. Mapear o horror para que ele torne-se, de algum jeito, uma forma de entreter. Uma história. Um jeito de ser lembrado e, quiçá, não se repetir.

Há muito tempo me perguntam por que escrevo sobre corpos gordos. A resposta mais honesta é: porque nunca consegui escapar deles. O meu, sobretudo. Mas também os corpos das mulheres, das pessoas racializadas, dos sujeitos considerados excessivos, inadequados, monstruosos. O que talvez eu nunca tenha conseguido explicar é por que, justamente agora, escolhi o horror para fazer isso. 

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Por isso, caro leitor, venho contar, em primeira mão, da minha estreia na ficção com O que se move não precisa ser nomeado e não, não foi uma mudança de rota. Foi uma consequência.

A coleção, organizada pela escritora e artista Janaina Tokitaka, nasce de uma pergunta que me interessa há muito tempo: o que acontece quando mulheres e animais deixam de ocupar lugares separados? Em Papéis Selvagens, da editora Mapa Lab, cinco escritoras investigam justamente esse território onde o cotidiano se abre ao estranho, o medo convive com o desejo, o luto encontra a sobrevivência e os bichos deixam de ser metáforas para se tornarem forças capazes de revelar aquilo que a realidade insiste em esconder.

Não é por acaso que essa estreia acontece durante a Flip. A coleção reúne narrativas em que o selvagem não está na floresta, mas nos corpos, nas relações de poder, nas violências herdadas e naquilo que ainda não aprendemos a nomear.

Depois de anos escrevendo jornalismo, crônica, ensaio e, mais recentemente, a autoficção radical de Porca Gorda, percebi que havia uma violência que já não cabia na linguagem do real. A violência cotidiana contra corpos gordos e femininos é tão naturalizada que, quando a descrevemos de maneira objetiva, ela frequentemente parece banal. Como se fosse apenas mais um dia.

Mas não é. É monstruosa.

Penso que justamente por isso que autoras como Mariana Enriquez, María Fernanda Ampuero e Carmen Maria Machado - de quem sou absolutamente fã e viciada - tenham me revirado tanto nos últimos anos. Elas entenderam o fundamental: o horror não inventa monstros, apenas revela aqueles que sempre estiveram entre nós.

Quando Enriquez transforma casas, bairros e cidades em organismos vivos, ela está falando das ditaduras, da pobreza, do abandono e da violência de Estado. Quando Ampuero leva mulheres ao limite do grotesco, ela não está exagerando a misoginia latino-americana. Está apenas retirando dela o verniz da normalidade. E Carmen Maria Machado produziu uma das maiores revoluções da literatura contemporânea ao compreender que o corpo feminino é, por si só, um território onde o fantástico e o horror já habitam.

Foi lendo essas mulheres que compreendi que o horror podia ser uma ferramenta política. Porque a mulher gorda sempre foi descrita como monstruosa. Sempre foi comparada a animais. Sempre ocupou, na imaginação social, um lugar entre o humano e aquilo que deveria ser domesticado.

Então pensei: e se eu devolvesse esse imaginário? Mas devolvesse em meus próprios termos.

Em O que se move não precisa ser nomeado, a porca deixa de ser insulto para tornar-se entidade. O corpo animal deixa de representar degradação para se transformar em potência. A monstruosidade muda de lado.

Quem é o verdadeiro monstro? A mulher que incorpora uma força ancestral para interromper um ciclo de violência? Ou os homens que transformaram gerações inteiras de mulheres em corpos disponíveis?

Percebi que o horror me permitia fazer algo que o realismo dificilmente conseguiria: escrever o trauma sem domesticá-lo. 

Existe algo que o trauma conhece muito bem e que a literatura fantástica também sabe fazer: a lógica não é suficiente. O corpo lembra antes da linguagem e responde antes da consciência. Ele sonha, treme, paralisa, devolve. Era exatamente essa linguagem que eu procurava.

Não queria escrever apenas sobre violência. Queria escrever sobre aquilo que permanece depois dela. Sobre a memória que fica na pele. Sobre os corpos que carregam histórias que nunca foram autorizadas a contar.

Talvez seja esse o maior presente que o horror pode oferecer à literatura escrita por mulheres: a possibilidade de abandonar a obrigação de sermos verossímeis. Porque nossa experiência nunca foi considerada plausível. Chamaram nossas dores de exagero, nossa raiva de histeria, nosso medo de paranoia, nossa gordura de falha moral, nossa existência de excesso.

Foi então que percebi algo curioso: Porca Gorda nunca esteve tão próximo da ficção quanto agora.

Embora um seja autoficção e o outro horror literário, ambos partem da mesma pergunta: o que acontece quando um corpo considerado excessivo deixa de aceitar o lugar que lhe foi imposto?

Nos dois livros, a gordura deixa de ser característica física para se tornar linguagem. O corpo deixa de ser objeto do olhar para produzir seu próprio olhar. A diferença é que, em Porca Gorda, essa insurgência acontece pela autobiografia; em O que se move não precisa ser nomeado, ela acontece pelo fantástico.

Talvez seja esse o maior presente que Papéis Selvagens me ofereceu. Escrever ao lado de Janaina Tokitaka, Isabela Noronha, Tainá Muhringer Tokitaka e Silvana Tavano me fez perceber que o horror contemporâneo escrito por mulheres está produzindo algo muito potente: ele não busca assustar por entretenimento, mas criar novas formas de narrar aquilo que o real já não consegue conter.

O horror me permite responder: vocês chamam de exagero aquilo que nunca tiveram coragem de enxergar. Minha estreia na ficção nasceu desse encontro. Entre a literatura fantástica latino-americana, o horror feminista e a convicção de que algumas violências só podem ser narradas quando aceitamos abandonar completamente a ideia de normalidade.

No fim das contas, talvez escrever horror seja isso: olhar para um mundo que insiste em chamar de cotidiano aquilo que sempre foi aterrorizante. E, finalmente, devolver o medo para quem o produziu.

Sobre a obra 

Em O que se move não precisa ser nomeado, construo uma narrativa de horror literário em que corpos femininos, água, lama e uma figura híbrida entre mulher e porca reorganizam as relações de poder em uma pequena cidade. Ao longo da história, a violência de gênero deixa de ser apenas tema para se transformar em matéria fantástica, deslocando o olhar do leitor para um território em que o corpo guarda memórias que a linguagem não alcança.

O conto dialoga diretamente com questões presentes em Porca Gorda: o corpo como arquivo, a animalização imposta às mulheres gordas, a monstruosidade como forma de resistência e a possibilidade de devolver à violência uma nova gramática. 

Mais do que uma publicação inédita, O que se move não precisa ser nomeado reafirma um dos movimentos centrais do que quero com minha escrita: transformar corpos historicamente marginalizados em protagonistas de narrativas potentes, onde o medo, a fúria e o desejo deixam de ser silenciados para se converter em linguagem, invenção e força política.

Ao mesmo tempo, o lançamento sintetiza um momento em que sua atuação como escritora, curadora, professora e mediadora se entrelaça, fazendo da literatura um espaço de criação estética, disputa de narrativas e transformação social.

Da autoficção ao horror: novos lançamentos ampliam o debate sobre os corpos gordos

Enquanto Néli Simioni investiga a gordofobia como estrutura social em Tornar-se gorda, Jéssica Balbino apresenta em Paraty a plaquete O que se move não precisa ser nomeado, integrante da coleção Papéis Selvagens. A obra marca sua estreia na ficção e leva para o horror literário questões já presentes em Porca Gorda, como a animalização dos corpos gordos, a violência contra as mulheres e a monstruosidade como forma de resistência. Lançada durante a Flip, a coleção reúne cinco escritoras em narrativas que exploram o encontro entre mulheres e animais, ampliando o diálogo entre literatura fantástica, memória e violência de gênero.

Tornar-se gorda parte da pesquisa acadêmica de Néli Simioni para analisar como discursos cotidianos — presentes em memes, diagnósticos médicos e narrativas midiáticas — produzem e naturalizam sentidos que associam corpos gordos ao erro, à doença, à preguiça e à necessidade de correção. O título dialoga com Tornar-se negro, de Neusa Santos Souza, ao retomar a ideia do "tornar-se" como um movimento de ruptura com sentidos historicamente produzidos. A partir dessa perspectiva, a autora propõe o tornar-se gorda como um processo de desestabilização da gordofobia e de construção de uma identidade política e coletiva. 

Embora partam de gêneros distintos — a autoficção e o ensaio —, as duas obras convergem ao questionar representações historicamente construídas sobre os corpos gordos e ao abrir espaço para novas formas de narrar e compreender essas experiências. 

Jéssica Balbino participa da FLIP na sexta-feira (24/07), às 14h, da mesa “Para não ser esquecido: Memória, encarceramento e a palavra como resistência das periferias brasileiras”, na Casa Favela, e às 17h no Sesc Santa Rita, onde integra um diálogo sobre corpo e fala sobre o livro. 

Já Néli Simioni estará na tenda "Editoras e Autores Independentes", localizada na Praça Aberta, no Areal do Pontal, no sábado (25.07), das 15h às 16h. 

Clube do livro 'Meu Corpo Sou Eu' 

Entre literatura e experiência, a atuação de Jéssica Balbino e Néli Simioni também se desdobra no Clube do Livro Meu Corpo Sou Eu, iniciativa que reúne leitores e leitoras para conversar sobre obras a partir das relações entre corpo, memória e subjetividade. Com curadoria e mediação das autoras, os encontros criam espaço para a escuta e reflexão crítica, em que a leitura se conecta às histórias e percepções de cada participante.

“O clube é isso: um lugar onde a literatura nos conecta, mas o que sustenta é o que cada pessoa traz do próprio corpo, da própria vivência”, comenta Néli Simioni. Para Jéssica Balbino, não se trata só de ler. “Queremos abrir espaço para o que uma história provoca dentro de nós. Às vezes, é deixar que a palavra toque onde a gente passou anos tentando calar”, reflete. 

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Realizado de forma online, o clube promove encontros mensais e retoma suas atividades em um novo ciclo, que ocorrerá entre agosto e dezembro. 

As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.

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