Deepfake, pedofilia e a perversidade que destrói a vida pela raiz
Imagine as crianças que passaram anos em campos de concentração ou que vivem situações de sequestro e abuso sexual e psicológico
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Há 3 semanas, fiquei emocionalmente paralisada diante do filme A voz de Hind Rajab e, mais recentemente, com o documentário lançado pela BBC – Infiltrados na dark web – e as divulgações dos arquivos de Epstein. O ataque conjunto dos Estados Unidos e Israel a uma escola de meninas, em Teerã, fez-me romper o silêncio e abordar parte da perversidade que enlaça economia, direitos humanos e política.
Em início de fevereiro, o Unicef lançou a segunda fase do estudo “Abuso de deepfake é abuso”, que tem sido elaborado com a coparticipação da Interpol e da ECPAT Foundation. No contexto do estudo, deepfake é a produção de imagens, vídeos ou áudios gerados ou manipulados por inteligência artificial e projetados para parecerem reais, sendo usados como conteúdo sexualizado envolvendo crianças. A investigação envolve 11 países e revelou ao menos 1,2 milhão de crianças vítimas.
Poucos dias depois, a BBC Eye, juntamente com a BBC News Brasil, lançou o documentário “Infiltrados na Dark Web”. Trata-se da revelação e do desmantelamento de casos de dark web – parte inacessível da web usada para anonimato e privacidade – voltados para pedofilia e tráfico de crianças e adolescentes.
Em 2014, uma coalizão global com menos de 50 agentes policiais começou a se infiltrar nas dark webs para investigar casos de abuso sexual de bebês e crianças. O documentário começa com o caso de uma menina, apelidada pela investigação de Lucy, que se estima ter sido abusada sexualmente dos 7 aos 12 anos de idade.
Em 2017, a coalizão de agentes internacionais chegou a Lubassa, o codinome de um brasileiro responsável por criar a estrutura que permitia que aproximadamente 2 milhões de usuários ativos nas cinco maiores redes de dark web do mundo abusassem de mais de 10 mil crianças. Lubassa tinha apenas 23 anos e foi condenado a 266 anos de prisão. Estima-se que, atualmente, ainda haja cerca de 1 milhão de integrantes nas dark webs.
Quando mais jovem, ajudei voluntariamente um orfanato de meninas e, certa vez, as irmãs receberam uma criança que vinha sendo abusada sexualmente, pelo padrasto, desde os 8 anos de idade. Ela foi muito bem acolhida e tratada, mas padecia de graves e insuperáveis problemas psiquiátricos.
Lev Tahor, que em hebraico significa “coração puro”, é o nome dado a uma seita fundada em Jerusalém, em 1988, pelo então rabino Shlomo Helbrans (1962-2017). Desde sua fundação, essa seita vem sendo acusada de abuso infantil, pedofilia, sequestros e negligência com menores de idade, sobretudo crianças. Por esse motivo, a seita muda frequentemente de local de atuação para evitar intervenções da justiça. Está definitivamente fora de Israel desde 2003.
Em fins de 2025, seu atual maior líder, Yoel Alter, foi preso na Guatemala, e as autoridades daquele país resgataram cerca de 160 crianças e 40 mulheres que sofriam abusos, estupros e casamentos forçados. Em 2024, já haviam sido identificadas e resgatadas, na Colômbia, 26 pessoas, das quais 17 eram menores de idade e, entre eles, 5 estavam em ordem de busca emitida pela Interpol por sequestro e tráfico de pessoas.
Em meio aos escândalos que se multiplicam, os documentos do caso Epstein são também de tirar o fôlego de qualquer pessoa minimamente ética e normal. Às práticas de pedofilia e abusos sexuais, com filmagens que trazem perplexidade, somam-se o envolvimento de líderes políticos e grandes empresários de várias partes do mundo em intrigantes estratégias de poder e sugestões de espionagem.
Qual é a evidência de que Jeffrey Epstein trabalhava para o Mossad – o instituto de inteligência, espionagem e operações especiais de Israel, criado em 1949? Parte do que tem sido divulgado dos arquivos sobre a vida de Epstein sugere que ele trabalhava para ambos serviços de inteligência – americano e israelense – e teve envolvimento e parceria com Ghislaine Maxwell na rede de sequestro de crianças.
Alguém conceberia que Bill Gates, desde 2010 dedicado à Fundação Gates, cuja mensagem inicial em seu site é “Nossos esforços visam um único objetivo – que todas as crianças, independentemente de onde nasçam, possam atingir seu pleno potencial” – estaria na top list dos e-mails com Epstein? Como o fundador de uma das mais bem-sucedidas empresas de tecnologia do mundo pode estar ligado, ainda que minimamente, a festas que promoviam abuso sexual de crianças e jovens?
Desde o primeiro ataque dos Estados Unidos e Israel ao Irã, o economista Jeffrey Sachs tem concedido várias entrevistas afirmando que os Estados Unidos (e agora também Israel) seguem o modelo tradicional de aniquilar economias estrangeiras para depois criar a falácia narrativa da guerra pela paz e pelos direitos humanos.
Na prática, o quem vem sendo construído são estratégias de tornar a vida do povo iraniano e de tantos outros a mais miserável possível com o objetivo de mudar o regime político, a ordem e a dominação econômica. Após o sequestro do ex-presidente da Venezuela Nicolás Maduro, a intervenção americana permitiu que empresas americanas e europeias começassem a explorar o petróleo na Venezuela. Curiosamente, já houve o direcionamento de um navio petrolífero para Israel.
À primeira vista, intervir na mudança de regime de um país autoritário que tortura e prende líderes humanitários - como é o caso, no Irã, da laureada ao Nobel da Paz Narges Mohammadi – “legitima” os meios violentos para o fazer. Entretanto, está cada dia mais claro, para grandes analistas das relações econômicas e políticas internacionais que, por trás da estratégia humanitária, reside o verdadeiro interesse: a supremacia econômica e geopolítica.
Interesses econômicos, políticos e os piores interesses desumanos que poderosos podem arquitetar e realizar, especialmente no que diz respeito aos atentados à vida e à dignidade de crianças e mulheres, parecem se inter-relacionar de forma mais evidente do que seríamos capazes de imaginar. E a barbárie da guerra pelo aumento do poder nos mostra que, historicamente, a violência não cessa, mas só muda de roupagem.
Assistir ao clamor de uma criança de 6 anos atingida por disparos do exército israelense ao carro em que estava juntamente com a família de seus tios tirou-me a sensação de respirar. Afirmo que nada me marcou mais, em todo minha experiência cinéfila, do que o filme A voz de Hind Rajab, produzido com a voz real da criança que pediu socorro por 3,5 horas. Imagine as crianças que passaram anos em campos de concentração ou que vivem situações de sequestro e abuso sexual e psicológico.
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Vivemos a era do desmantelamento das farsas e da quebra de confiança nos líderes políticos, religiosos e empresariais, que secular e sorrateiramente insistem em destruir perversamente vidas de crianças e mulheres. Estamos iniciando um período tenebroso, incerto, de atos violentos antigos e novos. Mas é sempre bom lembrar que a flor de lótus floresce do lodo, assim como os lírios florescem do pântano.
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.
