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Luiz Carlos Azedo
ENTRE LINHAS

Ao sequestrar Maduro, Trump manda um recado ao mundo

Trump vê a Venezuela como cabeça de ponte da China, da Rússia e do Irã para controlar a América Latina. E não esconde o interesse nas reservas minerais

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A captura de Nicolás Maduro por forças dos Estados Unidos, seguida de sua apresentação algemado em um tribunal de Nova York, não é apenas um ato de força na crise venezuelana. O presidente Donald Trump sinaliza que considera o Hemisfério Ocidental sua área de influência direta e o continente americano um ativo econômico e de segurança dos Estados Unidos. A operação — executada sem autorização do Congresso e justificada como ação contra o narcotráfico — foi celebrada publicamente por Trump e por seu secretário de Estado, Marco Rubio, como prova de que Washington está disposto a “sustentar palavras com ação militar”.

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A narrativa oficial insiste que os EUA não estão em guerra contra a Venezuela, mas contra organizações criminosas. No entanto, o próprio Trump desmente essa tese ao afirmar que os EUA “governarão” a Venezuela até uma transição “segura, adequada e justa”, e ao falar abertamente em administrar a indústria petrolífera do país como compensação histórica. Esse gesto recoloca no centro do tabuleiro a lógica da Doutrina Monroe, agora rebatizada de forma explícita e provocativa como “Doutrina Donroe”.

Ao afirmar que a dominância americana no Hemisfério Ocidental “nunca mais será questionada”, Trump atualiza uma tradição intervencionista que atravessa dois séculos e reaparece, ciclicamente, sempre que Washington decide substituir a diplomacia pela força. A diferença, agora, é a franqueza: não se trata de promover democracia, mas de impor ordem, controle e acesso a recursos. Mas a crise está longe de terminar com o sequestro de Maduro e a retórica neoimperialista.

A posse de Delcy Rodríguez como presidente interina, conduzida pelo irmão e presidente da Assembleia Nacional, Jorge Rodríguez, está em contradição com o status venezuelano anunciado por Trump. Embora afirme ter obtido cooperação de Delcy, o discurso da nova presidente interina denuncia “agressão militar ilegítima” e exalta Maduro e Cilia Flores como “heróis”. O regime chavista não colapsou automaticamente; suas redes militares, civis e econômicas permanecem, em grande medida, intactas.

Entretanto, o recado de Trump não se limita a Caracas. Ao ameaçar o presidente colombiano, Gustavo Petro, sugerir que “algo terá de ser feito” com o México e recolocar Cuba no radar, Washington deixa claro que a soberania regional é relativa quando confronta interesses estratégicos americanos. A reação de Petro — ao admitir, ainda que retoricamente, a disposição de “pegar em armas” para defender seu país — evidencia o potencial efeito dominó de uma política que reabilita o uso da força como base para a diplomacia e não a institucionalidade das relações internacionais. 

Desestabilização

No plano internacional, a repercussão foi imediata. No Conselho de Segurança da ONU, a maioria dos países rejeitou a intervenção e invocou a Carta das Nações Unidas. Ainda assim, a condenação diplomática pouco altera o fato consumado: os EUA capturaram um chefe de Estado estrangeiro e o submeteram à sua jurisdição. A fragilização das regras internacionais — já abalada antes —, porém, pode servir às potências concorrentes. O senador americano Mark Warner alertou que, se Washington se arroga o direito de sequestrar líderes acusados de crimes, ações semelhantes da China sobre Taiwan ou da Rússia em outros teatros também podem ocorrer.

Militarmente, Trump vê a Venezuela como cabeça de ponte da China, da Rússia e do Irã para controlar os recursos estratégicos da América Latina. Não esconde seu interesse nas reservas minerais e petrolíferas venezuelanas, nem a intenção de reabrir espaço para empresas americanas. Ao afirmar que a riqueza extraída beneficiará também os Estados Unidos “na forma de compensação”, o presidente americano explicita uma visão patrimonial das relações internacionais: territórios instáveis tornam-se ativos a serem administrados por quem detém poder militar. Essa lógica não se restringe ao sul; Trump quer anexar a Groenlândia e ameaça o México e o Canadá.

No curso prazo, Trump ostenta uma força irresistível, porém os ciclos históricos mostram o contrário: no Iraque e no Afeganistão, vitórias militares rápidas produziram derrotas políticas duradouras. Na América Latina, o Haiti permanece como advertência viva: a mudança de regime imposta de fora abriu caminho para décadas de colapso. A Venezuela, com suas milícias, redes criminosas e a presença de grupos armados transnacionais, reúne ingredientes semelhantes para o caos, com fortes repercussões para a Colômbia, o Brasil, a Guiana e o Caribe.

Ao final, o julgamento de Maduro é menos sobre justiça e mais sobre demonstração de hegemonia. Trump anuncia que os EUA definem as regras no Hemisfério Ocidental e que estão dispostos a convertê-lo em espaço de segurança e exploração econômica sob tutela americana.

O gesto rende ganhos táticos e aplausos domésticos, mas é um erro estratégico: abala o direito internacional, amplia a instabilidade regional e convida outras potências a imitarem o método, para manter e/ou ampliar suas áreas de influência. É como se fosse uma nova divisão do mundo sem Conferência de Yalta. Trump abre um novo ciclo de turbulência, no qual o continente é tratado como propriedade geopolítica. Historicamente, isso nunca deu certo.

As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.

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