EUA ignoram negociações nucleares e atacam o Irã em conjunto com Israel
Destino de Khamenei, líder do Irã, é desconhecido. Outros líderes hostis a Washington morreram após ações ocidentais na história recente, mas nunca diretamente
compartilhe
SIGA
SÃO PAULO, SP, JODHPUR, ÍNDIA, E WASHINGTON, EUA (FOLHAPRESS) - Os Estados Unidos, em conjunto com Israel, realizaram neste sábado (28) um devastador ataque contra o Irã na chamada "Operação Fúria Épica". O futuro do regime islâmico instalado em 1979 e das relações de poder no Oriente Médio agora está em suspenso.
Explosões foram ouvidas no leste e no oeste de Teerã, segundo a mídia iraniana. A agência Tasnim publicou imagens de uma densa fumaça na capital do país, e o aeroporto Mehrabad teria sido atingido. O espaço aéreo do país, de acordo com a mesma agência, também foi fechado. Ainda não se sabe o número de vítimas, mas as Forças Armadas de Israel disseram ter atingido dezenas de alvos.
Leia Mais
A ação ocorreu mesmo depois de ter sido marcada uma quarta rodada de negociações entre americanos e iranianos acerca do programa nuclear de Teerã, que o presidente Donald Trump disse querer ver desmantelado completamente.
Horas depois, Teerã revidou e lançou mísseis em direção a Israel, que foram interceptados, segundo Tel Aviv.
Pela rede Truth Social, Trump confirmou a operação em um vídeo de oito minutos. "Há pouco, os militares dos Estados Unidos iniciaram grandes operações de combate no Irã. O nosso objetivo é defender o povo americano eliminando ameaças do regime iranianos. Um grupo vicioso de pessoas terríveis", disse o republicano.
O ministro de Defesa de Israel também comentou sobre o ataque. "O Estado de Israel lançou um ataque preventivo contra o Irã para eliminar ameaças", disse Israel Katz.
Já o primeiro-ministro israelense, Binyamin Netanyahu, afirmou que o ataque "criará as condições para que o corajoso povo iraniano tome seu destino em suas próprias mãos".
Em comunicado, Bibi afirmou que Israel e EUA lançaram uma operação para "eliminar a ameaça existencial representada pelo regime terrorista no Irã". "Chegou a hora de todos os setores do povo no Irã se livrarem do jugo da tirania e trazerem um Irã livre e amante da paz", disse.
Não se sabe se o ataque atingiu, como era especulado, o líder supremo da teocracia. À agência de notícias Reuters, uma autoridade do regime iraniano afirmou Ali Khamenei não está na capital e foi transportado a uma localização segura.
Se, entretanto, Khamenei estiver morto, se tornará o primeiro chefe de Estado no poder assassinado por Washington na história. O iraniano de 86 anos liderava seu país desde 1989, quando morreu o fundador da República Islâmica, aiatolá Ruhollah Khomeini.
As negociações ocorridas na quinta-feira (26) na casa do embaixador omani em Genebra eram consideradas cruciais. Ao fim delas, os mediadores e o chanceler iraniano, Abbas Araghchi, anunciaram progresso e nova rodada em Viena na semana que vem.
Na terça-feira (24), Trump havia reiterado que preferia uma solução diplomática para a crise, mas que estava pronto para agir e impedir que o Irã obtivesse a bomba atômica.
Em junho do ano passado, Trump havia atacado três centrais nucleares do país no âmbito da guerra de 12 dias que o Irã travava com Israel, principal aliado dos EUA na região. O republicano se gabava de ter acabado com o programa iraniano -- algo discutível, em especial à luz da nova ação.
O que se sabe, por meio da Agência Internacional de Energia Atômica, é que os iranianos haviam mantido 440 kg de urânio enriquecido a 60%, perto dos 80%-90% necessários para uma bomba nuclear completa, mas suficientes para talvez 15 artefatos limitados.
Em janeiro, o presidente dos EUA havia ameaçado atacar sob o pretexto de evitar morte de manifestantes que participavam dos maiores protestos contra a teocracia desde sua criação, iniciados pela crise econômica aguda do país, mas ampliados pela insatisfação generalizada.
Trump chegou a dizer que "a ajuda estava a caminho", só que, sem forças mobilizadas para uma ação maior, voltou atrás. Israel também pediu "mais tempo" para se preparar para o conflito.
Houve pressão adicional de aliados árabes do golfo Pérsico, preocupados com o espraiamento do conflito para o estreito de Hormuz, onde o Irã prometia retaliar contra 20% do tráfego de petróleo e gás liquefeito do mundo em caso de ataque.
Ao mesmo tempo, os EUA reabriram as negociações, que ao fim não deram em nada porque Trump exigia o fim do programa nuclear e a limitação das capacidades balísticas iranianas, uma cortesia a Israel. Os iranianos prometeram apenas reduzir o grau de enriquecimento de seu urânio e renunciar à bomba em troca do fim de sanções, em termos semelhantes ao do acordo de 2015 abandonado pelo americano em 2018.
O destino de Khamenei é desconhecido. Outros líderes hostis a Washington morreram após ações ocidentais na história recente, mas nunca diretamente. O ditador iraquiano Saddam Hussein, por exemplo, foi capturado por americanos em 2003, após a invasão de seu país, mas acabou enforcado após julgamento em uma corte local três anos depois.
Já o ditador líbio Muammar Gaddafi, que sobrevivera a um bombardeio americano em 1986, foi morto por rivais numa sarjeta em 2011 após ser destituído na esteira de uma ação ocidental autorizada pela ONU com participação dos EUA.
Sob Trump, se havia regra limitando ações diretas, isso mudou. Em 3 de janeiro, o americano havia capturado o ditador Nicolás Maduro e sua mulher num ataque à Venezuela, de resto uma aliada do Irã, da Rússia e da China.
Se a teocracia foi decapitada, o que acontece agora é incerto e depende do escopo e da duração da operação americana, que pode visar a destruição da cadeia de comando da Guarda Revolucionária, o principal ente militar da pais.
Do ponto de vista sucessório, no caso da ausência do líder é prevista a criação de uma junta formada pelo presidente do país, Masoud Pezeshkian, o chefe do Judiciário e um membro do Conselho dos Guardiões, órgão com 6 clérigos e 6 juristas.
O grupo governa até a reunião dos 88 membros da Assembleia de Peritos, clérigos eleitos mas que precisam do aval do Conselho, que definirá o nome do sucessor de Khamenei. Com a suspeita morte em acidente aéreo do presidente radical Ebrahim Raisi, em 2024, o favorito era um dos filhos de Khamenei, Mojtaba, 56.
Nada disso é provável com o país sob ataque. A chance de a Guarda tomar as rédeas, se sobreviver de forma organizada, não é desprezível também, tornando o autocrático Estado religioso numa ditadura militar sob linhas semelhantes.
Outra opção é uma guerra civil, dado que não está nos planos e na capacidade mobilizada de Trump a hipótese de uma ação terrestre para empoderar algum grupo no comando.
Este era um temor de ativistas, que buscaram eleger a figura do filho do xá deposto pelos aiatolás, Reza Pahlavi, como nome consensual, o que parecia ilusório dado o distanciamento do príncipe homônimo, radicado nos EUA.
Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia
O príncipe herdeiro do Irã afirmou neste sábado que a ajuda esperada dos EUA chegou. "Trata-se de uma intervenção humanitária e seu alvo é a República Islâmica, seu aparato de repressão e sua máquina de matar, não o grande país e nação Irã", disse ele, também pelas redes sociais.