A infância não está difícil. Está cansada
A infância que não descansa nem emocionalmente com crianças vivem sob expectativas elevadas, comparações constantes e cobranças sutis por desempenho escolar
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A infância não grita — ela boceja. Boceja de exaustão. Nunca se falou tanto em cuidado, estímulo, desenvolvimento e performance infantil. Paradoxalmente, nunca se viu tantas crianças cansadas, irritadas, ansiosas, com dificuldades de concentração, alterações de sono e sofrimento emocional precoce.
A pergunta que precisa ser feita não é “o que está acontecendo com as crianças?”, mas, o que se está fazendo com a infância. Vive-se uma cultura que confunde amor com excesso.
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O excesso de telas, de atividades extracurriculares, de compromissos, de estímulos visuais e sonoros. A agenda infantil, muitas vezes, se assemelha à de um executivo adulto — sem espaço para o ócio, para o silêncio e para a elaboração emocional.
Do ponto de vista neurocientífico, o cérebro infantil não se desenvolve sob estimulação contínua. Ele amadurece na alternância entre estímulo e pausa. É durante o descanso, o sono e o brincar livre que ocorrem processos fundamentais como consolidação da memória, regulação emocional e organização das funções executivas.
Quando esse ritmo é desrespeitado, o corpo fala. As crianças cansadas apresentam sinais que costumam ser confundidos com “desobediência”, “preguiça” ou “falta de limites”. A situação apresenta sistemas nervosos sobrecarregados, em estado constante de alerta. O resultado é um aumento significativo de quadros de ansiedade infantil, dificuldades de aprendizagem, distúrbios do sono e sofrimento psíquico silencioso.
Outro aspecto pouco discutido é o impacto das telas. Não se trata de demonizá-las, mas de reconhecer que o uso excessivo e precoce interfere diretamente nos ciclos de sono, na atenção sustentada e na capacidade de autorregulação. O cérebro infantil, ainda em formação, não foi projetado para lidar com estímulos rápidos, contínuos e altamente recompensadores sem consequências.
Além disso, há uma infância que não descansa nem emocionalmente. As crianças vivem sob expectativas elevadas, comparações constantes e cobranças sutis por desempenho escolar, social e comportamental. A mensagem implícita é clara: é preciso render. Mesmo antes de compreender o que isso significa.
A infância cansada é, em diversos casos, reflexo de adultos igualmente exaustos, capturados por uma lógica de produtividade que atravessa a família, a escola e as relações. Quando o adulto não para, a criança também não pode parar.
Cuidar da infância requer coragem para reduzir. Diminuir estímulos, telas e excessos. Exige dizer “não” ao que adoece, mesmo quando disfarçado de oportunidade, avanço ou modernidade.
Cuidar também é proteger o ritmo biológico e emocional da criança. É garantir sono de qualidade, tempo livre, presença real e escuta. É compreender que desenvolvimento saudável não se mede pela quantidade de atividades, mas pela qualidade das experiências.
Antes de patologizar a criança, é preciso revisar o ambiente. Antes de buscar diagnósticos apressados, é preciso observar a rotina.
Antes de perguntar “o que essa criança tem?”, talvez seja mais honesto perguntar do que ela está sendo privada.
A infância não está difícil. Ela está cansada e o cansaço infantil é um alerta que não pode ser ignorado.
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As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.
