Carolina Figueira
Carolina Figueira
Carolina Figueira é historiadora da alimentação e pesquisadora do gosto alimentar. Doutora em história (UÉvora/UFMG), leciona no ensino superior em gastronomia da Faculdade Senac Minas. Desenvolve projetos sobre alimentação, cultura e sociedade.
HISTÓRIA À MESA

Bife à parmegiana: um clássico belo-horizontino?

Receitas se deslocam, ingredientes mudam, técnicas se adaptam, nomes ganham novos sentidos

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Férias trazem gente de fora. E, com isso, uma pergunta silenciosa começa a rondar a mesa: o que mostrar, o que servir, o que faz sentido apresentar como comida daqui? Existe um impulso quase automático em direcionar esse pensamento.

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Quando alguém chega de fora, o cotidiano deixa de ser neutro. Aquilo que comemos sem pensar passa a ser avaliado, escolhido, filtrado. Não por obrigação turística, mas por contraste. Interessa aquilo que não está disponível no dia a dia de quem chega.


Existe, aí, uma pulsão coletiva por imaginar comidas com origem clara, endereço fixo, identidade estável. Como se determinados pratos tivessem nascido em um lugar específico e ali permanecessem, intactos, imunes ao tempo, às migrações, às adaptações. Como se isso fosse possível.


Não é. Nada na alimentação permanece imutável. Receitas se deslocam, ingredientes mudam, técnicas se adaptam, nomes ganham novos sentidos. Comer também é traduzir. Ainda assim, quando recebo alguém de fora em Belo Horizonte, dificilmente penso em comida italiana, por exemplo. Em princípio, pensamos: não faz muito sentido atravessar estados, ou países, para comer algo replicável em qualquer grande cidade.


No entanto, quando circulamos em restaurantes considerados tradicionais em Belo Horizonte, nos confrontamos com muitos cardápios que se repetem em um prato: bife à parmegiana. O nome provoca um reconhecimento imediato. A associação com a Itália parece óbvia, quase automática. Parma, parmesão, tradição europeia. O prato parece carregar uma origem indiscutível.


Basta cruzar o Atlântico para esse imaginário se desfazer. Em Parma, o tal bife não existe. Nem ali, nem em nenhuma outra região da Itália. O que se encontra é a melanzane alla parmigiana: berinjela geralmente empanada, molho de tomate, queijo, tudo disposto em camadas. Aos nossos olhos brasileiros, lembra muito mais uma lasanha de berinjela do que qualquer bife. Não há carne bovina e nem aquela porção generosa que chega à mesa brasileira frequentemente acompanhada de arroz e batata frita.


De onde vem, então, esse bife à parmegiana tão presente entre nós? A resposta está no encontro entre culturas. Trata-se de uma expressão ítalo-brasileira, construída no diálogo entre referências trazidas por imigrantes e práticas alimentares difundidas no Brasil.


O nome carrega prestígio e memória europeia; o molho de tomate e o queijo reforçam continuidade simbólica; mas é a carne bovina, abundante nesse país marcado por um passado pastoril, que reorganiza o prato. Aqui, o bife assume centralidade, deslocando a berinjela e redefinindo a parmegiana a partir de outros hábitos, outros valores e outras expectativas à mesa. Não se copia uma receita: negocia-se sentido.


Em Belo Horizonte, essa parmegiana ganha contornos ainda mais próprios. Chega à mesa acompanhada de arroz, batata frita, às vezes massa, compondo um conjunto reconhecível e confortável. Circula sem esforço entre diferentes espaços, atravessando camadas sociais e estilos de serviço.


Mais do que herança estrangeira, o bife à parmegiana se afirma como prática cotidiana, resultado vivo de um diálogo cultural traduzido em comida. A parmegiana, com nome estrangeiro e corpo brasileiro, diz muito sobre como comemos e o que valorizamos aqui. E lembra, sem alarde, que tradição se constrói, diariamente, à mesa.


E, sim, levo minhas visitas para comer bife à parmegiana em Belo Horizonte. Não por acaso. E tenho meus preferidos.

As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.

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