A volta ao mundo em 80 segundos
O governador Mateus Simões (PSD) preferiria não acreditar que o ex-secretário de Estado Marcelo Aro (PP) está em campo alinhavando a própria candidatura
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Quando publicou a “A volta ao mundo em 80 dias”, em 1872, sob a inspiração da Revolução Industrial e das tecnologias que traziam a imaginação ao mundo real das possibilidades, Júlio Verne refletia também sobre o triunfo da vontade e da razão humana para superar desafios, aparentemente impossíveis. Ali está, Phileas Fogg, o protagonista, que planeja com rigor e ataca de frente o propósito de concluir a sua jornada em menos de três meses, em princípio movido por uma aposta de 20 mil libras e pelo orgulho de demonstrar, à sua roda de amigos, que seria capaz de tal façanha. Fogg mira o seu objetivo. Arrasta consigo o leal criado francês Jean Passepartout, em tradução livre, algo como Jean “Faz-tudo”. Ele segue, em princípio, sem olhar para trás, derrubando um a um os obstáculos. Quem vencerá a aposta?
O governador Mateus Simões (PSD) preferiria não acreditar que o ex-secretário de Estado Marcelo Aro (PP) está em campo alinhavando a própria candidatura ao governo de Minas, concorrente à dele. “Isso não combina com o ambiente de realidade. Há quatro anos no governo, como é que isso pode ser cogitado por alguém? Abandonar, não estou falando só da minha candidatura. E Zema?”, questiona Mateus, negando que vá exonerar 500 comissionados indicados por Aro na estrutura do governo. A dúvida é sempre boa companheira. Entretanto, a negação diante de fatos anunciados e em movimento incontornável de execução, em geral, presta-se à estratégia de dar um tempo ao outro para que repense o seu caminho.
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Mateus talvez sonhe que em algum passe de mágica, Aro vá alinhavar uma grande frente à direita e, na sequência, ceder a ele, Mateus, a cabeça da chapa. Ou talvez, Mateus espere que Marcelo Aro retorne à coligação com o PSD, com ele trazendo a Federação União Progressista, que lhe daria um tempo de antena fundamental para que exiba na campanha aqueles que considera “feitos”. Possivelmente, na cabeça do governador, Aro faria isso porque foi acolhido por Romeu Zema, depois de ser derrotado ao Senado em 2022. Em princípio, a partir de uma secretaria, Aro construiu um latifúndio de influências. Conseguiu fazê-lo porque Zema escolheu terceirizar o poder. Mateus é a vítima de uma estrutura distorcida, construída por um governador que atribuía valor menor à atividade política. Ao delegar o poder, não entendeu que a criatura ganhava musculatura e poderia devorar o criador.
Marcelo Aro não dá sinais de que vá recuar em seu projeto. Fixou a sua meta. A disputa ao Senado está difícil: está cercado à direita e à esquerda, alcançando, na média das duas escolhas – que somam, portanto, 200% – entre 10 e 11%. À frente dele estão Marília Campos (PT) e Aécio Neves (PSDB), empatados e, em seu encalço, estão Carlos Viana (PSD) e Domingos Sávio (PL). Aro não digere bem a perspectiva de que o segundo voto bolsonarista se incline a Carlos Viana, o que lhe reduz a chance de vitória. Nesse contexto, concorrer ao governo pode ser um projeto de menor risco. Mas há obstáculos. O primeiro: convencer Cleitinho a não disputar, “porque o futuro governo enfrentará condições fiscais precárias e ainda terá de pagar as parcelas da dívida com a União”. O segundo: arrancar de Cleitinho uma procuração assinada em branco, transferindo o seu capital político para ele, Aro. O terceiro: convencer a cúpula estadual e nacional do PL a aderir à aventura, atropelando os pré-candidatos da legenda, Flávio Roscoe (PL) e Vittorio Medioli (PL), com o argumento de que Cleitinho não será candidato e irá apoiá-lo, Aro. Quarto: supor que todos os prejudicados assistam impávidos à movimentação.
Esse é pois o enredo que Vittorio Medioli, ex-prefeito de Betim, classificou de “surreal”. Um século e meio depois da obra-prima de Júlio Verne, seria algo como uma volta ao mundo em 80 segundos. Entre as muitas razões que levaria a racionalidade a considerar tal viagem mirabolante, estão os dados estatísticos. Divulgada nesta terça-feira, 28, a mais recente pesquisa Genial Quaest de Minas Gerais aponta Cleitinho na liderança, pelo momento com folga, de três cenários em primeiro e de segundo turno da sucessão estadual. Um ano e meio depois de postergar a decisão, há um apelo e expectativa do eleitorado de Cleitinho: desistir, a esta altura, também poderá lhe impor desgaste político. E não apenas isso. Ao observar a situação de Mateus Simões no contexto do desembarque de Marcelo Aro do governo, Cleitinho poderá projetar as consequências de entregar o seu capital político a um terceiro. Irá, como Zema, delegar o seu poder eleitoral? Para quem? Por quê?
Disse não disse
Apesar do buchicho ao longo do dia, interlocutores próximos do senador Cleitinho (Republicanos) sustentam que ele será candidato ao governo de Minas. Em vídeo produzido por IA, Cleitinho conversa com o pai e o irmão, ambos falecidos: diz se sentir inseguro porque não conta mais com ambos. O pai lhe responde: “E que dia você teve medo na vida? Onde está a sua fé? Vá em frente”. O irmão se aproxima e lhe entrega a bandeira de Minas com a mensagem de que “o povo o espera”.
Com Kalil
O PSDB está próximo a selar acordo para coligação com o PDT de Alexandre Kalil na sucessão mineira. Aécio Neves (PSDB), presidente nacional da legenda, se inclina a concorrer ao Senado Federal. Em pesquisa Genial Quaest divulgada nesta terça-feira, Aécio Neves está bem posicionado na disputa, com 16% das intenções de voto. Marília Campos (PT) lidera, com 18%. Convenção do PSDB desta terça delegou à executiva o encaminhamento do partido nesta eleição.
Pauta bomba
A agenda imediata do Supremo Tribunal Federal (STF), no retorno do recesso na próxima segunda-feira, 3, inclui a eleição-tampão para o governo do Rio, a aplicação das emendas parlamentares e o vínculo entre trabalhadores e plataformas digitais. Ainda sem data estão o julgamento das mudanças na Lei da Ficha Limpa, da Lei da Dosimetria, além da revisão criminal de Jair Bolsonaro, da pejotização e da divisão dos royalties do petróleo. A Corte também continuará decidindo sobre investigações envolvendo o Banco Master e descontos fraudulentos no INSS.
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Ficha limpa
A questão eleitoral mais urgente, contudo, está fora da pauta do STF de agosto. Caberá à Corte definir se são constitucionais as mudanças feitas pelo Congresso na Lei da Ficha Limpa, que alteraram a contagem dos prazos de inelegibilidade e fixaram em 12 anos o limite de determinados impedimentos. A reforma continua em vigor enquanto não houver decisão em sentido contrário. O julgamento foi interrompido em 28 de maio por um pedido de vista de Gilmar Mendes. Antes da suspensão, Cármen Lúcia, relatora do caso, e Luiz Fux votaram para derrubar pontos centrais da nova legislação. Gilmar tem até 90 dias para liberar a ação, prazo que vence entre o fim de agosto e o início de setembro.
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.
