Bertha Maakaroun
Bertha Maakaroun
Jornalista, pesquisadora e doutora em Ciência Política
EM MINAS

Traição e os corpos caídos na sucessão

Quando negocia com liberais, Marcelo Aro reitera que "Cleitinho não será candidato". E garante que terá o apoio dele

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O ex-secretário de Estado de Governo Marcelo Aro (PP) se move com impressionante desenvoltura sobre os escombros da política mineira. Na mesma semana em que o senador Cleitinho (Republicanos) vive o luto pela perda de seu irmão Matheus Augusto Azevedo, de 30 anos, Aro obteve do presidente estadual do Republicanos, deputado federal Euclydes Pettersen, o compromisso de apoio da legenda, na hipótese de Cleitinho não concorrer ao governo de Minas. O presidente nacional do Republicanos, Marcos Pereira, reforça o mesmo posicionamento. “Se Cleitinho não for candidato....”

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Até aqui, Cleitinho está em silêncio. Mas Aro parece saber de algo que o senador ainda não tornou público. Nem Luís Eduardo Falcão (Republicanos), ex-prefeito de Patos de Minas, que se desincompatibilizou para um projeto político ao lado de Cleitinho, dá sinais de saber aquilo que Aro, a julgar por suas articulações, demonstra conhecer. Aro se move com a certeza de que Cleitinho não concorrerá, antecipando-se às palavras do maior interessado sobre o seu próprio futuro.

Quando negocia com liberais, Marcelo Aro reitera que “Cleitinho não será candidato”. E garante que terá o apoio dele. Se Cleitinho pedir uma das vagas ao Senado para o seu irmão Gleidson Azevedo na hipotética chapa encabeçada por Aro, ele também teria a vacina: acionaria Marcos Pereira, alertando-o para o “risco” de a chapa proporcional do Republicanos perder a tração de Gleidson. Se Gleidson for lançado ao Senado, o PL de Minas não se coligará ao Republicanos, pois tal candidatura concorreria com Domingos Sávio, cuja eleição é prioritária para a legenda em Minas. Nesse cenário, a coligação arquitetada por Aro viria por terra.

No PL de Minas, alguns deputados estaduais e federais sentem-se tratorados por uma articulação com a qual não se identificam e em relação à qual nem sequer foram consultados. O deputado federal Junio Amaral (PL-MG) é um deles. Em 2024, quando disputou a prefeitura de Contagem, o parlamentar procurou Marcelo Aro para pedir-lhe apoio, já que o PP havia se coligado com a prefeita Marília Campos (PT), que concorria à reeleição. Em entrevista a esta coluna nesta quinta-feira, 23, Junio Amaral revela que Aro condicionou o apoio: “Você vai me apoiar para o Senado daqui a dois anos?”. Junio Amaral respondeu-lhe que o apoiaria se ele estivesse no campo de Jair Bolsonaro. “Foi quando Aro me respondeu que se a condição era essa, não precisaria negociar comigo, porque o faria diretamente com Bolsonaro, que iria me mandar e eu obedeceria”, acrescenta Junio Amaral. “Além da afronta pessoal, a questão é: se ele se apresenta como centro-direita, teria, em tese, obrigação de se posicionar contra a esquerda. Isso conta”, afirma Junio Amaral.

Ao PL, Aro segue vendendo “a unidade” do campo da direita em torno de si, atropelando as pré-candidaturas ao governo de Minas do ex-prefeito de Betim Vittorio Medioli (PL) de Flávio Roscoe (PL), presidente licenciado da Fiemg. “Flávio Roscoe” é o nome grafado por Flávio Bolsonaro em certo rascunho de estratégias e candidaturas nos estados, ao final de fevereiro deste ano. Roscoe se licenciou da presidência da Fiemg seis meses, antes do pleito, e segue pré-candidato, na eventualidade de Cleitinho não concorrer. Flávio tem a preferência do outro Flávio, situação que apenas poderá ser chacoalhada, se Aro entregar apoios da Federação União Progressista em estados estratégicos que ainda não estão posicionados.

É nessa linha que, às lideranças do PL, Aro acena em troca do apoio à sua candidatura ao governo com a contrapartida de um arco-íris de estados. Até São Paulo entra, por vezes, nessa “contabilidade”, embora lá, União e PP, que no plano nacional declarararam neutralidade na disputa presidencial, já tenham hipotecado sustentação a Flávio Bolsonaro em sua convenção realizada em 20 de julho, sem necessidade de casar negociações entre partidos nos diferentes estados. Com esse mesmo discurso, Marcelo Aro foi atrás do senador Rogério Marinho (PL-RN). Prometeu entregar-lhe estados e a unidade da direita em Minas ao palanque de Flávio Bolsonaro.

Ao se referir à unidade da “direita”, Aro exclui, agora, o governador Mateus Simões (PSD) do campo. Até fevereiro, ele integrou pelo oitavo ano consecutivo a era Romeu Zema (Novo), sucedido por Simões. Neste atual governo, indicou e mantém secretários de primeiro escalão e pelo menos cinco centenas de comissionados que ainda estão nos cargos e integram a sua estratégia de campanha. Teve acesso ao orçamento do estado, com o qual construiu uma rede de relacionamentos com prefeitos e parlamentares. Contam interlocutores do governo Mateus Simões que nada que foi prometido a Aro deixou de ser cumprido. A alegada ruptura pela filiação do senador Carlos Viana (PSD) nunca foi parte do acordo, já que a chapa tem duas posições ao Senado.


RUSGAS

O relacionamento de Aro com Simões carrega rusgas. Em 2022, Aro tentou ser o vice na chapa de Zema à reeleição. Não conseguiu, pois, em convenção, o Novo homologou Simões como alternativa, caso o jornalista Eduardo Costa, então filiado ao Cidadania, não se viabilizasse. O compromisso com o governo Zema, e o de seu sucessor, é outro “corpo” que Aro deixa pelo caminho de seu projeto político, revelado a um grupo de 20 prefeitos, em jantar no Fasano: “Vocês são prefeitos, quem aqui quer poder? Querem poder? Venham comigo que vão ter poder. Meu projeto é ser senador, governador em 2030, ter o presidente do Tribunal de Justiça e fazer o procurador-geral de Justiça”, anunciou.

Ainda acompanhando a movimentação de Aro sem crer que esteja tramando abertamente contra o governo do qual é parte, Mateus Simões disse a esta coluna: “Se algo assim acontecesse, um membro do governo articulando para ser candidato contra o governo, se aproveitando da posição que ali tem para criar musculatura, acredito que o mundo político ficaria escandalizado. Especialmente, deputados e prefeitos que precisam saber que tratam com quem cumpre compromissos públicos. Afinal, a política perdoa tudo, menos traição”, declarou Simões a esta coluna.

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Aro segue, antecipando-se em 2026 aos seus próprios planos. Como diria o jornalista Aristides Lobo, em 1889, diante da proclamação da República, na qual a população não participou e acompanhou com apatia e espanto: “E o povo assistiu àquilo bestializado.”

As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.

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