Bertha Maakaroun
Bertha Maakaroun
Jornalista, pesquisadora e doutora em Ciência Política
EM MINAS

Mulheres do mundo, uni-vos!

Sim, mulheres são vítimas de violência na política, que também se escala na esfera privada, na esfera profissional e em todos os âmbitos da sociedade

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Michelle Bolsonaro queria reforçar os seus espaços de atuação no PL e se firmar na disputa com o enteado Flávio Bolsonaro por protagonismo no campo bolsonarista. Problema algum há nisso. A política é o espaço de embates entre lideranças e de ideias pela busca por convergências possíveis – e por vezes, até impossíveis. A ressalva está no gênero. Michelle é a “esposa” que, segundo a interpretação bíblica conferida pela fé que professa, deve ser “submissa” ao marido. Não à toa, ao divulgar as duas partes de seu bombástico vídeo, em que denuncia ter sido “humilhada” e “maltratada” por Flávio Bolsonaro, mencionou 30 vezes a palavra “marido”, sete vezes “Jair”, seis vezes “família” e três vezes “meu galego”.

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Michelle sustenta o seu argumento “passivo-agressivo” de enfrentamento a Flávio, demonstrando a sua capacidade política ao estruturar o PL Mulher no país – assim rebatendo a acusação do enteado de que ela não “entende” de política –, justifica o conteúdo que grava pela validação do “líder”. Ela não estaria participando da política por um desejo (legítimo) de exercer poder em defesa de causas, mas porque foi posta ali, pelo “chefe”.

Como Michelle Bolsonaro recebeu apoio da senadora Damares Alves (PL-DF), a machosfera bolsonarista se revoltou. E se articulou em ataques combinados, como de resto, é useira e vezeira contra mulheres que participam da esfera pública e reclamam por igualdade de oportunidades, salarial, e do direito à proteção de seus corpos.

Sim, mulheres são vítimas de violência na política, que também se escala na esfera privada, na esfera profissional e em todos os âmbitos da sociedade. As parlamentares mineiras Lohanna França (PV), Bella Gonçalves (PT), Beatriz Cerqueira (PT), Andréa de Jesus (PT), Juhlia Santos (PSOL), Cláudia Guerra (PDT), entre tantas outras, conhecem bem a violência política de gênero.

Para além desses ataques que se espalham contra mulheres da esquerda à direita, Paulo Figueiredo, neto do último presidente da ditadura militar, João Baptista Figueiredo, desferiu a última estocada. Figueiredo afirmou que mulheres votam mal, reverberando certo movimento nos Estados Unidos, promovido por pastores cristãos ultraconservadores, que defendem que mulheres não tenham direito ao voto.

No entendimento dessa corrente religiosa, liderada por pastores como Doug Wilson e Toby Sumpter, o voto deveria ser “em família”, capitaneado pelo “homem mantenedor”. Material nessa direção foi, certa feita, compartilhado em suas redes sociais pelo secretário de Defesa dos Estados Unidos, Pete Hegseth. Flávio Bolsonaro levou seis dias para repudiar publicamente a declaração de Paulo Figueiredo, que só não venceu o Oscar dos absurdos da semana, porque a esposa dele, a psicóloga Natalia Cordeiro, concordou integralmente, em entrevista à “Folha de S. Paulo”, com as declarações do marido sobre o voto feminino. Compreende-se.

Muitas mulheres estão conformadas por narrativas contrárias aos interesses do coletivo de mulheres por uma estratégia de sobrevivência. Algumas avaliam, nesse mundo dominado por machos inseguros – que se recusam a reconhecer como legítimos, sejam quais forem, os sentimentos e desejos das mulheres – que a forma mais segura de não se marginalizarem é a submissão, o alinhamento àqueles que estão no poder. Na voz da filósofa Andrea Dworkin, em sua obra seminal “Right-Wing Women” (1983), há mulheres que validam e promovem as mesmas estruturas que, eventualmente, as punirão se elas falharem em cumprir o papel designado ou se o poder masculino decidir descartá-las.

Talvez para Damares Alves e Michelle Bolsonaro, que dedicam a militância política ao recrutamento de mulheres para a esfera pública, em defesa de uma postura “adequada” aos princípios de “submissão”, que no limite vão votar em homens que propugnam essa ideologia, o choque do enfrentamento político com Flávio Bolsonaro tenha sido revelador. Talvez as desperte, caso ainda não tenham percebido, que a causa das mulheres da esquerda e da direita é precisamente a mesma. Direito à existência, direito à realização, direito aos espaços de poder e direito ao respeito. O nome disso? Sorry, mas é feminismo. Se essa palavra foi, em algum momento, demonizada em seu dicionário, o melhor a fazer é compreender de que lado você está nesta luta, antes que as estruturas se voltem contra você.


Agência Minas

A cada obra que consultava na espetacular biblioteca do Palácio das Mangabeiras, construído no governo JK para ser a residência oficial de governadores até 2019, Eduardo Azeredo (PSDB), governador de Minas entre 1999 e 2002, encontrava bilhetinhos. Grafias diferentes, conteúdos aparentemente desconexos com o teor dos livros, começou a colecioná-los. Azeredo gostava de mostrar “as relíquias” aos jornalistas que iam até lá entrevistá-los, tentando compreender por que tantas mensagens foram escondidas nos livros.

... de Hélio Garcia

Sem decifrar o enigma, certa vez, em visita ao seu antecessor, Hélio Garcia, comentou sobre os seus achados. Mostrou-os a Hélio, que, com sorriso enigmático, foi percorrendo cada bilhete. Contou o caso, bem ao seu estilo. “Ele me disse que tinha um deputado que levava uns dez pedidos a cada vez que o visitava nas Mangabeiras”, conta Eduardo Azeredo. A solução encontrada: Hélio Garcia escolhia alguns para serem atendidos e os demais, foi enfiando entre as páginas dos livros.

Restauração

Durante o governo Antonio Anastasia (2010 – 2014), o governador, amante da cultura e de livros, encaminhou os livros do Palácio das Mangabeiras para restauração no Arquivo Público. Um a um foram cuidadosamente recuperados. Mas, em 2020, quando o palácio foi desmontado para ser utilizado pela Casa Cor e, depois, consolidando-se como espaço comercial, dos 63 itens de mobiliário decorativo e obras de arte, que compunham a residência oficial, apenas 44 estão identificados e localizados. O deputado estadual Leleco Pimentel (PT) representou ao Tribunal de Contas do Estado (TCE) com pedido de providências para a recuperação do patrimônio.

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Assembleia ou governo?

Daniel Sucupira (PT), ex-prefeito de Teófilo Otoni e gestor do Programa Especial de Saúde do Rio Doce do Ministério da Saúde, deixa o cargo nesta sexta, 3, para concorrer à Assembleia Legislativa. Sucupira esteve em agenda com o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, nesta quinta, em Belo Horizonte, para a inauguração da UTI e Samu Inteligente do Hospital das Clínicas da UFMG, entre outros programas do Novo PAC Saúde. Lançado para concorrer ao governo de Minas por Marco Antônio Castello Branco, ex-diretor presidente da Codemge, em carta que circulou entre lideranças petistas, Daniel Sucupira avisa: “Não recebi nenhum convite formal do PT para mudar de posição. Reafirmo que sigo pré-candidato a deputado estadual”.

As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.

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