A ilusão dos gurus e o imponderável das eleições
Caso o pleito em primeiro turno ao Planalto fosse hoje, sabe-se que Flávio Bolsonaro manteria um terço de apoiadores leais; Lula, pouco mais de um terço
Mais lidas
compartilhe
SIGA NO
O economista alemão Achim Klement alcançou o status de “guru” porque nas três últimas Copas projetou corretamente o país campeão, com apoio de seu modelo estatístico. O negócio vinha dando certo, até que, nesta Copa de 2026, a fama conquistada foi ao chão: ele errou a previsão de que o Brasil seria eliminado pelo Japão, assim como falhou na previsão de que Marrocos eliminaria a Holanda, apontada por Klement como futura campeã. Para lá de interessante foi a reação de Klement, quando questionado sobre o desempenho de seu modelo. Segundo o economista, o estudo nasceu para demonstrar como as previsões esportivas podem ser ilusórias. “Tudo começou como um exercício para mostrar a arrogância dos economistas, que acreditam conseguir prever acontecimentos sobre os quais possuem poucas informações. Agora virou uma demonstração de que, quando você tem sorte várias vezes, as pessoas passam a acreditar que você é um guru”, disse.
Se no plano local, faltam informações mínimas de quais serão as candidaturas e como se organizam as forças políticas na sucessão mineira, na disputa presidencial, as cartas estão dadas e permitem projeções com boa probabilidade de acerto. Caso o pleito em primeiro turno ao Planalto fosse hoje, sabe-se que Flávio Bolsonaro (PL) manteria um terço de apoiadores leais; Lula (PT), pouco mais de um terço. As três candidaturas mais sólidas que tentam se apresentar como “terceira via” – Ronaldo Caiado (PSD), Renan Santos (Missão) e Romeu Zema (Novo) – não têm tração para ameaçar a presença de Lula e Flávio no segundo turno. Uma vez no segundo turno, Lula e Flávio concorreriam por uma faixa estreita de talvez um quarto do eleitorado independente ou não polarizado. Ambos “raspariam” o tacho das possibilidades: o presidente seria reeleito em segundo turno, com margem pequena, votado inclusive por alguns eleitores que desaprovam o seu governo, porque rejeitam mais a eleição de Flávio Bolsonaro do que a permanência do atual presidente. Assim projetam as pesquisas deste momento.
Leia Mais
Mas, como ensina Klement, não só economistas que constroem modelos para a predição de resultados, como também cientistas políticos que se dedicam às eleições, devem vestir as sandálias da humildade, particularmente nesta era da tecnopolítica. Para além da falta de transparência dos algoritmos que irão determinar os processos de distribuição da informação, com particular impacto na véspera dos pleitos, há eventos latentes no ambiente político com potencial para afetar os humores do eleitorado, principalmente independente.
No Supremo Tribunal Federal (STF), o ministro André Mendonça conduz investigações com impacto político-eleitoral, como os escândalos do Banco Master e as fraudes no INSS. É o senhor do tempo desses processos. Dos Estados Unidos, ações supostamente para combater organizações criminosas, agora classificadas como “terroristas”, podem atravessar a campanha eleitoral. Do Hemisfério Norte também virá novo tarifaço sobre produtos brasileiros, que Flávio Bolsonaro gostaria fosse adiado para depois das eleições. Em documento enviado ao Escritório de Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR), sugeriu o adiamento, por 180 dias, da aplicação da nova tarifa, com o argumento de que a imposição imediata poderia gerar um embate político, que fortaleceria a reeleição de Lula.
Modelos preditivos apontam probabilidades de vitória, tendências, mas, de fato, pouco podem com a complexidade de eventos despejados sobre o ambiente informacional, em contexto no qual eleitores absorvem, ato contínuo, todo fato relevante que se passa na esfera pública. As mulheres brasileiras detêm a chave do processo eleitoral brasileiro. Embora concorram menos do que homens aos cargos de representação político eleitoral – em 2024 e em 2022, 66% das candidaturas de todos os cargos eletivos foram masculinas –, as brasileiras comparecem mais para votação do que os brasileiros. Em 2024, nas eleições municipais, 79,23% das mulheres foram às urnas contra 77,33% dos homens; em 2022, 80,20% das eleitoras brasileiras compareceram contra 78,13% do eleitorado masculino.
Além do maior comparecimento para o voto, a clivagem de gênero se evidenciou de forma inequívoca nas duas últimas eleições presidenciais de 2018 e de 2022 no Brasil. Em 2022, 55% das mulheres escolheram Lula; 45% Jair Bolsonaro. Em 2018, enquanto o voto feminino se dividiu entre Fernando Haddad e Jair Bolsonaro; 60% dos homens votaram em Bolsonaro e 40%, em Haddad. Foram pleitos em que a figura de Jair Bolsonaro se consolida na cena pública, convergindo as forças antipetistas e narrativas comportamentais de viés conservador, características do campo da direita bolsonarista.
Pertencer à religião evangélica se apresenta como um fator que atenua a prevalência, entre mulheres, do voto em Lula. Os modelos preditivos apontam para a maior probabilidade de que o enquadramento proporcionado pelas ideias e valores disseminados pela religião, intermedeie a interação entre mulheres evangélicas e a avaliação de governos e intenção de voto. Quando comparadas às mulheres católicas, para uma expressiva parcela de mulheres evangélicas, parte do efeito esperado de ser mulher sobre as atitudes e comportamentos políticos mais avesso à pauta bolsonarista é filtrada e parcialmente mitigada pela disseminação das crenças evangélicas.
Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia
Embora menosprezada pelos enteados, preocupados que estão em afastar da esfera pública a madrasta Michelle Bolsonaro (PL), que reivindica o protagonismo político do campo bolsonarista, ela tem potencial para abalar a convicção de uma parcela de mulheres evangélicas em Flávio Bolsonaro. Não é pouca coisa numa eleição polarizada, com atitudes cristalizadas, que se mexem pouco, seja qual for o escândalo ou pacote de bondades. Eis, portanto, mais uma variável com potencial para afetar os resultados do pleito, que estará fora do alcance dos modelos preditivos: para onde caminhará Michelle? Pax ou guerra?
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.
