Zema e Mateus no teatro do bem contra o mal
Animado com a visibilidade que alcançou na mídia nacional pelo tolo palanque que o ministro Gilmar Mendes lhe ofereceu, o ex-governador mineiro ganhou fôlego
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Embora homenageado com a Grande Medalha da Inconfidência, André Mendonça, ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) não compareceu à solenidade deste 21 de Abril em Ouro Preto. Sempre é possível inferir as razões. Se viesse, estaria respaldando a narrativa discursiva do ex-governador Romeu Zema (Novo), que, decidido a usar o desgaste do STF como escada à sua pré-campanha à Presidência da República, enquadrou instituição no campo do “mal” a ser combatido, contra o qual, ele Zema, seria a “encarnação do bem”.
Animado com a visibilidade que alcançou na mídia nacional pelo tolo palanque que o ministro Gilmar Mendes lhe ofereceu, o ex-governador mineiro ganhou fôlego para seguir, impoluto, fazendo política com o discurso da antipolítica. O discurso tosco toca na frustração difusa que domina a alma de tantos cidadãos das democracias ocidentais em crise. Ao mesmo tempo em que pretende se apresentar como “autêntico”, usa o “inimigo” como amálgama: o STF, o governo federal, o PT, a carga tributária colonial são lançados no mesmo saco, o monstro único, que ele chama de “Os Intocáveis”. É a nova versão do “nós” contra “eles.
O ex-governador segue na cantilena que um dia deu resultado com Jânio Quadros e, em outra época, com Fernando Collor de Mello, o caçador de marajás. Desta vez, acertou em cheio o alvo predileto da direita bolsonarista à qual emite acenos: atacou um STF em seu pior momento, com alguns de seus ministros na berlinda. Tais mazelas, que precisam ser corrigidas, contudo, não diminuem a importância da Alta Corte.
Essa é a complexidade da política. Bem e mal não são uma combinação binária excludente. Como entendem os brasileiros, 71% consideram o STF fundamental na defesa da democracia. Ditaduras, sabe-se como começam, não como terminam. Que o diga Carlos Lacerda. Ao mesmo tempo, 75% criticam o envolvimento de ministros com o caso Master. São dados do Datafolha.
Talvez Zema tenha imaginado que André Mendonça, sendo um ministro indicado pelo ex-presidente da República Jair Bolsonaro (PL), viria a Minas, em gesto de desagravo ao ex-governador mineiro. É uma interpretação que demonstra incompreensão do papel institucional de Mendonça, que não quer ser associado às narrativas de uma pré-campanha eleitoral, sobretudo porque assumirá a vice-presidência do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
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Para além do “momento Zema”, a cerimônia da Medalha da Inconfidência ganhou o seu “momento Mateus Simões” (PSD). O governador, que iniciou o seu discurso em suave voz declarando seu amor à advogada e primeira dama Christiana Renault, foi subindo o tom quando, interpretando, ao seu modo trechos do discurso do anfitrião e prefeito Ângelo Oswaldo (PV), anunciou aos homenageados que caberia ali um “desagravo”.
Em referência à confirmação pelos peritos da Polícia Federal da autenticidade dos manuscritos de Tiradentes que constam do exemplar “Recolha das Leis Constitutivas dos Estados Unidos da América”, no Museu da Inconfidência de Ouro Preto, o prefeito enalteceu a importância da cultura, do aprendizado da história e da criação artística como escolas de formação cívica-militante. Ângelo Oswaldo contrapôs essa formação cidadã militante, que acredita deva pulsar nas escolas públicas, à crítica da perspectiva das escolas cívico-militares, defendida por Mateus Simões. São posições diferentes. Eis a beleza de quem tem repertório para expressá-las com vigor. O prefeito tem.
Mateus Simões decidiu fazer das palavras de Ângelo Oswaldo um ato político em aceno aos militares, uma categoria em relação à qual enfrenta resistências em Minas Gerais. O governador iniciou chamada nominal de almirantes, generais, coronéis entre os militares de outras patentes para que se levantassem e recebessem aplausos. Foi espetáculo de um controverso jardim de infância. Mas, a boa notícia para os policiais militares, é que premido pelo ano eleitoral, Mateus Simões também anunciou que o governo de Minas irá apoiar a Proposta de Emenda Constitucional 40, das Câmaras Municipais, que tramita na Assembleia e prevê correção da remuneração dos militares e demais membros das forças de segurança anualmente. O governador sabe que sem conquistar os militares, não terá o PL em seu palanque. Diria Millôr Fernandes: "Livre pensar é só pensar. Em ano de eleição, o político não pensa; ele calcula”.
Ausência
O ex-secretário de Estado de Governo e pré-candidato ao Senado, Marcelo Aro (PP) era homenageado com a promoção da Grande Medalha da Inconfidência. Não compareceu. Recebeu a mesma honraria o senador Carlos Viana (PSD), candidato à reeleição, desafeto político filiado por Mateus Simões à sua legenda sem combinação prévia com Marcelo Aro, que foi secretário-geral do Conselho da Medalha.
Presentes
Entre os vários parlamentares homenageados, apenas três compareceram. O deputado federal Pedro Aihara (PP) e os deputados estaduais Noraldino Júnior (PSB) e Marquinhos Lemos (PT).
Massacre de Felisburgo
Após mais de 22 anos do Massacre de Felisburgo, no Vale do Jequitinhonha, em que cinco trabalhadores sem-terra foram assassinados, o presidente Lula assinou, em janeiro de 2026, o decreto de desapropriação da Fazenda Nova Alegria. O crime aconteceu em 20 de novembro de 2004, dois anos depois da ocupação da fazenda. O dono das terras e grileiro, Adriano Chafik Luedy, seu primo Calixto e 15 empregados invadiram o acampamento Terra Prometida atirando. Além dos mortos, deixaram vários feridos e destruíram a estrutura do acampamento
e as plantações.
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Reforma agrária
Em audiência pública solicitada pela deputada estadual Bella Gonçalves (PT), na Câmara Municipal de Felisburgo, os trabalhadores rurais sem-terra e moradores da cidade, reivindicaram a reforma agrária. O diretor do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra, Sílvio Neto, considerou simbólico o encontro quando se completam 30 anos do massacre de 21 trabalhadores rurais sem-terra no Eldorado dos Carajás. “Nos últimos 30 anos, 1.492 vidas foram tiradas devido à luta pela terra, mostrando como o campo é marcado pela violência”, disse Sílvio Neto.
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.
