A pele uniforme, iluminada e com aspecto naturalmente saudável virou um dos maiores desejos de beleza dos últimos anos. Popularizada nas redes sociais por influenciadores e vídeos de rotina de cuidados, a chamada glass skin — ou “pele de vidro” — transformou o skincare coreano em um fenômeno mundial e despertou o interesse dos brasileiros por cosméticos importados, fórmulas inovadoras e rituais que podem chegar a mais de dez etapas diárias.

Os números mostram que a tendência está longe de ser passageira. Levantamento da NIQ, empresa especializada em inteligência de consumo, aponta que as vendas globais de produtos de beleza coreanos cresceram 53% em valor no último ano e acumulam alta de 131% nos últimos dois anos. Na América Latina, o Brasil lidera esse movimento, com crescimento de 135% nas vendas.

O avanço acompanha o protagonismo da Coreia do Sul na indústria mundial de cosméticos. Em 2025, o país ultrapassou os Estados Unidos e se tornou o segundo maior exportador de produtos de beleza do mundo, atrás apenas da França. No Brasil, o interesse também aparece nas buscas do Google Trends, com aumento das pesquisas por termos como “shampoo coreano” e “máscara coreana”, indicando que os consumidores estão cada vez mais dispostos a incorporar esses rituais de cuidado à rotina.

Para Sérgio Mena, CEO da Abrafarma, a chegada das marcas coreanas representa mais do que uma nova oferta de produtos. “É uma cultura de cuidado com a pele baseada em ciência, inovação, prevenção e na construção de rotinas que valorizam a saúde da pele a longo prazo.” Segundo ele, trata-se de uma tendência consolidada em diversos mercados internacionais e que agora passa a estar mais acessível ao consumidor brasileiro.

O que explica o sucesso do skincare coreano?

Na Coreia do Sul, cuidar da pele faz parte da cultura desde cedo. Meninos e meninas aprendem ainda na adolescência a importância da proteção solar, da hidratação e da prevenção de manchas e do envelhecimento precoce.

Essa lógica preventiva influenciou diretamente o desenvolvimento dos cosméticos do país, conhecidos por fórmulas sofisticadas e ingredientes como centella asiática, niacinamida, extratos fermentados, ácido hialurônico de baixa molécula, probióticos e ativos botânicos.

Para Cíntia Dias Marques Penna, gerente comercial Beauty da Araujo, um dos principais diferenciais das marcas coreanas é o investimento constante em pesquisa. “Estamos falando de um mercado extremamente exigente, que desenvolve produtos com forte base científica e foco em resultados. As marcas coreanas se consolidaram justamente pela capacidade de unir tecnologia e eficácia.” 

Ela destaca ainda que as empresas investem continuamente em tecnologias como encapsulação de ativos, processos de fermentação e emulsões que preservam a estabilidade das fórmulas e aumentam sua absorção pela pele, mantendo preços competitivos quando comparados a cosméticos premium internacionais.

Mas, apesar da fama, a dermatologista Renata Castilho alerta que copiar integralmente a rotina coreana nem sempre é uma boa ideia. “O que funciona muito bem para uma pele asiática pode não trazer os mesmos benefícios para quem vive no Brasil. Em alguns casos, pode até piorar determinados problemas dermatológicos.”

O que diferencia a rotina coreana?

Ao contrário de muitos tratamentos ocidentais, que costumam focar na correção de problemas já instalados, o skincare coreano prioriza a prevenção e a manutenção da saúde da pele.

Entre as principais características da rotina estão:

  • hidratação em camadas leves

  • valorização do brilho natural da pele, em vez do efeito totalmente matte

  • uso de texturas aquosas, géis e loções de rápida absorção

  • combinação de diferentes etapas de cuidado, como óleo de limpeza, sabonete facial, tônico, essência, sérum, máscara, hidratante e protetor solar

  • preferência por ingredientes calmantes, botânicos e fermentados

Segundo a especialista, essa proposta foi desenvolvida considerando as características predominantes da pele asiática, que costuma apresentar maior predisposição à hiperpigmentação e às manchas inflamatórias, exigindo cuidados mais delicados.

A filosofia preventiva também aparece nos produtos para os cabelos. Em vez de focar apenas na recuperação dos fios danificados, muitas fórmulas coreanas priorizam o equilíbrio do couro cabeludo, a hidratação contínua e o fortalecimento da fibra capilar.

Entre as tendências estão produtos voltados para a reparação da barreira cutânea, ingredientes como ceramidas, peptídeos e centella asiática, além de ativos fermentados e fórmulas multifuncionais.

Quem pode se beneficiar?

Segundo Renata Castilho, pessoas com pele normal, seca, sensível ou desidratada costumam ser as que mais se beneficiam da proposta coreana - desde que os produtos sejam escolhidos de forma individualizada.

“Se a pele é fina, opaca, sensível ou reativa, produtos com fórmulas suaves, ativos calmantes e livres de fragrâncias agressivas podem ajudar a recuperar o equilíbrio e o viço. O problema é quando as pessoas tentam reproduzir toda a rotina sem entender as necessidades da própria pele.”

Quem deve ter mais cautela?

Nem toda pele responde da mesma forma ao skincare coreano. A dermatologista destaca alguns grupos que merecem atenção:

  • Peles oleosas ou acneicas: o excesso de camadas hidratantes pode aumentar a oleosidade, favorecer a obstrução dos poros e agravar a acne.

  • Pessoas com rosácea ou dermatite: ingredientes fermentados, embora naturais, podem desencadear irritações ou reações alérgicas.

  • Quem se expõe muito ao sol: alguns ativos clareadores exigem cuidados extras e podem favorecer o aparecimento de manchas quando associados à radiação solar intensa.

  • Pacientes que utilizam ácidos, retinoides ou realizam procedimentos dermatológicos: a combinação indiscriminada de produtos pode provocar irritação, descamação e sensibilização da pele.

“Skincare não é receita de bolo. O que deixa uma pele radiante em Seul pode não funcionar - ou até prejudicar — uma pele exposta ao clima quente, úmido e ensolarado do Brasil.”

O que considerar antes de aderir ao K-beauty?

Antes de incorporar produtos coreanos à rotina, a orientação é evitar reproduzir tendências vistas nas redes sociais sem avaliação individual.

Os especialistas recomendam:

  • priorizar uma rotina simples e personalizada, sem a necessidade de seguir dez etapas

  • ler atentamente os rótulos e conhecer os ingredientes

  • observar sinais como vermelhidão, ardor, acne ou excesso de brilho, que podem indicar intolerância

  • considerar o clima brasileiro, que pode tornar produtos muito densos desconfortáveis ou excessivamente oclusivos

  • começar por produtos mais leves, como tônicos, essências e séruns

  • procurar orientação dermatológica antes de associar diferentes ativos ou iniciar tratamentos

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Para Renata Castilho, o sucesso do skincare coreano está na inovação e na qualidade das formulações, mas não existe uma rotina universal. “Trazer produtos coreanos para a rotina pode ser enriquecedor, desde que isso seja feito com consciência. Quando há excesso, sobreposição ou uso inadequado, o que deveria ser autocuidado pode se transformar em frustração. O ideal é adaptar os produtos à realidade de cada pele e, sempre que possível, contar com a orientação de um dermatologista.”

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