ALIMENTAÇÃO

Seu filho pede comida o tempo todo nas férias? Pode não ser fome

Nutricionista revela o verdadeiro motivo por trás do apetite insaciável das crianças no recesso escolar e o erro comum que os pais cometem

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As férias escolares costumam alterar completamente a rotina das crianças (e dos pais). Sem os horários da escola, das atividades extracurriculares e dos compromissos diários, muitos pais percebem um comportamento que se repete dentro de casa: os filhos parecem pedir comida o tempo todo. Mas será que essa fome é realmente física?

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A nutricionista Sophie Deram, doutora pelo Departamento de Endocrinologia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), sugere que o aumento na procura por alimentos durante as férias pode ser um sinal de comer emocional, ou seja, muito mais relacionado ao contexto e à busca por recompensa do que à fome física — esta, sim, uma necessidade fisiológica. 

"Durante as aulas, a rotina é naturalmente estruturada. Existem horários para comer, brincar, estudar e descansar. Nas férias, esse ritmo muda, e é comum que a criança procure uma comida diferente, mais acessível dentro de casa, como uma forma de preencher momentos de ociosidade ou de buscar estímulos. Isso não significa, necessariamente, que ela esteja com fome", explica. 

 

A especialista destaca que comer também é uma experiência prazerosa, e o cérebro aprende rapidamente a associar determinados alimentos ao bem-estar e ao alívio do desconforto causado pelo tédio. "O nosso cérebro gosta de novidades, diversão e recompensa. Quando a criança está sem muitas opções de atividades, a comida pode se tornar uma das fontes mais fáceis e imediatas de prazer", afirma. 

O que fazer?

Em vez de responder automaticamente a cada pedido por comida, Sophie recomenda que os pais prestem atenção ao ritmo das refeições e mantenham uma rotina com as principais refeições, como café da manhã, almoço, lanche da tarde e jantar.

"Quando vem o pedido da criança fora das refeições, vale fazer uma pequena pausa antes de oferecer um lanche e perguntar com carinho: 'Será que você está com fome ou está procurando algo para fazer?'. Não é uma forma de negar comida, mas de ajudar a criança a reconhecer os próprios sinais de fome e saciedade. Essa consciência é uma habilidade que será importante para toda a vida", ensina.

Outro ponto importante é evitar transformar os alimentos em prêmio, distração ou solução para qualquer emoção. "Quando usamos a comida para aliviar o tédio, recompensar ou acalmar uma frustração, ensinamos, sem perceber, que comer é uma resposta para diferentes emoções. O ideal é preservar o papel principal da alimentação: nutrir o corpo com prazer e satisfação, sem fazer julgamentos sobre alimentos bons ou ruins e sem focar apenas no que é 'saudável' ou permitido. Uma relação tranquila com os alimentos permite que a comida não ocupe o cérebro como fonte de recompensa nem assuma funções emocionais", explica Sophie.

A boa notícia é que pequenas mudanças na rotina podem fazer bastante diferença durante o período de férias. Abaixo, Sophie compartilha algumas estratégias simples que ajudam a organizar melhor os dias e diminuem a procura frequente por alimentos:

  • Mantenha horários relativamente previsíveis para as principais refeições e lanches.
  • Deixe frutas e alimentos in natura disponíveis, assim como bolos caseiros na hora das refeições.
  • Capriche em refeições saborosas.
  • Incentive brincadeiras, leitura, jogos, atividades ao ar livre e momentos criativos entre as refeições.
  • Evite que comer seja a principal opção de entretenimento dentro de casa.
  • Inclua as crianças no preparo das refeições sempre que possível.
  • Respeite os sinais de fome e saciedade da criança, sem insistir para que ela coma além da conta nem restringir excessivamente os alimentos.

Para a especialista, também mãe de quatro filhos, o importante é lembrar que as férias são um período de convivência e aprendizado, além de uma oportunidade para fortalecer uma relação mais saudável com a alimentação.

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"As crianças aprendem muito mais observando do que ouvindo. Quando a família vive uma relação tranquila com a comida, faz refeições à mesa, respeita os sinais de fome e saciedade e encontra outras formas de lazer além de comer, esse comportamento tende naturalmente a fazer parte da infância. Não precisamos controlar cada mordida, mas criar um ambiente em que a alimentação tenha o seu lugar, sem ocupar todos os espaços da vida."

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