Hábitos comuns ameaçam saúde ocular e podem aumentar risco de perder visão
De acordo com a OMS, práticas nocivas do dia a dia acabam atrasando diagnóstico e favorecendo casos de cegueira evitável
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Trocar o grau dos óculos com frequência, notar halos ao redor das luzes, ter dificuldade para dirigir à noite ou conviver com uma coceira persistente nos olhos são sinais que muita gente costuma atribuir ao cansaço, ao excesso de telas ou à rotina corrida.
Mas esses sinais, aparentemente simples, podem indicar doenças oculares importantes. Em alguns casos, o que poderia ser detectado em uma consulta com o oftalmologista passa despercebido e provoca um atraso decisivo, que pode definir entre preservar a visão ou perder parte dela.
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A médica oftalmologista Polliana Alvarenga, membro do Conselho Brasileiro da Academia Americana de Oftalmologia, destaca que a maior parte das perdas visuais evitáveis hoje está relacionada a hábitos cotidianos, que muitas vezes parecem inofensivos. Ela também ressalta que o tempo é um fator central.
“Estamos nos referindo a casos em que o diagnóstico precoce interrompe um dano que, uma vez consolidado, não pode ser revertido. Em doenças como glaucoma, degeneração macular relacionada à idade, retinopatia diabética e ceratocone, o atraso de alguns meses ou anos pode aumentar drasticamente as chances de evolução para um quadro irreversível, isso fora as doenças consideradas urgência oftalmológica, como o descolamento de retina, em que dias e horas fazem a diferença”, explica.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que pelo menos 2,2 bilhões de pessoas no mundo tenham algum tipo de deficiência visual ou cegueira, e que pelo menos 1 bilhão desses casos poderiam ter sido prevenidos, ou ainda não receberam o tratamento adequado. No Brasil, o Ministério da Saúde reforça que a detecção precoce de problemas oculares pode evitar a cegueira e recomenda consultas regulares com o oftalmologista.
O Ministério da Saúde também aponta glaucoma, retinopatia diabética, degeneração macular relacionada à idade, catarata e erros de refração entre as principais doenças oculares responsáveis por grande parte dos atendimentos oftalmológicos no país.
Sintomas discretos que não devem ser ignorados
Um dos maiores desafios da saúde ocular, segundo a médica oftalmologista, é que muitas doenças começam de forma silenciosa ou com sintomas pouco específicos. “Na maior parte dos casos, os sinais iniciais costumam ser sutis e facilmente ignorados. Sinais como alterações do campo visual percebidas ao se esbarrar em objetos com frequência, dor ocular leve acompanhada de halos ao redor das luzes podem indicar um quadro de glaucoma”.
Já a troca frequente de grau em intervalos menores que um ano, quando vem junto com perda de nitidez ou distorção da visão, pode apontar para o ceratocone, uma doença que altera a curvatura da córnea. Visão borrada ou que oscila ao longo do dia, maior dificuldade para enxergar à noite, manchas no centro da visão e flashes de luz também podem estar relacionados a alterações na retina, conforme aponta a oftalmologista.
Jovens também estão em risco
Embora a perda visual seja frequentemente associada ao envelhecimento, algumas doenças da córnea podem comprometer gravemente a visão de pessoas jovens e aparentemente saudáveis. Como a córnea é responsável por focar a luz, qualquer dano em sua curvatura ou transparência pode ser devastador, explica Polliana, que também é especializada em transplante de córnea e tem fellowship em córnea cirúrgica avançada pela Unifesp.
“Entre os principais cenários de alerta estão as ceratites infecciosas bacterianas, inflamações graves da córnea que têm como um dos principais grupos de risco os usuários de lentes de contato que não seguem corretamente as regras de higiene, adaptação e descarte”.
Dormir com lentes, usar o produto após o prazo recomendado, higienizar de forma inadequada ou expor as lentes à água do chuveiro e da piscina aumentam o risco de infecções. A oftalmologista reforça que comprar lentes de contato sem avaliação e acompanhamento médico é um dos pontos mais preocupantes hoje para a classe profissional.
“A lente de contato é um corpo estranho e precisa estar adaptada à curvatura específica da córnea. Uma lente mal ajustada pode diminuir a chegada de oxigênio à córnea”, alerta.
Outro problema comum entre jovens é o ceratocone, que muitas vezes está associado à coceira intensa e ao hábito de esfregar os olhos. A condição pode causar uma distorção progressiva da visão e, nos casos mais avançados, exigir tratamentos mais complexos.
Traumas oculares também entram na lista de preocupações. De acordo com Polliana, dependendo da gravidade, eles podem afetar não só a córnea, mas outras estruturas do olho, evoluindo para atrofia ocular e perda irreversível da visão.
Colírios usados por conta própria podem mascarar doenças
A automedicação com colírios é outro hábito que preocupa os oftalmologistas. Produtos usados para “clarear os olhos”, colírios com corticoide ou até mesmo antibióticos podem causar complicações.
Polliana afirma que o uso de qualquer medicamento ou substância utilizada nos olhos deve ser feito com acompanhamento e prescrição médica, caso contrário, pode aumentar a pressão ocular, acelerar casos de catarata e mascarar problemas que precisam de tratamento urgente. “A tecnologia e a facilidade de compra criaram uma falsa sensação de segurança, mas os olhos continuam sendo órgãos biológicos extremamente delicados”, diz.
O alerta vale especialmente para quem repete receitas antigas, usa colírio indicado por familiares ou compra produtos sem passar por avaliação médica. Mesmo sintomas comuns, como vermelhidão, ardência e coceira, podem ter causas diferentes e, por isso, exigir tratamentos distintos.
Telas, miopia e olho seco
O uso intenso de celulares, computadores e tablets também apresenta risco frequentemente negligenciado. “Isso tem gerado uma epidemia de miopia em crianças, que, ao apresentarem graus mais elevados, aumentam muito o risco de descolamento de retina e doenças da mácula no futuro. Além disso, gera fadiga visual, visão flutuante e dificuldade de foco, favorece o quadro de olho seco devido a diminuição do piscar”, alerta a oftalmologista.
A médica pontua que medidas simples, como pausas regulares, maior tempo ao ar livre para crianças e avaliação oftalmológica periódica, ajudam a reduzir riscos. No caso do olho seco, lubrificantes podem ser indicados, mas a escolha do produto deve considerar a avaliação médica, especialmente quando há sintomas persistentes.
Mitos sobre o transplante de córnea
Quando doenças da córnea evoluem, alguns pacientes podem precisar de transplante. Mas o procedimento ainda é cercado de desinformação. “Muita gente acredita que se retira o olho inteiro, quando apenas a camada transparente da frente do olho é trocada, como se trocássemos o vidro riscado de um relógio”, explica Polliana.
Segundo a médica, o transplante de córnea pode ser indicado quando há perda da transparência da córnea, como em cicatrizes causadas por infecções graves e em algumas distrofias corneanas de origem genética. Também pode ser necessário em casos avançados de ceratocone, quando a curvatura da córnea compromete a visão mesmo com óculos ou lentes de contato corretivas.
No Brasil, a doação de córneas é organizada pelo Sistema Único de Saúde, com fila regulada por ordem de inscrição e critérios de priorização. Polliana ressalta que, diferentemente de outros tipos de transplante, não há necessidade de compatibilidade como ocorre em alguns órgãos, nem uso de medicações orais pelo resto da vida. Ainda assim, existe risco de rejeição, e a recuperação exige cuidados rigorosos.
A boa notícia é que nem toda perda visual causada por alterações na córnea precisa chegar ao transplante. “Tecnologias como lentes esclerais, crosslinking e anel intracorneano podem melhorar a qualidade visual ou retardar a progressão de algumas doenças, especialmente quando o diagnóstico é feito antes de estágios avançados”.
Quando procurar atendimento
Para a oftalmologista, a principal mensagem é não esperar a visão piorar de forma importante para buscar ajuda. “Consultas oftalmológicas devem fazer parte dos cuidados com a saúde desde o nascimento até a vida adulta. O check-up anual deve ser realizado na presença de sintomas oculares leves ou mesmo na ausência deles”, afirma Polliana.
A recomendação é procurar atendimento com urgência em casos de flashes de luz, manchas súbitas na visão, perda de campo visual, dor ocular, trauma, piora rápida da visão ou suspeita de infecção associada ao uso de lentes de contato.
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Nos demais casos, sintomas persistentes como coceira, visão embaçada, halos, dificuldade para enxergar à noite e troca frequente do grau também não devem ser normalizados. Como resume a especialista, muitas causas de perda visual podem ser evitadas, desde que sejam identificadas a tempo.