FADIGA EMOCIONAL

Necessidade permanente de performar felicidade tem impactos na saúde mental

Exposição nas redes sociais deixa o cérebro em estado de monitoramento e influencia relações afetivas e produtividade profissional, alerta neuropsicóloga

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A sensação de exaustão que muitas pessoas relatam atualmente nem sempre está ligada apenas ao excesso de trabalho ou à rotina acelerada. Em muitos casos, o desgaste vem da pressão silenciosa de precisar parecer bem o tempo inteiro, emocionalmente equilibrado, produtivo, saudável, bonito, presente e feliz. Nas redes sociais, essa performance constante deixou de ser pontual e passou a funcionar como uma exigência cotidiana.

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Para a neuropsicóloga Thaís Barbisan, o fenômeno já aparece de forma recorrente nos consultórios e reflete um estado de vigilância emocional permanente, em que até momentos de descanso acabam sendo atravessados pela necessidade de validação e comparação.

“Existe hoje uma cobrança subjetiva para que as pessoas não apenas vivam experiências, mas também consigam transformá-las em uma versão socialmente desejável de si mesmas. Isso gera uma fadiga emocional muito grande, porque o cérebro permanece em estado contínuo de monitoramento e autoavaliação”, explica.

Segundo a especialista, diferentemente do que acontecia anos atrás, a exposição não ocorre apenas em situações específicas. Ela se tornou parte da vida cotidiana, influenciando desde relações afetivas até produtividade profissional, maternidade e autoestima.

“A pessoa não descansa emocionalmente porque sente que precisa sustentar uma imagem coerente o tempo inteiro. Mesmo em momentos de lazer, existe uma preocupação constante com desempenho social, comparação e pertencimento”, afirma Thaís.

A exaustão de performar felicidade

Embora as redes sociais sejam frequentemente associadas à conexão e entretenimento, especialistas observam um aumento de sintomas relacionados à ansiedade, esgotamento emocional e sensação de insuficiência, especialmente entre mulheres e jovens adultos.

Para Thaís, um dos principais efeitos desse comportamento é a dificuldade crescente de acessar emoções reais sem julgamento ou culpa. “Muitas pessoas perderam a referência do que sentem genuinamente porque vivem tentando administrar a percepção que os outros terão delas. Isso produz um distanciamento emocional importante e uma sensação constante de inadequação”, pontua.

A neuropsicóloga destaca, ainda, que o excesso de estímulos e comparação ativa mecanismos cerebrais ligados à recompensa imediata e à vigilância social, favorecendo estados de ansiedade persistente.

“O cérebro humano não foi preparado para lidar com comparação social em escala contínua. Quando passamos horas expostos à vida editada de centenas de pessoas, nossa percepção de realidade também se distorce”, diz.

Quando o cansaço emocional vira anestesia

Outro ponto observado nos consultórios é o aumento de pessoas altamente funcionais, mas emocionalmente esgotadas, indivíduos que continuam trabalhando, produzindo e cumprindo tarefas enquanto convivem com uma sensação de vazio, irritabilidade ou desconexão afetiva.

“Nem sempre o adoecimento aparece como uma crise evidente. Muitas vezes ele surge como anestesia emocional, dificuldade de sentir prazer, impaciência constante, culpa ao descansar e sensação de nunca ser suficiente”, explica Thaís.

Ela ressalta que o problema não está necessariamente nas redes sociais em si, mas na relação de dependência emocional construída a partir delas. “As redes amplificam uma lógica que já existe socialmente: a ideia de que valor pessoal está diretamente ligado à performance. O problema começa quando a pessoa acredita que só merece reconhecimento se estiver sempre produzindo, sorrindo ou aparentando controle”, afirma.

Desconexão

Diante desse cenário, a especialista reforça que saúde mental não está relacionada apenas à ausência de transtornos, mas também à capacidade de existir sem performance contínua. Para Thaís, criar limites digitais e reduzir a necessidade de validação externa são movimentos importantes para preservar o funcionamento emocional e cognitivo.

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“Desconectar não significa abandonar a vida digital, mas recuperar espaços de autenticidade. O ser humano precisa de momentos em que não esteja sendo avaliado, comparado ou exposto o tempo inteiro”, afirma.

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