Infância sob estímulo constante: O que o excesso de telas está fazendo com
Uso excessivo de telas na infância levanta debate sobre impactos no desenvolvimento e na saúde mental de crianças
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As diversas afirmações e comentários circulando pelas redes sociais que crianças de cinco anos estariam “surtando” e precisando de internação psiquiátrica por causa do uso excessivo de celular estão provocando polêmica. A frase assusta e, embora simplifique um fenômeno complexo, aborda uma preocupação real de saúde pública.
Ao contrário do que se pensa, o cérebro infantil não é um cérebro adulto em miniatura. Nos primeiros anos de vida, especialmente até os seis anos, ocorre intensa formação e reorganização de conexões neurais. A fase é marcada por alta plasticidade cerebral, quando experiências moldam circuitos relacionados à linguagem, controle inibitório, empatia e autorregulação emocional.
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Quando a estimulação predominante vem de telas digitais — rápidas, altamente recompensadoras e com forte apelo sensorial — o sistema dopaminérgico é ativado de maneira intensa e repetitiva. Os aplicativos, jogos e vídeos curtos proporcionam recompensas imediatas, reduzindo a tolerância à espera e à frustração.
O resultado é observado em consultórios e escolas: irritabilidade aumentada, crises de choro intensas ao retirar o dispositivo, dificuldades de concentração, alterações no sono e menor engajamento em interações presenciais.
É importante esclarecer que o celular não é, isoladamente, o vilão. O aparelho está dentro de um contexto mais amplo, englobando rotinas desorganizadas, privação de sono, sobrecarga familiar e redução do tempo de convivência qualitativa. Infelizmente, em muitos lares, o aparelho se tornou um mediador emocional, pois acalma, distrai e silencia. Porém, quando retirado, o cérebro, ainda imaturo, reage com desregulação.
A regulação emocional não se desenvolve na frente de uma tela. Ela se constrói na relação: no olhar, na conversa, na frustração mediada por um adulto, na brincadeira simbólica e no movimento corporal.
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Algumas entidades internacionais, como a Academia Americana de Pediatria, recomendam limites rigorosos para o uso de telas na primeira infância, priorizando interações reais e experiências sensoriais concretas. A recomendação não significa demonizar a tecnologia, mas reconhecer que o cérebro precisa de desafios graduais, vínculos consistentes e experiências físicas para amadurecer adequadamente.
A dúvida é: Estamos vivendo uma crise? Sim — Contudo, não é tecnológica. É relacional.
A infância requer presença, chão, tempo desacelerado. Quando as experiências humanas são substituídas por estímulos digitais contínuos é alterado o ritmo natural de desenvolvimento do cérebro.
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A pergunta que permanece é menos sobre proibir telas e mais sobre responsabilidade coletiva: está sendo oferecido às crianças aquilo que o cérebro delas realmente precisa para crescer saudável?
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As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.
