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Estado de Minas INOVAÇÃO

Imunoterapia e farmacologia: precisão no combate ao câncer

Informações genéticas e moleculares de cada paciente, tratamentos como a imunoterapia e a farmacologia dirigida fornecem novo patamar em abordagens antitumorais


06/11/2022 04:00 - atualizado 05/11/2022 17:17

Enviada especial*
 
 imunoterapia
Se há oito anos a expectativa de vida das pessoas submetidas à quimioterapia era de um ano, hoje, com a imunoterapia esse tempo pode duplicar (foto: Imperial College London/Reprodução)
 

Mendoza (Argentina) e Brasília — Uma peça de roupa sob medida segue o formato do corpo do cliente, sem folgas ou apertos. Considerando mais variáveis, a medicina personalizada também busca produtos e serviços que se encaixem nas condições de cada paciente. 
 
Nessa costura pela saúde, os processos genéticos e moleculares são informações estratégicas exploradas por profissionais variados, de cardiologistas a psicólogos e nutricionistas. No caso da oncologia, essa abordagem de precisão é tida como um novo patamar na luta contra o câncer, mas com obstáculos a serem vencidos, como o acesso pouco igualitário às inovações disponíveis.
 
"É o futuro da oncologia. Estamos caminhando para isso. A quimioterapia ainda tem um papel muito importante para várias doenças, mas, certamente, mudamos o tratamento de muitos tumores com a medicina de precisão", diz a oncologista Maria Ignez Braghiroli, uma das diretoras da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (Sboc). A médica cita como exemplo o câncer de pulmão. Segundo ela, cada vez mais alterações são descobertas e se tornam alvo de terapias específicas para os diferentes tipos desse tumor, o mais incidente no mundo. "A gente evoluiu muito. Antes, tratávamos todo mundo com terapia igual. À medida que fomos fazendo análises moleculares, foram surgindo melhores abordagens", diz.
 
 
Gonzalo Recondo, coordenador da Unidade de Oncologia Torácica e Medicina de Precisão do Centro de Educação Médica e Investigações Clínicas (Cemic), na Argentina, conta que há 10 biomarcadores do câncer de pulmão — proteínas, genes e outras moléculas indicativos da doença — cujas terapias específicas têm uso aprovado pelo FDA, a agência de vigilância dos Estados Unidos. Elas abarcam cerca de 45% dos pacientes e têm gerado efeitos significativos. "Há oito anos, quando essas pessoas só podiam ser tratadas com químio, a expectativa de vida era de um ano. Hoje, com a imunoterapia, esse tempo pode duplicar. Com a farmacologia dirigida, sobe para cinco, seis, sete anos", detalha.
 
A imunoterapia e a farmacologia dirigida são as abordagens mais utilizadas na medicina de precisão. O pesquisador em oncologia Vinicius de Lima Vazquez explica que, no primeiro tratamento, as principais drogas disponíveis ativam a imunidade do paciente para que ela destrua os tumores. No segundo, também chamado de terapia alvo, o foco é uma alteração associada a determinado tumor identificada em uma via molecular.
 
"Por exemplo, tem um gene chamado BRAF que produz uma proteína que, em excesso, faz as células se reproduzirem sem parar. Se bloqueamos a via do BRAF, podemos ter uma regressão do tumor", explica Vazquez. O também diretor do Instituto de Ensino e Pesquisa do Hospital de Amor, o antigo Hospital de Câncer de Barretos, em São Paulo, é um dos coordenadores de um estudo científico recente que descobriu uma molécula com potencial para ser um alvo terapêutico contra o melanoma.
De forma geral, a medicina de precisão é associada a uma queda de 53% no risco de progressão de tumores, segundo Julieta D'Annunzio, diretora médica de câncer colorretal e melanoma da Pfizer para mercados emergentes. "São possibilidades de impactar na qualidade de vida dos pacientes por meio do melhor tratamento possível, que é aquele sustentado por base científica, que justifica a sua efetividade", afirma. 
 
Outra vantagem constatada pelas pesquisas é a redução na toxicidade dos tratamentos, o que pode influenciar, por exemplo, nos efeitos colaterais. Lima Vazquez explica que a quimioterapia convencional é tóxica para todas as células do paciente, e mais ainda para as tumorais. Com a medicina de precisão, esses danos podem ser reduzidos. "Como a abordagem é específica para determinada mutação, age direto naquele 'defeito' do paciente, ela consegue ser mais assertiva e efetiva para os outros tecidos e para o bem-estar do paciente de uma forma geral", compara Adriana Ribeiro, diretora médica da Pfizer Brasil.

NÃO CURATIVA A maioria dos tratamentos disponíveis, porém, é voltada para os casos mais avançados de cânceres e tem um efeito de controle da doença, contextualiza Ignez Braghiroli. Segundo a médica, a cirurgia segue sendo a intervenção mais eficaz quando se fala em extinguir a doença."Geralmente, o que a gente precisa fazer para aumentar as chances de cura são combinações. Então, juntamos cirurgia com quimioterapia, cirurgia com medicina de precisão, como a terapia-alvo", diz. 
 
"Nos casos de metástase, temos muitas terapias-alvo. A maioria delas é para doenças avançadas, inclusive, mas não com intuito de cura, mas de controle. E isso pode durar muito tempo, por anos."
Essa administração de longo prazo implica alto investimento. Uma dose de uma droga-alvo pode custar mais de R$ 50 mil, os testes que indicam a ocorrência da condição genética, R$ 10 mil. "Tudo o que envolve alta tecnologia é mais caro. Então, é pouco inclusivo. Há uma variedade de terapias de última geração disponíveis apenas para quem pode pagar", observa Lima Vazquez. Segundo o médico, o valor oferecido pelo Sistema Único de Saúde (SUS) para um tratamento oncológico não cobre 20% de uma terapia com drogas avançadas aprovadas pela Anvisa.
 
Ignez Braghiroli, que trabalha nos sistemas público e privado de saúde, convive diariamente com essa disparidade no acesso a tratamentos. Na opinião da médica, é necessária uma discussão grande sobre os custos e as prioridades em tratamentos oncológicos de precisão. "Não vai dar para oferecer tudo para todo mundo. Precisamos, como sociedade, avaliar benefícios onde o impacto é maior, para definir o que é melhor. É assim que fazem nos países europeus", indica. "E podemos fazer uma discussão mais adiante. Temos que focar nisso ou em prevenção e educação? É um debate complexo, mas ninguém, nem nós nem o resto do mundo, vai conseguir fugir dele."

* A jornalista viajou a convite da Pfizer
 
líder de evidências do real da Pfizer América Latina
Guilherme Julian (foto: Pfizer/Divulgação )
 
 
 

Em busca de dados do mundo real

 
Ter acesso a informações sobre quem, de fato, pode ser beneficiado é outro desafio da oncologia de precisão. Nesse caso, apenas as informações sobre os participantes de pesquisas com tratamentos experimentais podem não ser suficientes. A fonte mais rica de dados está no mundo real, diz Fernando Petracci, oncologista do Instituto Alexander Fleming, na Argentina. "Esses dados fornecem 90% das evidências, os 10% restantes são de ensaios clínicos", explica.
 

"O que precisamos é usar mais essas informações, fazer com que elas não fiquem exclusivamente na academia, que elas se transformem em evidências do mundo real"

Guilherme Julian, líder de evidências do real da Pfizer América Latina

 
 
Essas informações precisam estar concentradas em bancos de informação farmacogenéticas, um trabalho a ser aperfeiçoado na América Latina, segundo Guilherme Julian, líder de evidências do real da Pfizer América Latina. "A região tem muitos dados, mas faltam empresas, institutos para recolhê-los e analisá-los", justifica. Segundo Julian, no Brasil, os dados sobre o mundo real contam com uma "movimentação interessante" do ponto de vista do Ministério da Saúde, como integração das informações e capacitação sobre como usá-las.
 
O país é o que tem mais dados abertos sobre saúde da população na América Latina, muito impulsionado pelo DataSUS, o departamento de informática do Sistema Único de Saúde (SUS). Essa condição, avalia Julian, é favorável à oncologia personalizada."Estamos muito prontos para começar. Já começou, na verdade. Temos um movimento acadêmico muito bom, universidades com bons resultados, com dados importantes disponíveis. O que precisamos é usá-los mais, fazer com que essas informações não fiquem exclusivamente na academia, que elas se transformem em evidências do mundo real", diz.
 
Os avanços nas pesquisas também ajudam, de certa forma, a diminuir as disparidades no acesso aos tratamentos de ponta. "Eu, como profissional do SUS, eventualmente consigo oferecer o que há de mais moderno aos pacientes por meio dos ensaios clínicos", conta Maria Ignez Braghiroli, uma das diretoras da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (Sboc). Nesse caso, diz a médica, há outro desafio a ser superado: o tabu acerca da participação nesses tipos de testes. "Muitas vezes, temos que explicar que a pessoa não vai ser cobaia de laboratório. Em terapias mais avançadas, às vezes, se está, inclusive, estudando um remédio que tem aprovação em outro contexto." 

SINAL DE GRAVIDADE O estudo mapeia as alterações no DNA que tornam esse tipo de câncer de pele mais grave. Por isso, alguns desses biomarcadores podem ser considerados marcadores de sobrevivência de pacientes, o que os coloca em condições de um possível alvo terapêutico. "Para começar uma terapia-alvo, é preciso identificar uma molécula promissora. Isso a gente fez.
 
Descobrimos um gene que tem uma metilação (uma mudança bioquímica) alterada", explica Lima Vazquez. A pesquisa, feita em parceria com cientistas franceses, foi publicada em julho, na revista Nature Communications. 


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