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Estado de Minas INFRAESTRUTURA

BR-381: a saga que Bolsonaro não viu em visita a Minas

Presidente esteve em cidades do Vale do Aço, mas não conferiu os problemas da principal estrada que atravessa a região. Duplicação já dura mais de 10 anos


28/05/2022 04:00 - atualizado 28/05/2022 09:04

Br-381
Além das curvas fechadas e o movimento intenso, o motorista que passa pela BR-381 enfrenta inúmeros buracos, lombadas, pontes estreitas, irregularidades no asfalto e sinalização precária (foto: Gladyston Rodrigues/EM/DA Press)
Na visita que fez na quinta-feira (26/05) à cidade mineira de Coronel Fabriciano, no Vale do Aço, o presidente Jair Bolsonaro (PL) inaugurou casas populares e participou de motociata, mas deixou de conferir um dos principais problemas de infraestrutura que afeta essa e outras regiões de Minas Gerais, incluindo a Região Metropolitana de Belo Horizonte: a BR-381. Conhecida como "Rodovia da Morte" devido ao grande número de acidentes que ocorrem no trecho que vai, principalmente, de BH a Governador Valadares, a estrada federal teve sua duplicação anunciada várias vezes por governos anteriores, mas os projetos nunca saíram do papel. Apenas parte da estrada foi realmente duplicada.
 
Coincidentemente, no dia da visita a estrada foi cenário de um grave acidente entre um caminhão e uma carreta próximo ao km 435, em Ravena, distrito de Sabará. Quem viajava em direção ao Vale do Aço teve de passar horas no congestionamento de mais de cinco quilômetros provocado pela colisão. Entre motoristas ouvidos pelo Estado de Minas ao longo desse congestionamento, um consenso: a rodovia é uma sequência de obstáculos e necessita de atenção redobrada.
 
Miguel Barbosa
O chapa de caminhão Miguel Barbosa diz que o maior risco da estrada está no trecho de BH até João Monlevade: 'Já morreu muita gente' (foto: Gladyston Rodrigues/EM/DA Press)
Turismólogo, Rodney Gosling, de 58 anos, que ficou parado no congestionamento gigante, disse que o cenário de acidente, seguido de lentidão, é frequente. "Esse pedaço todo até o trevo de Itabira é de muito risco. Não tem ponto de ultrapassagem. Depois de Caeté, beleza, mas esse pedaço aqui, esta curva, não tem ponto de ultrapassagem. Tem muita imprudência também, o povo quer chegar logo, ultrapassa em lugar que não deve. Não tem acostamento. Bateu aqui, morreu", disse. "O dinheiro (para duplicar) existe, a verba federal já tem. Mas vão ser uns cinco anos para fazer 30 quilômetros. Era uma coisa para fazer lá nos anos 1980. Infelizmente, muitas vidas vão ser perdidas até arrumar isso aqui", completou Rodney.
 
Também parado no congestionamento, Carlos Garbato, executivo de contas, de 34, também criticou a situação da rodovia: "A condição da via, aqui neste trecho, ainda está boa, mas lá para frente o trecho da rodovia é pior. É ondulação e buraco. Gosto muito de ir a João Monlevade, Itabira. A Ipatinga, faz dois anos que não vou; Governador Valadares também. Só de estrada cansa, e a última vez que voltei gastei nove horas de estrada e vi seis acidentes. Trezentos quilômetros de BH até lá para rodar em seis horas?", reclamou.
 
Pouco mais à frente, ainda na parada por causa do acidente entre caminhões em Ravena, o chapa Miguel Barbosa, de 54, também chamou a atenção para os riscos de trafegar na rodovia. "O mais perigoso que tem é este trecho. É muito ruim aqui, eles tinham que arrumar. Não tem acostamento, não tem nada. Aqui morreu muita gente já. Geralmente, a gente sempre pega trânsito, tem que tomar cuidado. Até João Monlevade é sofrido, perigoso", afirmou.
 
A BR-381, principalmente no trecho de BH até João Monlevade, é uma sequência de obstáculos para os motoristas. Além das curvas fechadas, são inúmeros os buracos, lombadas, pontes estreitas, irregularidades no asfalto, sinalização precária e vegetação alta às margens da estrada. Em alguns pontos, há obras que se arrastam e nunca são concluídas e nesses trechos existem desvios que deixam a estrada ainda mais perigosa.
 
“Precisamos que o governo federal tenha um olhar diferenciado para a BR-381. Não aguentamos a BR-381 do jeito que está, uma BR que todo dia ceifa um ente querido da gente e que há décadas vive nesse imbróglio. Precisamos que essa BR (duplicação) realmente saia do papel e que venha trazer tranquilidade para nossos familiares”, afirmou o prefeito de Coronel Fabriciano e presidente da Associação Mineira de Municípios (AMM), Dr. Marcos Vinicius (PSDB).
 
Bolsonaro não viu de perto a situação real da BR-381, embora tenha trafegado de moto nela por alguns quilômetros em parte do trajeto do aeroporto de Ipatinga, em Santana do Paraíso, até Coronel Fabriciano - com uma motociata. Mas esse trecho é como se fosse uma avenida entre as duas cidades e não mostra os muitos problemas da estrada.
 

Promessas que não saem do papel 

 
A novela da duplicação da BR-381, entre Belo Horizonte e Governador Valadares, começou em 2013, durante o governo Dilma Rousseff (PT), de 2010 a 2016, quando 11 trechos da rodovia foram licitados. Cada empresa ficaria responsável pela duplicação de um lote, recebendo pela obra executada. Embora os acordos tenham sido feitos, as licitações foram canceladas e retornaram aos processos de estudos do governo.
 
Em 2014, quase um ano depois, a então presidente assinou a ordem de serviço para a duplicação de cinco trechos. Na época, o governo federal chegou a prometer investir R$ 2,5 bilhões nas obras.
 
A obra de duplicação incluía a construção de cinco túneis, 34 pontes, 66 viadutos, além de 31 passarelas, 150 paradas de ônibus e de uma variante em Santa Bárbara, numa extensão de 303 quilômetros da BR-381. Quase nada disso foi feito.
 
A duplicação da rodovia sempre foi alvo de promessas de presidentes e ministros e classificada como assunto de extrema urgência – especialmente em anos de eleição –, mas nunca saiu do papel. Hoje, o que se tem são trechos com pistas duplicadas e outros com pistas simples.
 
No governo Michel Temer (MDB), entre 2016 e 2018, pouco foi investido na obra. No governo Bolsonaro, as promessas continuam, mas a duplicação ainda está longe de ser concluída, para desespero de motoristas e passageiros que são obrigados a trafegar pela chamada Rodovia da Morte. 
 

Exército faz reparos na pista


Exército na pista
Exército em trabalho de manutenção na BR-381, próximo ao km 324 (foto: Gladyston Rodrigues/EM/DA Press)
Sem as pistas totalmente duplicadas e com a situação crítica em diversos trechos da BR-381, o Exército Brasileiro foi acionado para contribuir com serviços de manutenção da estrada. A ação dos militares inclui desde a poda de vegetação lateral para melhoria da vista até repavimentação. É o caso de um trecho entre as cidades mineiras de Jaguaraçu e Antônio Dias, no sentido Ipatinga, próximo ao km 324 da rodovia. Em sistema de siga e pare, a pista – duplicada – passou por manutenção na última quarta-feira, dia da visita de Bolsonaro ao Vale do Aço. 


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