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Estado de Minas CRÍTICAS A BOLSONARO

Mandetta: 'O Brasil está sendo governado pelo algoritmo'

Ex-ministro da Saúde afirma que Bolsonaro segue 'pessoas especializadas em manipular o pensamento'. 'Quem comanda o Brasil hoje é uma banca de internet'


06/03/2021 06:00 - atualizado 06/03/2021 12:13



A mesma ideologia de grupos internacionais que patrocinam mundo afora a reemergência do neonazismo e de outros grupos de extrema direita – que propõem a ruptura da ordem democrática institucional e o desmanche do multilateralismo – fundamentam parte do governo de Jair Bolsonaro (sem partido).

A avaliação é de Luiz Henrique Mandetta, ex-ministro da Saúde, demitido do cargo em 16 de abril de 2020 quando as mortes por COVID-19 se aproximavam de duas mil. O motivo da demissão foi a discordância de Bolsonaro com as diretrizes ao enfrentamento indicadas pelos especialistas, — como o isolamento social; e também, porque Mandetta se recusou a adotar a cloroquina de maneira generalizada para o tratamento da COVID-19.

Ex-ministro diz que algoritmos ditam os ritmos do pais(foto: Rafael Alves/EM/D.A Press)
Ex-ministro diz que algoritmos ditam os ritmos do pais (foto: Rafael Alves/EM/D.A Press)


Ao acompanhar os bastidores desse embate entre, de um lado a racionalidade, a ciência e, de outro, os adeptos da retórica charlatã focada num projeto disruptivo, Mandetta conclui: “ O Brasil, hoje, é administrado pela internet e por pessoas que não fazem parte do governo. O Brasil está sendo administrado pelo algoritmo”, afirma ele, ao Estado de Minas.

“Fui chamado para fazer um trabalho técnico, e montei uma equipe técnica. Em 2019, nem entrevistas dava. Em 2020, tive que me expor. O que percebo é que há um núcleo militar, de boa formação e boas intenções, mas que, quando mostra-se o caminho da racionalidade e da boa governança, existe em paralelo ao mundo militar um entorno do presidente. E existe um mundo que desconhece — e até agride o núcleo militar. É onde estão os filhos e o que é comumente chamado de gabinete do ódio, mas frequenta (o Planalto) de dentro da sala (do presidente)”, considera.

O uso das redes sociais, com o auxílio dos algoritmos e estratégia retórica sofisticada, explorando as predisposições individuais, para manipular a informação e construir os fatos alternativos, foi amplamente denunciado por ocasião do Brexit e outros eventos como a eleição de Donald Trump. De forma análoga, vem sendo utilizado no Brasil.

“Não é uma coisa ao acaso; é algo fundamentado, que Trump fez nos Estados Unidos e Bolsonaro faz aqui. Teve o Brexit como pano de fundo e está na reemergência de movimentos neonazistas e extremos, que propõem a ruptura absoluta da sociedade e um desmanche do multilateralismo e da tentativa da humanidade de ter um caminhar mais sólido e que se aproveita de toda situação para minar toda e qualquer instituição, colocando tudo em descrédito”, afirma Mandetta.

Sem qualquer compromisso com a democracia, os defensores desta ideologia que tem em Olavo de Carvalho, no Brasil, um dos disseminadores, não se importam se o desfecho for uma ditadura. “Se isso vai terminar em um estado democrático ou ditatorial, na cabeça deles, tanto faz. Se for ditatorial, para eles, melhor. É um risco absurdo que há no mundo. Há grande acesso à informação pelas redes sociais, mas no lado de trás do balcão estão pessoas especializadas em manipular o pensamento. Quem comanda o Brasil hoje é uma banca de internet”, assinala Mandetta.

O ex-ministro é uma das figuras que têm sofrido ataques virtuais por conta das posições contrárias às ideias do governo Bolsonaro.


Armamentos


A obsessão do governo Jair Bolsonaro em disseminar o uso de armas no Brasil está dentro deste contexto. “O país pode entrar em uma crise armada com proporções muito altas”, afirma Mandetta, em referência ao período pós-pandemia.

“Isso não vai — e não pode — acabar bem. No meio de uma pandemia, aumentar impostos sobre itens da saúde e zerar impostos sobre armas, é passar uma mensagem para que as pessoas se armem. Um país que tem tantas diferenças e iniquidades, que se traduzem em uma violência urbana que acomete tanto o cidadão, isso vai acabar em uma situação de conflito”, afirma Mandetta. “É como se o Brasil estivesse sentado em um barril com álcool e pólvora, e o presidente resolveu fumar charuto. Isso, para explodir, é a qualquer momento”, diz ele.

Considerando que o Brasil sairá da crise sanitária muito mais lentamente do que poderia e precisaria, - e na avaliação dele este será um semestre fúnebre – a partir da vacinação da população, quando o país se reerguer da crise sanitária, haverá a mega crise pós-pandemia. Com o agravante: é esta liderança que considera “tóxica” face à crise da saúde que estará diante das múltiplas dimensões da crise social.

“Essa liderança, tão tóxica na crise de saúde, vai ter que dar respostas à essa mega crise que virá na educação, na cultura, no emprego. Temos um país à beira de uma convulsão se não tivermos uma liderança capaz de mostrar um caminho e um projeto de reconstrução, conciliação e reencontro deste país consigo mesmo. Se apostar ainda mais na pancadaria, na divisão, no ódio e nessa coisa maniqueísta de polarização absoluta e não houver a voz do centro, da moderação, do ‘calma, vamos sair disso juntos’ e inserção internacional, o país pode entrar em uma crise armada com proporções muito altas”, sustenta Mandetta.

A entrevista


Jornalistas do Estado de Minas conversaram, por vídeo, com Luiz Henrique Mandetta. Entre esta quinta e a sexta-feira, pílulas da entrevista serão publicadas. No domingo, vão ao ar os trechos que tratam de temas políticos, como a disputa eleitoral em 2022.

O que é o coronavírus

Coronavírus são uma grande família de vírus que causam infecções respiratórias. O novo agente do coronavírus (COVID-19) foi descoberto em dezembro de 2019, na China. A doença pode causar infecções com sintomas inicialmente semelhantes aos resfriados ou gripes leves, mas com risco de se agravarem, podendo resultar em morte.


transmissão dos coronavírus costuma ocorrer pelo ar ou por contato pessoal com secreções contaminadas, como gotículas de saliva, espirro, tosse, catarro, contato pessoal próximo, como toque ou aperto de mão, contato com objetos ou superfícies contaminadas, seguido de contato com a boca, nariz ou olhos.


A recomendação é evitar aglomerações, ficar longe de quem apresenta sintomas de infecção respiratória, lavar as mãos com frequência, tossir com o antebraço em frente à boca e frequentemente fazer o uso de água e sabão para lavar as mãos ou álcool em gel após ter contato com superfícies e pessoas. Em casa, tome cuidados extras contra a COVID-19.

Vídeo: Flexibilização do isolamento não é 'liberou geral'; saiba por quê

Principais sintomas das pessoas infectadas pela COVID-19:

  • Febre
  • Tosse
  • Falta de ar e dificuldade para respirar
  • Problemas gástricos
  • Diarreia
  • Em casos graves, as vítimas apresentam:
  • Pneumonia
  • Síndrome respiratória aguda severa
  • Insuficiência renal
  • Os tipos de sintomas para COVID-19 aumentam a cada semana conforme os pesquisadores avançam na identificação do comportamento do vírus 

Mitos e verdades sobre o vírus

Nas redes sociais, a propagação da COVID-19 espalhou também boatos sobre como o vírus Sars-CoV-2 é transmitido. E outras dúvidas foram surgindo: O álcool em gel é capaz de matar o vírus? O coronavírus é letal em um nível preocupante? Uma pessoa infectada pode contaminar várias outras? A epidemia vai matar milhares de brasileiros, pois o SUS não teria condições de atender a todos? Fizemos uma reportagem com um médico especialista em infectologia e ele explica todos os mitos e verdades sobre o coronavírus.


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