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Estado de Minas ENTREVISTA/RODRIGO ZEIDAN

'Quase um genocídio, diz professor sobre atitude do governo Bolsonaro na pandemia

Para especialista em economia e finanças com experiência internacional, ações e omissões do Executivo federal agravaram a pandemia no Brasil


postado em 21/06/2020 06:00 / atualizado em 21/06/2020 09:17

(foto: Twitter/Reprodução da internet - 15/1/17)
(foto: Twitter/Reprodução da internet - 15/1/17)


Com quase 50 mil mortes confirmadas provocadas pela COVID-19 e mais de 1 milhão de casos da doença, o Brasil é um dos epicentros mundiais da pandemia. Os altos índices de disseminação do coronavírus são, na visão do professor e autor Rodrigo Zeidan, de total responsabilidade do governo federal e do presidente da República, Jair Bolsonaro, autores de políticas equivocadas na gestão da crise.

Em entrevista ao Estado de Minas, Zeidan citou as diversas ações – e omissões – do Planalto que resultaram no agravamento dos efeitos da doença. Ele rebateu a recorrente alegação de Bolsonaro de que “a responsabilidade é dos estados e municípios”, afirmando que a União, além de ser dona dos recursos financeiros, também tem competência para tomar decisões sobre movimentações de pessoas.

Rodrigo Zeidan é professor de economia e finanças da New York University Shanghai e da Fundação Dom Cabral. Autor de diversos livros sobre economia, desenvolveu modelos de gerenciamento de risco para lidar com questões de sustentabilidade de bancos e multinacionais. Trabalhou em empresas como Kraft Foods, Johnson & Johnson, Santander, Skanska, L’Oreal, RCI Banque, Vale, Queiroz Galvão, Itaú Bank e Petrobras. Leia a entrevista abaixo.


O senhor atribui à política do governo federal a responsabilidade pelos altos índices de disseminação do coronavírus e pelo alto número de óbitos que temos no Brasil?

Claro que sim. Basicamente, o único governo responsável por isso no ponto de vista geral. Como o governo abdicou da responsabilidade de tomar decisões sobre a COVID-19, passou a ser responsabilidade dos estados e municípios fazer o que pudessem. Em qualquer lugar do mundo, principalmente para país grande, as respostas foram coordenadas pelo governo federal. Isso vale para a Alemanha, um país tão descentralizado quanto o nosso, para a China, Estados Unidos, Inglaterra. Basicamente, todo o mundo. Os países em que os governos federais resolveram sair pela tangente ou não encarar a pandemia estão sofrendo mais. Independentemente do que pode fazer o gestor municipal ou estadual.

No início de abril, o Supremo Tribunal Federal decidiu que não compete à Presidência da República interferir nas decisões dos governos locais estaduais sobre restrição de serviços e circulação de pessoas durante a pandemia. O presidente, em várias oportunidades, usa como defesa o fato de, teoricamente, não poder agir devido à decisão judicial...

Mentira. O governo teve e tem milhões de mecanismos. Tem não só a chave do cofre, como vários tipos de decisão que poderia tomar, inclusive coordenando respostas. Nenhum ente subnacional vai querer fazer um lockdown sem que o do lado queira fazer. É muito mais difícil. É o governo federal que toma decisões sobre movimentação de pessoas. Tivemos até autoridades estaduais querendo implantar políticas de segurança em aeroportos e a Infraero e o governo federal dizendo que não. É um absurdo completo. O governo não fez nada e agora quer se esvair da responsabilidade. É o pior dos mundos. É o cara que te vê sangrando até morrer, não te leva para o hospital e fala: ‘Opa! Não fui eu. Então dane-se!’. A responsabilidade é, primeiramente, do governo federal.

Em quais outras ações objetivas o senhor acha que o governo falhou? Em que deveria ter agido e não agiu, ou agiu de forma errada?

Criar um lockdown sério, assim como foi feito em vários países, como Espanha e Itália. Fazer uma política clara sobre testes, inclusive reconversão industrial (reorientação do setor para as novas exigências econômicas e sociais). O governo demorou demais a soltar políticas de crédito e auxílio para pessoas e empresas. Basicamente, o governo fez tudo errado. A renda básica emergencial só saiu por causa do Congresso. De novo, o governo federal abdicou da responsabilidade de fazer algo. O Congresso foi lá e criou o mecanismo de R$ 600 por três meses e basicamente o enfiou goela abaixo do governo, que está dizendo agora que não tem dinheiro para expandir, que não quer fazer. Toda e qualquer política que o governo poderia ter feito não fez.

E sobre a postura do presidente de não respeitar a quarentena, derrubar dois ministros da Saúde durante a pandemia, entre outras ações?

Enxergo como quase um genocídio. Talvez um possível genocídio, com o governo sendo irresponsável. Tem um artigo (https://bit.ly/2zs3h6W) sensacional do Tiago Cavalcanti, que é professor de Cambridge, com outros coautores, mostrando como, em cidades que apoiam o presidente, quando ele falava contra a quarentena, dizendo que era uma gripezinha, o índice de distanciamento social diminuía e o nível de infecção aumentava. A responsabilidade de um líder na ação de um sistema presidencialista é monstruosa. O presidente, então, tem toda e qualquer responsabilidade sobre o aumento de casos a mais do que seria esperado se o governo tivesse adotado políticas sérias para combater a pandemia. Coloco na conta do governo todas essas questões. E me desespero, porque estava fora do Brasil e vi os outros países fazendo as coisas seriamente e conseguindo achatar a curva de casos. E o governo aqui simplesmente ignora isso.

O que é o coronavírus


Coronavírus são uma grande família de vírus que causam infecções respiratórias. O novo agente do coronavírus (COVID-19) foi descoberto em dezembro de 2019, na China. A doença pode causar infecções com sintomas inicialmente semelhantes aos resfriados ou gripes leves, mas com risco de se agravarem, podendo resultar em morte.
Vídeo: Por que você não deve espalhar tudo que recebe no Whatsapp

Como a COVID-19 é transmitida? 

A transmissão dos coronavírus costuma ocorrer pelo ar ou por contato pessoal com secreções contaminadas, como gotículas de saliva, espirro, tosse, catarro, contato pessoal próximo, como toque ou aperto de mão, contato com objetos ou superfícies contaminadas, seguido de contato com a boca, nariz ou olhos.

Vídeo: Pessoas sem sintomas transmitem o coronavírus?


Como se prevenir?

A recomendação é evitar aglomerações, ficar longe de quem apresenta sintomas de infecção respiratória, lavar as mãos com frequência, tossir com o antebraço em frente à boca e frequentemente fazer o uso de água e sabão para lavar as mãos ou álcool em gel após ter contato com superfícies e pessoas. Em casa, tome cuidados extras contra a COVID-19.
Vídeo: Flexibilização do isolamento não é 'liberou geral'; saiba por quê

Quais os sintomas do coronavírus?

Confira os principais sintomas das pessoas infectadas pela COVID-19:

  • Febre
  • Tosse
  • Falta de ar e dificuldade para respirar
  • Problemas gástricos
  • Diarreia

Em casos graves, as vítimas apresentam:

  • Pneumonia
  • Síndrome respiratória aguda severa
  • Insuficiência renal
Os tipos de sintomas para COVID-19 aumentam a cada semana conforme os pesquisadores avançam na identificação do comportamento do vírus. 

Vídeo explica por que você deve 'aprender a tossir'

Mitos e verdades sobre o vírus

Nas redes sociais, a propagação da COVID-19 espalhou também boatos sobre como o vírus Sars-CoV-2 é transmitido. E outras dúvidas foram surgindo: O álcool em gel é capaz de matar o vírus? O coronavírus é letal em um nível preocupante? Uma pessoa infectada pode contaminar várias outras? A epidemia vai matar milhares de brasileiros, pois o SUS não teria condições de atender a todos? Fizemos uma reportagem com um médico especialista em infectologia e ele explica todos os mitos e verdades sobre o coronavírus.

Coronavírus e atividades ao ar livre: vídeo mostra o que diz a ciência

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