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Estado de Minas Coronavírus

Volta às aulas: Fiocruz alerta para risco de agravamento da pandemia

Vaivém de alunos que convivem com grupo de risco da COVID-19 pode provocar demanda por 102 mil vagas em UTI e 4 mil mortes em MG, diz estudo


13/08/2020 06:00 - atualizado 13/08/2020 10:42

Alunos assistem a aula presencial na capital amazonense, que começou a reabrir escolas públicas na segunda-feira (foto: Tácio Melo/Secom-AM)
Alunos assistem a aula presencial na capital amazonense, que começou a reabrir escolas públicas na segunda-feira (foto: Tácio Melo/Secom-AM)

Etapa ainda indefinida em Minas Gerais pelas autoridades no planejamento do combate ao novo coronavírus (Sars-Cov-2), a volta às aulas presenciais tem o potencial de ser catastrófica se mal implementada. É o que indica um levantamento da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) ao qual a reportagem do Estado de Minas teve acesso. Pelos cálculos, se 10% dos eventuais contaminados necessitarem de cuidados intensivos – o que é considerado uma “abordagem otimista” –, só em Minas isso poderia representar um acréscimo de 102 mil doentes internados em unidades de terapia intensiva (UTIs) e quase 4 mil mortes, certamente um componente de estrangulamento da assistência em saúde. No Brasil, o potencial de estragos é de 35 mil óbitos e 927 mil pessoas em UTIs.

O levantamento considera o número de idosos e adultos com doenças cardíacas, pulmonares e diabetes – os mais vulneráveis ao vírus – morando com crianças e adolescentes em idade escolar, entre os 3 e os 17 anos, que poderiam trazer a COVID-19 para suas casas. De acordo com o estudo, no Brasil, essa população é de 9,2 milhões de pessoas. Em Minas Gerais, o número é pouco maior do que 1 milhão, sendo superado apenas por São Paulo, que tem 2 milhões de pessoas com essas comorbidades convivendo com estudantes.

O aumento de 4 mil mortes seria superior a todas os óbitos já registrados em Minas Gerais em decorrência da doença, que ontem chegaram a 3.783, de acordo com boletim da Secretaria de Estado de Saúde. Por sua vez, o ingresso de 102 mil doentes necessitando de UTIs poderia representar o colapso do sistema hospitalar, mesmo que aos poucos, uma vez que hoje se dispõe de apenas 3.869 leitos, com ocupação de menos de 70%. Desses, em média, menos de 30% têm sido ocupados por casos confirmados ou suspeitos da COVID-19.


 
O impacto para o Brasil também seria significativo. Ainda que o país conte com 66,7 mil leitos de UTI à sua disposição, a ocupação é alta, acima dos 70%. E sofreria uma forte pressão com a convergência de mais 927 mil doentes graves, ainda que não ao mesmo tempo, necessitando de respiradores e medicamentos, que já se fazem escassos. 
 

Mais pressão

De acordo com nota técnica da Fiocruz, esse impacto seria ainda maior, pois o levantamento considera apenas os estudantes retornando para suas casas e não o significativo grupo de profissionais envolvidos nas escolas, como professores e educadores, e dos serviços que as orbitam, do transporte à alimentação. “Além da população adulta com fatores de risco e dos idosos, existe ainda um contingente enorme de pessoas que estão envolvidas na atividade escolar”, diz a nota.
 
O texto assinala ainda que “a discussão sobre a retomada do ano letivo no país não segue um momento em que é clara a diminuição dos casos e óbitos”. Considera ainda como “agravante” ao risco do retorno o fato de ele ocorrer em momento de “desmobilização de recursos de saúde e desmonte de hospitais de campanha, que apresentaram subutilização em algumas regiões, mas que podem ser demandados de forma abrupta num cenário de espalhamento da doença em função da volta às aulas”.

(foto: Arte EM)
(foto: Arte EM)

 
A Fiocruz considera necessário que a retomada das aulas presenciais siga uma metodologia baseada principalmente no número de casos, óbitos e características da população dos municípios e seu entorno, considerando a rede de influência das cidades. “Retomar as aulas (presenciais) sem considerar a complexidade dessa medida é movimento arriscado, pois, para essas pessoas que vivem com crianças em idade escolar não será mais possível adotar o 'fique em casa'”, destaca.
 
O estudo também ressalta que os surtos nas escolas seriam de difícil controle, sobretudo em alunos menores, que necessitariam de uma ação mais rígida dos educadores, bem como a sua exposição. “Cabe destacar que, embora a doença não tenha como principal alvo as crianças, não é descartada a hipótese de que ocorra aumento do número de casos entre elas e, sobretudo, em idades mais novas, por conta da dificuldade de mantê-las em distanciamento e sem aglomerações no ambiente escolar”.

Alunos começam a voltar às aulas em algumas partes do país, como o Amazonas. São Paulo planeja retorno para outubro e a capital do Rio de Janeiro briga na Justiça para voltar de imediato.

Medo em família


Rafaela Ramos vive com a avó, Colativa Tavares, e se preocupa com o retorno à escola: %u201CPor ser mais nova, posso até aguentar o tranco da doença. Mas ela não%u201D, diz(foto: Edésio Ferreira/EM/D.A Press)
Rafaela Ramos vive com a avó, Colativa Tavares, e se preocupa com o retorno à escola: %u201CPor ser mais nova, posso até aguentar o tranco da doença. Mas ela não%u201D, diz (foto: Edésio Ferreira/EM/D.A Press)
“Tenho muito medo de a minha neta retornar às aulas na escola dela e trazer o vírus (novo coronavírus) para dentro de casa”, afirma a aposentada Colativa Maria Tavares, de 76 anos, que tem problemas respiratórios, como bronquite crônica, e também pressão alta. Ela mora em Betim, na Grande BH, com a neta Rafaela Geórgia Tavares Ramos, de 17, estudante do 3º ano, que também não sente ser este o melhor momento para voltar a conviver com professores, colegas e funcionários do colégio, devido à COVID-19 e por residir com a avó.
 
A possibilidade de retorno às aulas presenciais assusta muitos pais e alunos, mas sobretudo aqueles que convivem com pessoas do grupo de risco e têm a recomendação de isolamento mais rígido desde o início da pandemia. Nesse grupo, que inclui idosos acima dos 60, hipertensos, diabéticos e pacientes com doenças pulmonares e cardíacas, o risco não é apenas de desenvolver a COVID-19 caso seja transmitida pelo estudante, mas de ter a forma mais grave da doença, com maior possibilidade de perder a vida.
 
“Uma das minhas maiores preocupações é de que, ao voltar para a escola, contraia o vírus, não apresente sintomas e acabe transmitindo a doença para a minha avó. Eu, por ser mais nova, posso até aguentar o tranco da doença. Mas ela (a avó) não. A minha preocupação maior é essa. Acho que, por enquanto, a gente deveria continuar em casa até que tudo seja resolvido e que surja uma possível vacina. Aí sim, poderíamos voltar para a escola e retornar à normalidade”, afirma Rafaela, cautelosa com os estudos e a saúde da família.
 
Para ela, quem reside com pessoas com condições de saúde que requerem atenção maior, como Colativa, não poderá se descuidar do coronavírus mesmo depois de passada a pandemia. “Agora, a gente fica em casa, tomando todos os cuidados. Eles precisam ser ainda dobrados no caso de pessoas que, como eu, vivem com alguém que está no grupo de risco”, afirma.

Em análise


O governo de Minas Gerais informou, por meio da Secretaria de Estado de Educação (SEE/MG), que está avaliando os meios mais seguros para a retomada das atividades presenciais nas instituições de ensino, considerando critérios técnicos e científicos. “A SEE/MG está elaborando um protocolo para o retorno às aulas presenciais, em consonância com as orientações SES. O material será finalizado após amplas discussões e estudos realizados pela secretaria com entidades educativas e será apresentado em breve. Reiteramos que as demandas da área da educação são avaliadas criteriosamente e as aulas serão retomadas no momento mais seguro para alunos e profissionais envolvidos”, afirma a pasta.
 
No caso da capital mineira, o prefeito de Belo Horizonte, Alexandre Kalil (PSD), afirmou nesta semana que dificilmente as aulas presenciais retornarão enquanto uma vacina contra o novo coronavírus não estiver disponível para a população.

O que é o coronavírus


Coronavírus são uma grande família de vírus que causam infecções respiratórias. O novo agente do coronavírus (COVID-19) foi descoberto em dezembro de 2019, na China. A doença pode causar infecções com sintomas inicialmente semelhantes aos resfriados ou gripes leves, mas com risco de se agravarem, podendo resultar em morte.
Vídeo: Por que você não deve espalhar tudo que recebe no Whatsapp

Como a COVID-19 é transmitida? 

A transmissão dos coronavírus costuma ocorrer pelo ar ou por contato pessoal com secreções contaminadas, como gotículas de saliva, espirro, tosse, catarro, contato pessoal próximo, como toque ou aperto de mão, contato com objetos ou superfícies contaminadas, seguido de contato com a boca, nariz ou olhos.

Vídeo: Pessoas sem sintomas transmitem o coronavírus?


Como se prevenir?

A recomendação é evitar aglomerações, ficar longe de quem apresenta sintomas de infecção respiratória, lavar as mãos com frequência, tossir com o antebraço em frente à boca e frequentemente fazer o uso de água e sabão para lavar as mãos ou álcool em gel após ter contato com superfícies e pessoas. Em casa, tome cuidados extras contra a COVID-19.
Vídeo: Flexibilização do isolamento não é 'liberou geral'; saiba por quê

Quais os sintomas do coronavírus?

Confira os principais sintomas das pessoas infectadas pela COVID-19:

  • Febre
  • Tosse
  • Falta de ar e dificuldade para respirar
  • Problemas gástricos
  • Diarreia

Em casos graves, as vítimas apresentam:

  • Pneumonia
  • Síndrome respiratória aguda severa
  • Insuficiência renal
Os tipos de sintomas para COVID-19 aumentam a cada semana conforme os pesquisadores avançam na identificação do comportamento do vírus. 

Vídeo explica por que você deve 'aprender a tossir'


Mitos e verdades sobre o vírus

Nas redes sociais, a propagação da COVID-19 espalhou também boatos sobre como o vírus Sars-CoV-2 é transmitido. E outras dúvidas foram surgindo: O álcool em gel é capaz de matar o vírus? O coronavírus é letal em um nível preocupante? Uma pessoa infectada pode contaminar várias outras? A epidemia vai matar milhares de brasileiros, pois o SUS não teria condições de atender a todos? Fizemos uma reportagem com um médico especialista em infectologia e ele explica todos os mitos e verdades sobre o coronavírus.

Coronavírus e atividades ao ar livre: vídeo mostra o que diz a ciência

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