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Estado de Minas PANDEMIA

Emergência sem auxílio: o drama dos excluídos do 'coronavoucher'

Fantasmas da falta de comida e das dívidas assombram brasileiros sem carteira assinada que tiveram acesso vetado à ajuda de R$ 600


postado em 24/05/2020 04:00 / atualizado em 24/05/2020 09:06

Sem emprego, Vanessa do Patrocínio não obteve coronavoucher e recorre a doações para sobreviver: 'Não faltou comida porque consegui ajuda' (foto: Alexandre Guzanshe/EM/D.A Press)
Sem emprego, Vanessa do Patrocínio não obteve coronavoucher e recorre a doações para sobreviver: 'Não faltou comida porque consegui ajuda' (foto: Alexandre Guzanshe/EM/D.A Press)

Água, luz e alimentação. Ajudar no pagamento de despesas fundamentais é um dos objetivos do auxílio emergencial de R$ 600 concedido pelo governo federal no período de enfrentamento à crise causada pela pandemia do novo coronavírus. Um apoio que ficou fora do alcance de profissionais como motoristas de aplicativos, pescadores, diaristas e ambulantes de praia, depois do veto parcial do presidente Jair Bolsonaro ao projeto de lei aprovado no Congresso que ampliava o escopo de beneficiários. Cidadãos que sofrem com contas acumuladas e com o medo de faltar alimento em casa.

A empregada doméstica Vanessa Cristina do Patrocínio, de 48 anos, tentou fazer o cadastro por três vezes e a resposta desanimadora persiste: “dados inconclusivos”. Desempregada desde outubro do ano passado, ela conseguiu quitar as contas com o que resgatou do FGTS e o seguro-desemprego, que foi pago até março. Assim que acabou o dinheiro, a pandemia prendeu todo mundo em casa e ela não teve tempo de conseguir trabalho. “Não faltou comida porque consegui ajuda, mas foi quase”, conta Vanessa, que mora com o filho de 19 anos.

Com tristeza, a doméstica traça seu quadro de dificuldades e expõe a importância do auxílio para quem não tem outra fonte de renda. “Agora está difícil, a gente não arruma emprego. A gente vai sobrevivendo de doação. Minha mãe me ajuda, meu irmão... A gente se vira como pode”, disse. Moradora de Betim, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, Vanessa já havia feito planos para o dinheiro. “No primeiro mês daria para fazer compras para a gente ter alimento. No segundo, eu colocaria as contas em dia”.

Vanessa disse conhecer pessoas que, mesmo com carteira assinada, ganharam o benefício. “Nem sei por que meus dados estão inconclusivos. Não estou trabalhando, nem com ‘bico’. Com meu filho foi a mesma coisa. A gente fica chateada, mas já até perdi a esperança, pra ser sincera”, desabafa.

MOTORISTAS DE APLICATIVO 
Os motoristas de aplicativo, também excluídos da lista de beneficiários do auxílio emergencial, além de não receberem os R$ 600, sofrem com a queda no número de corridas, provocada pelo isolamento social. Clara Dias da Silva, de 45, perdeu o emprego no ramo farmacêutico há um ano e meio. Sem muitas alternativas, ela viu nos aplicativos de corrida uma salvação para pagar as contas. Alívio que hoje se tornou preocupação.

“Eu trabalhava com carro alugado e tive que devolver o veículo devido à situação financeira que fiquei após a pandemia”, disse Clara, que mora com os três filhos. Ela tentou o auxílio emergencial e, depois de 25 dias, obteve resposta negativa. “Esse dinheiro me ajudaria a manter o sustento da minha casa. Agora minha expectativa é que as pessoas se cuidem, que essa pandemia acabe e as coisas possam voltar gradativamente”, espera.

SEM RESPOSTA 
Mesmo com dificuldades, Lucas Santos Martins, de 26, continua transportando os poucos passageiros que precisam ir a destinos curtos e essenciais. “O movimento da rua não está bom. A quantidade de passageiros caiu cerca de 70%”, observa o rapaz, que se tornou parceiro de aplicativos de transporte após perder o emprego na área de logística, há um ano. Ele solicitou o auxílio ainda em abril, quando foi lançado o programa, e ainda não obteve resposta. “Tenho aluguel, alimentação, água e luz. O dinheiro faz falta. Ficar com as contas atrasadas é muito ruim”, conta Lucas, pai de uma criança de 1 ano. Por medo de levar coronavírus para a mulher e a filha, ele optou por não trabalhar no início da quarentena. Como a chegada ininterrupta dos boletos, ele teve que voltar às ruas com cuidado. “Carrego sempre álcool em gel, uso máscara, deixo as janelas abertas para ventilação e só permito a entrada de passageiro com máscara”, explica.

Clara da Silva teve que entregar o carro que alugava para trabalhar: 'Minha expectativa é que as pessoas se cuidem e as coisas possam voltar gradativamente' (foto: Alexandre Guzanshe/EM/D.A Press)
Clara da Silva teve que entregar o carro que alugava para trabalhar: 'Minha expectativa é que as pessoas se cuidem e as coisas possam voltar gradativamente' (foto: Alexandre Guzanshe/EM/D.A Press)
CPF NEGADO 

O desemprego foi o mesmo motivo que levou a Vânia Roberto, de 38, a se tornar motorista de aplicativo. “Fui demitida e optei por entrar na Uber para arrumar uma renda. Com o seguro-desemprego que peguei na época, arrumei o carro”, conta. Assim como Vanessa, citada no início desta reportagem, Vânia também não se conforma em conhecer pessoas com carteira assinada que conseguiram o auxílio do governo. “Fiz o pedido logo no início. Tento fazer tudo, mas quando digito meu CPF, aparece que está negado. Enquanto isso tem gente que trabalha fichado e teve direito ao auxílio”, reclama.

Até a semana que terminou ontem, a mulher não estava trabalhando com aplicativo por medo de levar o vírus para os pais, que são do grupo de risco e moram com ela. Mas já havia decidido retomar a atividade, apesar dos riscos. “Estava contando que teria direito ao auxílio, e agora preciso voltar porque tenho que pagar minhas contas. Não vou poder ter contato com eles (os familiares) mais, vou diretamente pro meu quarto”, disse Vânia. “As contas não param de chegar. Não dá mais para segurar as dívidas. Não sei pra onde correr.”

Motorista de aplicativo, Igor Carvalho perdeu metade das corridas e a esperança de receber apoio do governo: 'Ia ajudar se eu recebesse'(foto: Edésio Ferreira/EM/D.A Press )
Motorista de aplicativo, Igor Carvalho perdeu metade das corridas e a esperança de receber apoio do governo: 'Ia ajudar se eu recebesse' (foto: Edésio Ferreira/EM/D.A Press )

RENDA REDUZIDA 

Igor Carvalho, de 22, é motorista em Santa Luzia, na Grande BH. Como a cidade não está com todo o comércio fechado, tem movimento, mas segundo ele, a opção de carros também aumentou. “Se faço 15 corridas por dia é muito. Antes, a média era de 30 por dia. E tinha também o transporte para o aeroporto (de Confins) que ajudava”, conta o rapaz. 
    Mesmo sem conseguir o auxílio e com a renda reduzida, ele disse que as contas estão todas em dia. “Ia ajudar se eu recebesse, com certeza. Tem muita gente passando dificuldade, conheço quem entregou o carro porque não conseguiu pagar”, conta Igor, que trabalha das 5h às 20h30. “A gente tinha uma renda por dia, mas hoje é muito difícil de fazer o mesmo que antes. Ainda mais que BH está fechada”, explica Igor. (DL)


Perdas em dose dupla

O pescador Deyvison Lima sofre com a redução dos peixes e das vendas, sem seguro defeso nem auxílio emergencial(foto: Aparício Mansur/especial para o EM )
O pescador Deyvison Lima sofre com a redução dos peixes e das vendas, sem seguro defeso nem auxílio emergencial (foto: Aparício Mansur/especial para o EM )

Primeiro, expectativa. Depois, frustração e necessidade. Essa é a situação vivida por pescadores artesanais, que se juntam a outros “excluídos” do auxílio emergencial de R$ 600 pelo veto parcial do presidente Jair Bolsonaro ao projeto que ampliava a lista de categorias com direito à ajuda. Para os pescadores artesanais do Rio São Francisco, a penúria é dupla. Além do impacto das perdas nas vendas em função do isolamento social e da pandemia, sofrem com a redução da quantidade de peixes na bacia, consequência da devastação ambiental.

“Tivemos até que providenciar a doação de cestas básicas para alguns pescadores, pois eles ficaram sem condições de comprar alimentos”, conta o coordenador da Colônia de Pescadores de Januária – no Norte de Minas –, Cristiano Lima Rodrigues, ao apontar a necessidade de ajuda governamental. Segundo Cristiano, desde o início do isolamento social, a Colônia de Pescadores de Januária já distribuiu em torno de 20 cestas básicas. Os mantimentos foram adquiridos pela própria associação. A entidade conta com cerca de 2 mil associados espalhados por sete municípios ao longo do Velho Chico, no Norte de Minas. Desse total, 780 são do município de Januária.

O dirigente da Colônia de Pescadores de Januária salienta antes mesmo da pandemia do coronavírus, parte de integrantes da categoria já vinha enfrentando a falta de recursos para a própria manutenção, por não conseguir receber o seguro defeso – pago pelo governo federal aos pescadores artesanais cadastrados, no valor de um salário mínimo por mês,  durante a piracema, época de reprodução dos peixes (de novembro a março), quando a pesca é suspensa. Segundo Cristiano Lima, houve um problema no novo sistema de processamento eletrônico do seguro por parte do Instituto Nacional de Seguridade Social (INSS) e, com isso, em torno de 20% não conseguiram receber o valor até março, quando começou o isolamento social decorrente da COVID-19.

Na justificativa para barrar a ampliação do auxílio, o governo federal alegou que o projeto de lei aprovado no Congresso feria o princípio da isonomia por privilegiar algumas profissões.  Mas os pescadores artesanais não se conformam. “O mercado do peixe caiu muito, pois os consumidores ficaram sem dinheiro para comprar”, diz Lima.

APERTO 

Casado e pai de quatro filhos, Geilton Gomes da Silva, de 34 anos, é um dos pescadores artesanais do Rio São Francisco que ficaram sem o seguro defeso e ainda tiveram sua situação agravada pela crise do coronavírus. A situação apertou tanto que ele não conseguiu mais pagar o aluguel de R$ 300 do barracão onde morava e se viu obrigado a ir para a casa da mãe, onde 10 pessoas estão dividindo seis cômodos. “Está muito difícil porque as pessoas ficam com medo do vírus e não saem mais de casa para comprar o peixe. Além disso, os peixes no rio diminuíram muito. Tem dia que saio para pescar e volto sem nada”, lamenta o pescador de Januária.

Deyvison Barbosa Lima, de 26, pescador em Pirapora, em outro ponto do Norte de Minas, também lamenta a exclusão. Ele conta que “perdeu o direito” de receber o seguro da pesca há algum tempo quando foi “fichado” no serviço de instalação de placas em uma usina de energia solar em Pirapora. Mas, há cerca de dois anos, quando terminou a implantação da usina, ele ficou sem emprego. Voltou a pescar, mas ainda não conseguiu o cadastro para recebimento da ajuda durante o período da piracema. “Preciso dessa ajuda de R$ 600 para poder comprar leite para o meu filho. O governo deveria liberar esse auxílio pra gente”, pede o pescador artesanal, acrescentando que vive com a companheira e um filho de 3 anos.

“Saio para o rio (para pescar) às 3h e volto às 10h. Tem dia que dá um peixinho. Mas, tem dia que não pego nada”, diz Deyvison, reclamando da redução dos cardumes no Rio São Francisco, que se intensificou nos últimos anos, principalmente, com a diminuição do surubi, a espécie de peixe mais conhecida do Velho Chico, usada no preparo da famosa muqueca. “Mesmo quando a gente pega alguma coisa, fica difícil para vender o peixe. A procura está muito baixa”, afirma o morador de Pirapora. Em busca da sobrevivência, ele apela para “bicos” como servente de pedreiro, mas nem isso tem ajudado. “Esse serviço também está muito difícil”, afirma. (LR)

SERVIÇO
Para conhecer as regras do Auxílio Emergencial, acesse www.caixa.gov.br/auxilio
 
 

O que é o coronavírus?

Coronavírus são uma grande família de vírus que causam infecções respiratórias. O novo agente do coronavírus (COVID-19) foi descoberto em dezembro de 2019, na China. A doença pode causar infecções com sintomas inicialmente semelhantes aos resfriados ou gripes leves, mas com risco de se agravarem, podendo resultar em morte.

Como a COVID-19 é transmitida?

A transmissão dos coronavírus costuma ocorrer pelo ar ou por contato pessoal com secreções contaminadas, como gotículas de saliva, espirro, tosse, catarro, contato pessoal próximo, como toque ou aperto de mão, contato com objetos ou superfícies contaminadas, seguido de contato com a boca, nariz ou olhos.

Como se prevenir?

A recomendação é evitar aglomerações, ficar longe de quem apresenta sintomas de infecção respiratória, lavar as mãos com frequência, tossir com o antebraço em frente à boca e frequentemente fazer o uso de água e sabão para lavar as mãos ou álcool em gel após ter contato com superfícies e pessoas. Em casa, tome cuidados extras contra a COVID-19.

Quais os sintomas do coronavírus?

Confira os principais sintomas das pessoas infectadas pela COVID-19:

  • Febre
  • Tosse
  • Falta de ar e dificuldade para respirar
  • Problemas gástricos
  • Diarreia


Em casos graves, as vítimas apresentam:

  • Pneumonia
  • Síndrome respiratória aguda severa
  • Insuficiência renal

Os tipos de sintomas para COVID-19 aumentam a cada semana conforme os pesquisadores avançam na identificação do comportamento do vírus. 

Mitos e verdades sobre o vírus

Nas redes sociais, a propagação da COVID-19 espalhou também boatos sobre como o vírus Sars-CoV-2 é transmitido. E outras dúvidas foram surgindo: O álcool em gel é capaz de matar o vírus? O coronavírus é letal em um nível preocupante? Uma pessoa infectada pode contaminar várias outras? A epidemia vai matar milhares de brasileiros, pois o SUS não teria condições de atender a todos? Fizemos uma reportagem com um médico especialista em infectologia e ele explica todos os mitos e verdades sobre o coronavírus.

Para saber mais sobre o coronavírus, leia também:

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