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Estado de Minas DIA INTERNACIONAL DA MULHER

Mãe, avó, eletricista e realizada: conheça a história de recomeço de Fabrícia

'Esse serviço sempre foi meu sonho. Estou feliz fazendo o que gosto', diz mineira que recomeçou a vida como eletricista predial depois de perder tudo na chuva histórica de 25 de janeiro


postado em 08/03/2020 04:00 / atualizado em 08/03/2020 07:38

Fabrícia Aparecida Paulino, de 37 anos, mãe de quatro filhos e avó, comemora a oportunidade de exercer a profissão de eletricista(foto: ALEXANDRE GUZANSHE/EM/D.A PRESS)
Fabrícia Aparecida Paulino, de 37 anos, mãe de quatro filhos e avó, comemora a oportunidade de exercer a profissão de eletricista (foto: ALEXANDRE GUZANSHE/EM/D.A PRESS)

Os primeiros meses deste ano vieram para quem tem nervos de aço, sangue-frio e coração forte. Chuvas torrenciais e coronavírus circulando mundo afora testaram os limites da paciência, obrigaram muita gente a mudar os hábitos e levaram os cientistas, numa situação semelhante a “decifra-me ou devoro-te”, à urgência de mergulhar nos estudos para entender mais um enigma do século 21. Neste Dia Internacional da Mulher, mulheres como Fabrícia Aparecida Paulino, de 37 anos mostram como enfrentam os desafios e o inesperado dos fatos que deixaram mortos, famílias desamparadas, pessoas traumatizadas e uma imensa interrogação no ar. Pela determinação do trio, não seria exagero dizer que elas, entre milhões do universo feminino, “têm a força”: para lutar, criar, sonhar, melhorar a humanidade e, principalmente, viver.

Com 37 anos, quatro filhos e uma neta, Fabrícia se viu sem chão, paredes e teto durante o histórico temporal de janeiro em Belo Horizonte. Moradora de área de risco, ela deixou o imóvel e se abrigou num quarto com a família. Mas a esperança falou mais alto e, poucos dias depois, concretizou desejos antigos: fazer o curso de eletricidade predial e trabalhar na área. “Conserto até chuveiro”, orgulha-se.

Quinta-feira (5) foi um dia diferente na vida de Fabrícia, mãe de Marlon, Thaynara, Taynan, e Mayra e avó de Elise, de 1 ano e dois meses. Com forte gripe, faltou ao trabalho, mas, à tarde, reuniu forças, aprumou o corpo e entrou no ônibus rumo ao Centro de Belo Horizonte. O motivo não poderia ser mais nobre para ela: o curso de eletricista predial, do qual fala com quase devoção.

“Esse serviço sempre foi meu sonho. Já consertei chuveiro aqui em casa, arrumei a torneira do tanque, dei um jeito no ventilador.” As aulas começaram em 3 de fevereiro, quando Fabrícia também conseguiu emprego na sua área de atuação. “Sou ligada na tomada 220 volts, estou feliz demais fazendo o que gosto.”

Tranquilidade em meio ao caos

O momento era trágico, mas, com lucidez, Fabrícia manteve a calma e conduziu a família a um lugar seguro. Na chuva histórica de 25 de janeiro, a casa onde ela morava, no Bairro Jardim Alvorada, na Região da Pampulha, “começou a dar estalos” – na região, houve morte, por soterramento, de uma mulher e três filhos e um vizinho.

Sem esperar pelo pior ou ir para um abrigo, ela alugou um quarto para alojar toda a família, e encontrou novo endereço no Bairro Ouro Preto. “Veja só, em 4 de janeiro fizemos, naquela casa, a festinha de 1 ano de Elise. Já estava chovendo, mas nada aconteceu, felizmente”.

Segurando todas as “pontas” financeiras e emocionais, Fabrícia não se entregou e manteve a energia. Na época, ao encontrá-la perto da casa à beira do barranco, os repórteres do Estado de Minas ficaram impressionados com a serenidade no rosto para o recomeço. “Estava triste por perder a moradia, mas animada pela profissão de eletricista e de ficar junto com a família”, conta Fabrícia, que mora com o namorado, Luiz Fernando, de 25. Entusiasmada com o curso de eletricidade predial, diz que o Centro Divina Providência Profissionalizante (Cedipro) oferece também curso de corte e costura, e tem alunos. “Sou das poucas mulheres que fazem o curso de eletricista.”

"É preciso respeito"

Mulher, negra e eletricista. E por que não? O comentário sobre a profissão é a deixa para Fabrícia falar sobre preconceitos sofridos ao longo da vida. Trabalhou muitos anos como doméstica, e ouviu palavras ofensivas sobre a cor da pele. Quando muda o rumo profissional, depois de vender lingerie e servir em bufês, escuta que se trata de uma profissão de homem. “Respondo que não! Qualquer um pode ser eletricista, um ofício que exige calma”, avisa.

O que a tira mesmo do sério é preconceito contra a mulher: “Se uso um short curto, que gosto muito, não significa que a porta está aberta. Se dou um sorriso, não quer dizer que estou disponível. É preciso respeito”, afirma a mulher, que, conforme diz, nunca está igual. “Mudo sempre o cabelo. Ontem estava de cabelão, hoje estou de trancinhas. Gosto desta transformação.”

Ao lado dos filhos e da neta, Fabrícia faz planos agora de se casar com o namorado(foto: ALEXANDRE GUZANSHE/EM/D.A PRESS)
Ao lado dos filhos e da neta, Fabrícia faz planos agora de se casar com o namorado (foto: ALEXANDRE GUZANSHE/EM/D.A PRESS)


Junto dos filhos Thaynara, de 19, mãe de Elise, e Taynan, de 17, que estavam em casa na tarde de quinta-feira – os outros são Marlon, de 21, que trabalha, e Mayra, de 11 – Fabrícia quer mesmo é ser feliz. O namorado também estava no batente. “Sabia que Deus tinha um presente para mim. E ele chegou nesta fase da vida”, afirma a mulher sobre a capacitação profissional, antes de revelar mais um sonho. “Quero me casar com um vestido branco, tomara que caia, e carregando rosas vermelhas, minha paixão”. Então, é esperar pelo futuro.

Participação na construção civil

A participação feminina no setor da construção civil cresceu e apareceu no país: em Minas, elas já representam 10% da mão de obra no segmento, somando aproximadamente 22 mil trabalhadoras, de acordo com o Sindicato da Indústria da Construção de Minas Gerais (Sinduscon-MG), com base em informações do Ministério do Trabalho e Emprego. Nos últimos 10 anos, a estimativa é de que a contratação de mulheres tenha crescido quase 50%, com mais de 200 mil mulheres trabalhando atualmente no setor, no Brasil.


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