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Estado de Minas ENTREVISTA/ SAMYRA CRESPO

Na contramão do CONSUMISMO

Secretária de Articulação Institucional do Ministério do Meio Ambiente explica de que forma o consumidor poderá trabalhar pelo consumo consciente.


postado em 20/08/2012 18:51 / atualizado em 20/08/2012 19:23

Samyra Crespo participou do Minas Viva em Belo Horizonte(foto: JULIANA FLISTER/ESP. EM/D.A PRESS)
Samyra Crespo participou do Minas Viva em Belo Horizonte (foto: JULIANA FLISTER/ESP. EM/D.A PRESS)
Um dos grandes desafios do mundo contemporâneo é o de mudar hábitos de consumo agressivos ao meio ambiente em favor de práticas menos danosas. As cidades entulhadas de carros e o excesso de lixo produzido constituem a face visível do consumismo. Na contramão disso, há movimentos que pregam exatamente o contrário: que se limite o consumo apenas àquilo que seja realmente necessário e se passe a dar uma atenção maior ao descarte correto dos produtos que chegaram ao fim de sua vida útil. O movimento Simplicidade Voluntária prega um estilo de vida no qual as pessoas, conscientemente, optam por reduzir o consumo. O norte-americano Duane Elgin, autor do livro Simplicidade voluntária e um dos primeiros a pregar a redução voluntária do consumo, faz uma distinção entre simplicidade e pobreza. Para ele, a pobreza é involuntária e debilitante; a simplicidade é mobilizadora. Para a também norte-americana Vicky Robin, autora de Dinheiro e vida, a cultura do consumismo vende a vergonha de não ter bens. No Brasil, o Instituto Akatu também trabalha a ideia do consumo consciente.

Outro aliado de peso é o governo federal, que recentemente lançou o Plano de Produção e Consumo Consciente, que é coordenado por Samyra Crespo, secretária de Articulação Institucional do Ministério do Meio Ambiente. Ela esteve em Belo Horizonte na semana passada, quando participou do Minas+Viva. Em entrevista ao Estado de Minas, Samyra detalha o plano e explica de que forma o consumidor poderá trabalhar pelo consumo consciente.

Quais os objetivos do Plano de Produção e Consumo Consciente?
O plano prioriza seis objetivos. O primeiro é fomentar no país as compras sustentáveis; o segundo é promover a educação para o desenvolvimento sustentável; o terceiro é trabalhar a agenda ambiental na administração pública de forma a transformar os prédios e a gestão pública para que se tornem mais sustentáveis; o quarto objetivo é trabalhar o varejo sustentável, pois percebemos que o varejo é que tem contato com os consumidores e tem capilaridade no Brasil inteiro. Qualquer cidade do interior tem um supermercado. Uma pesquisa mostra que os brasileiros dos centros urbanos vão ao supermercado pelo menos duas vezes por semana. Na área rural, eles vão ao hipermercado pelo menos uma vez a cada 10 dias. Assim, se o varejo passar a colocar produtos mais saudáveis nas gôndolas, mudar suas operações para que as lojas se tornem ecoeficientes, instalar postos de coleta para facilitar a vida do consumidor no momento do descarte e fizer a redução do uso de sacolas plásticas, alcançaremos mais resultado do que as ações centralizadas no governo. O quinto objetivo é aumentar a reciclagem. O Ministério do Meio Ambiente está trabalhando a campanha “Acerte na lata”, para que a população passe a separar o lixo seco do molhado e passe a ver valor no lixo seco. Por último, pretendemos fomentar novas cadeias produtivas e torná-las fonte de renda para os catadores nos grandes centros.

Como será a implantação desse processo?
Precisamos, primeiro, que o consumidor seja informado para que possa fazer suas opções de consumo e de descarte. Acabamos de assinar um acordo com a Associação Brasileira de Embalagens para que passem a informar nas embalagens como deve ser feito o descarte. As adequações serão feitas em mil produtos por ano, até que todas as embalagens tragam essa informação, em 2014. Temos também um grande trabalho com empresas, como Unilever e Coca-Cola, para modificar todo o sistema de refrigeração de alimentos. A maior parte desse parque de conservadores de alimentos tem gases de efeito estufa e não é nada eficiente do ponto de vista energético. Esse é um investimento que as empresas precisam fazer. Ou seja, existem várias ações do plano que afetam diretamente o consumidor, outras que são de bastidores e outras que cabe ao governo implementar. Também será a primeira vez que o governo, por meio do ministério, vai trabalhar a opinião pública. O tema da sacola plástica fez parte da primeira campanha, “Saco é um saco”. Agora estamos trabalhando o descarte responsável. O próximo tema trabalhado será o consumo infantil.

Qual o papel da mulher nas mudanças de hábito de consumo?
O papel da mulher é fundamental e as pesquisas mostram que elas têm o poder de decisão de compra na mão. É a mulher quem decide sobre cerca de 70% a 80% dos itens que uma família compra. Essa decisão é compartilhada com o homem apenas em itens como a compra do carro e da casa, mas, em geral, em todos os itens de alimentação, vestuário, lazer, cursos e tudo mais, é a mulher quem decide. Por isso, vamos trabalhar a importância da mulher, não como consumidoras, mas como provedoras, cuidadoras da família. Precisamos mostrar como esse papel de provedora pode se aproximar de um consumo mais inteligente.

De que forma o governo vai tratar isso?
O governo não quer tratar os consumidores como infantis e nem de forma autoritária, dizendo o que eles devem fazer, mas mostrar ideias que levem a escolhas mais inteligentes. Por que substituir a banana ou a maçã na merenda do seu filho por um produto industrializado? Qual a desvantagem disso? São perguntas que as pessoas precisam se fazer. O crescimento da classe C tem levado as pessoas a oferecer às crianças mais salgadinhos, biscoitos e refrigerantes sem fazer a conta desse custo lá na frente. É preciso sair do piloto automático e esse é um esforço que governo e sociedade precisam fazer juntos. Todas essas iniciativas fazem parte da implantação do Plano de Produção e Consumo Sustentável, que, por enquanto, está no nível federal. Estamos trabalhando para torná-lo conhecido com uma campanha nacional e o objetivo para o ano que vem é começar a dialogar com os estados e municípios para que eles também façam seus planos de produção e consumo sustentável.

Como esse plano afeta nossas relações de consumo e descarte de produtos?
A Política Nacional de Resíduos Sólidos criou responsabilidades para os fabricantes e distribuidores. Hoje, esse fabricante precisa pensar não só no modo como ele produz e empurra o problema para o consumidor, mas, principalmente, como essa embalagem vai se comportar no pós-consumo. Se houver aumento de custo, ele vai começar a fazer embalagens mais degradáveis, menores, mais fáceis de serem coletadas. Isso certamente vai reduzir o preço dos produtos, pois o excesso de embalagens encarece os produtos. No suco de caixinha, por exemplo, o custo maior está na embalagem.

O que pode ser feito a partir daí?
Acho que vamos, todos, repensar várias práticas e hábitos. Não só consumidores, mas também a indústria, porque ela terá que pagar esse custo que antes era empurrado para o pós-consumo e para o poder público. Olhando para o passado, aprendemos a ler rótulos por questão de saúde. Consultamos se o produto está dentro da validade ou para evitar consumir coisas que não queremos, como transgênicos, glúten, açucares e outros. Da mesma forma, vamos ler nas embalagens para saber como descartá-las.

E quanto ao prazo para a implantação do plano?
A ideia é evitar um viés autoritário, obrigando as pessoas a fazer essas mudanças. A primeira parte do plano visa atingir uma agenda positiva, de ações voluntárias, de construção de cidadania, de contribuição para o coletivo, com ações que passam a ser referência no país. No primeiro momento, o plano tem a preocupação e filosofia de acreditar que podemos fazer escolhas inteligentes. Quanto à Política Nacional de Resíduos Sólidos, as responsabilidades já estão definidas para o setor público e para o setor produtivo. No caso do consumidor, é preciso convencê-lo a mudar os hábitos – que são absolutamente predadores – no espaço do seu lar, onde não existe autoridade que entre e exija como ele deve proceder.

O que pode ser feito, então?
Precisamos de uma grande campanha de convencimento sobre práticas que devemos abandonar, como jogar medicamentos vencidos no vaso sanitário ou óleo de cozinha no ralo da pia. Nesse sentido eu sou otimista, porque desde criança somos indivíduos comportamentais, capazes de aprender e ensinar coisas novas. Podemos dizer que os dois planos se complementam e vão orientar o consumo e o descarte responsável, correto, e evitar desperdícios. Daqui a pouco o próprio consumidor vai questionar o porquê de tantas embalagens. Será que eu preciso disso? É uma conta que a população tem que fazer e sair da zona de conforto. Porque se não sair da zona de conforto por bem, sairá por mal. Virão leis punitivas e restritivas no futuro e, provavelmente, pagaremos um alto preço pela má qualidade ambiental das nossas cidades. Basta termos uma greve de lixeiros para, em dois dias, vermos o mar de lixo que impacta a cidade. Infelizmente, a maioria das pessoas achava que era só colocar o lixo no saco e pôr na rua que ele já não era mais problema seu. É preciso ver que não funciona assim.


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