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Estado de Minas REFERÊNCIA CULTURAL

Artistas e representantes do cenário belo-horizontino cobram projetos que ampliem o uso do espaço público


postado em 20/08/2012 18:59 / atualizado em 20/08/2012 19:24

Pensado para interagir com o Hipercentro, o Espaço CentoeQuatro consolidou sua programação (foto: Pedro Motta/Esp. EM.)
Pensado para interagir com o Hipercentro, o Espaço CentoeQuatro consolidou sua programação (foto: Pedro Motta/Esp. EM.)
A revitalização do Hipercentro de Belo Horizonte e a busca de novos espaços para a cultura foram discutidas no Espaço CentroeQuatro durante o Minas+Viva. Foram apresentados cases de sucesso, como o de reabilitação da Lapa como centro histórico, cultural e gastronômico do Rio de Janeiro, e discutidas as razões do fracasso de iniciativas semelhantes que seriam implantadas em Belo Horizonte, como os projetos Rua da Bahia 24 Horas e o de revitalização da Lagoinha. Artistas aproveitaram para defender a ampliação do debate sobre o uso dos espaços da cidade para a cultura e a arte.

A gestora do Espaço CentoeQuatro, Inês Rabelo, afirma que a revitalização do Hipercentro envolve questões complexas, mas possíveis de serem trabalhadas. Para ela, mais importante do que entender a cidade como um problema é vê-la como um manancial de soluções. Inês entende que experiências como a de revitalização da Lapa, no Rio de Janeiro, são possíveis de serem replicadas, desde que Belo Horizonte descubra sua vocação. "Como na Lapa, a proposta aqui só vai vingar se grupos que têm reflexões sobre a cultura fizerem esse movimento de compartilhamento de ideias com o poder público."

Inês apresentou o case do Espaço CentoeQuatro, que tem trajetória de três anos e foi pensado para interagir com o Hipercentro como um espaço mutável e multiuso. "O Espaço demandou muita observação até consolidar sua programação." Ela revela que o próximo passo é a abertura de sua biblioteca, com o propósito de se tornar um centro de documentação e estudos sobre o Hipercentro. O Espaço deve abrigar um centro de conveniência, com restaurante e um cinema. Outra ideia é a implantação de uma plataforma, que, em breve, vai virar jornal, fruto de parceria com o Estado de Minas.

Plínio Fróes, sócio-diretor do Pavilhão da Cultura Rio Scenarium, relatou como foi o processo de revitalização da Lapa e afirmou que o Centro de Belo Horizonte tem potencial para se tornar referência em cultura e passar a receber eventos de música, dança e exposições, assim como ocorreu no Rio. "A Lapa foi um processo orgânico que começou de baixo, partindo dos próprios empresários, que se articularam, procuraram o poder público, arregaçaram as mangas e encontraram uma forma alternativa de desenvolver seus projetos, enquanto o mercado ia definindo a nossa vocação."

O teatrólogo e proprietário do Teatro da Cidade, Pedro Paulo Cava, que apresentou o case do projeto Rua da Bahia 24 Horas, não acredita que o Hipercentro possa abrigar algo semelhante à Lapa. "Belo Horizonte é muito diferente do Rio. Os cariocas fazem acontecer, mesmo sem o poder público. BH nos últimos anos tem sofrido um patrulhamento de políticos e burocratas, que não deixam as coisas acontecer." Ele acrescenta que é possível fazer apenas reabilitações pontuais no Centro, como aconteceu com o Espaço CentroeQuatro e a Praça da Estação, mas nada como foi pensado nos anos 90 para a Rua da Bahia 24 Horas. "Temos conseguido reabilitar espaços importantes, mas integrar tudo em uma proposta única é improvável, porque os espaços não sabem dialogar entre si e se articular numa proposta cultural conjunta", afirmou.

POLÍTICAS PÚBLICAS Para o arquiteto e professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Leonardo Castriota, que esteve envolvido na também fracassada proposta de revitalização da Lagoinha, faltam políticas públicas de conservação compatíveis com o crescimento das cidades. Ele conta que o projeto de revitalização da Lagoinha surgiu em 1994, junto com as discussões sobre o Plano Diretor da capital. Assim como aconteceu com o Rua da Bahia 24 Horas, mudou o governo, o projeto foi, segundo ele, abandonado, deixando como herança apenas a criação da área de diretrizes especiais (ADE) na região, prevista no Plano Diretor, mas nunca regulamentada.

Com relação à segurança, o major Wellerson Silva, responsável pelo policiamento no Hipercentro, explica que a PM está desenvolvendo um programa chamado Policiamento Local Integrado e Sustentável (Polis). A proposta é aproximar os comerciantes, lojistas e moradores de policiais que serão referência em cada um dos setores definidos no programa. "A nossa capital anseia por essa revitalização e vemos com bons olhos esse processo, do qual somos parte. Nossa proposta é que o policial apadrinhe a comunidade e seja apresentado a ela como o seu referencial de policial. Essa referência vai nos permitir antecipar, dialogar e construir uma segurança pública mais eficiente."

Para Solanda Steckelberg, presidente da Fundação Clóvis Salgado, a revitalização é um importante modo de organização da vida na cidade. Ela afirma que para isso acontecer falta realizar um trabalho maior no campo do pertencimento, do autoconhecimento e da cidadania, para que haja uma relação melhor da população com esses espaços. "Precisamos de políticas públicas permanentes atuando no desafio de preparar cidadãos críticos e conscientes dos seus direitos e deveres."

O músico Maurício Tizumba defendeu que a sociedade e os artistas se unam para cobrar do poder público iniciativas de fomento à cultura. "Os artistas têm um papel de resistência para fazer a coisa acontecer. Precisamos ajeitar a ocupação das pessoas na cidade, buscando mudanças necessárias, e trabalhar para diminuir as dificuldades dos artistas que precisam desse espaço para mostrar seu trabalho."

 

(foto: Beto Novaes/Estado de Minas )
(foto: Beto Novaes/Estado de Minas )

MEMÓRIA
Projeto engavetado
A proposta de revitalização da Lagoinha, na Região Noroeste de Belo Horizonte, elaborada em 1994, era manter as características físicas do bairro e preservar sua vocação econômica e cultural. O projeto previa a requalificação da região segundo quatro pilares: ambiental, econômico, cultural e social. A iniciativa fracassada contemplava a criação de praças, recuperação de ruas e calçadas, revitalização da fachada das casas, valorização do comércio e resgate das tradições culturais. "O Estado é muito importante como articulador de projetos, e quando ele não faz esse planejamento, a coisa não vinga", afirma o arquiteto e professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Leonardo Castriota.


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