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Estado de Minas PANDEMIA

Setor de pet shops foi dos poucos que teve crescimento durante a pandemia

Na contramão da maioria dos setores que sofreram com a crise econômica, mercado de animais de estimação teve crescimento acima do esperado em 2020


16/04/2021 19:56 - atualizado 16/04/2021 20:31

O setor de pet shops foi um dos que menos sofreu com a pandemia do coronavírus(foto: Petland/Divulgação )
O setor de pet shops foi um dos que menos sofreu com a pandemia do coronavírus (foto: Petland/Divulgação )
Há mais de um ano, desde que a pandemia do coronavírus começou, a economia do país sofre com o comércio não essencial fechado e medidas que restringem a circulação de pessoas nos grandes centros comerciais. 

 

 


No entanto, alguns setores conseguiram driblar os efeitos da crise econômica e apresentar resultados positivos. É o caso do mercado pet que, segundo projeções do Instituto Pet Brasil, encerrou 2020 com faturamento de R$ 40,1 bilhões e crescimento de 13,5% em relação ao ano anterior.  

O índice é 6,88% maior do que aquele projetado nos primeiros seis meses do ano passado. Alimentos e produtos veterinários lideram, com alta de faturamento de, respectivamente, 22,5% e 16%.

O analista do Sebrae Minas Jonas Bovolenta lembra que este setor já apresentava crescimento e boa projeção antes da pandemia, uma vez que o Brasil é o segundo maior mercado pet do mundo. Para ele, alguns fatores explicam essa expansão. 

“O hábito de consumo e a forma como as pessoas tratam os pets hoje em dia. Elas passaram a morar mais sozinhas, a ter um novo estilo de vida e a buscar nos pets seus companheiros diários, passando a tratá-los como membros da família. Com isso, elas tendem a escolher mais produtos e serviços de qualidade para seus pets. Em contrapartida, a indústria viu uma oportunidade nisso. Além do mais, é uma indústria que está sempre inovando”, explica. 

Com a pandemia, segundo Jonas, as pessoas passaram a ficar mais tempo em casa e a redobrar os cuidados com seus animais de estimação. O número de adoções aumentou também durante esse período. 

“É um setor com forte apelo emocional, muito ligado a forma como lidamos com os pets dentro de casa. Ele também vem acompanhando esse processo de transformação digital, que foi acelerado em razão da pandemia. Naturalmente, durante esse período de isolamento, o consumo aumentou pelo meio on-line”, afirma. 

Jonas acredita que outro fator pode ter contribuído para este crescimento do mercado pet.
“Com certeza, o fato de ser considerado um serviço essencial foi fundamental para esse crescimento. A economia teve um forte impacto em função dessas medidas de restrição, com comércio fechando.” 

Para ele, nesse período, as empresas menos impactadas por essas medidas de restrição foram aquelas que já tinham uma cultura digital e trabalhavam on-line. “Ser considerado um serviço essencial possibilitou que as pessoas comprassem periodicamente no ponto físico”, completa.

Investir em tecnologia para crescer


O analista do Sebrae afirma que investir em tecnologia pode ser essencial, mesmo após a pandemia. O comércio eletrônico responde por 4,4% do faturamento do setor (1,5 bilhão). 

“No contexto pós-pandemia, o canal on-line vai ser fundamental. Sob a ótica do consumidor, quem experimentou pela primeira vez on-line e gostou, viu o quanto é cômodo, ágil e rápido comprar pela internet. Isso pode se tornar um hábito, já que o cliente hoje quer facilidade e comodidade. É um canal de vendas em que o empresário pode estabelecer uma conexão maior com o cliente e gerar mais vendas”.  

Para ele, os pequenos empresários têm a seu favor um atendimento mais personalizado e para competir com as grandes redes devem ficar atentos às transformações do mercado e acompanhá-las. “A questão do digital, ter uma boa gestão dentro da empresa são pilares para se manter no mercado, caso contrário estão fadados ao fracasso. É um setor que cresce e a tendência é crescer ainda mais, independentemente de ser pequeno ou grande negócio”, finaliza. 

É o caso do Grupo Brasil Pet, que começou em 2018 com uma rede de lojas de pet shop da marca americana Petland e, atualmente, é uma holding com seis marcas, entre elas clínica veterinária, franquia, soluções de pagamentos e um programa de gestão para pequenos empresários.  

“A gente começou com a rede de lojas, trazendo a Petland, uma marca americana, que existe há mais de 50 anos e está em 19 países. Em 2014 trouxemos a marca para o Brasil, com o objetivo de profissionalizar o pequeno empresário e fazer uma rede de lojas. Nosso foco são lojas de bairro, de pequeno e médio porte”, explica Rodrigo Albuquerque, CEO do Grupo. 

Em 2020, a empresa contabilizou 217 lojas, com faturamento de R$ 180 milhões, das quais 40% das unidades vendidas entraram no segundo semestre. As lojas operam em 23 estados nas principais cidades do país.

Programa Afiliados e mais lojas em Minas 


Rodrigo conta que, em razão da pandemia, o grupo decidiu criar um programa para ajudar os pequenos empresários do setor. O Afiliados é um pacote de benefícios totalmente on-line com foco em conteúdo e gestão, além de uma agenda cheia de treinamentos. O afiliado também pode vender on-line, ter acesso a ferramentas de marketing e ao centro de compras.

“Com a pandemia decidimos fazer alguma coisa para ajudar os pequenos empresários. Criamos uma universidade digital específica para este público. Temos aulas de vendas, marketing, fluxo de caixa, veterinária. Toda semana tem uma aula nova.”

Além disso, os afiliados têm acesso também a uma mentoria individual para poder destacar pontos em que eles podem melhorar, como disposição dos produtos na vitrine e iluminação da loja, por exemplo. 

“Damos um plano de ação para ele, bem direcionado. A partir disso, ele entra na parte de capacitação. Temos um grupo de Whatsapp apenas para compartilhar conteúdos quase diariamente. Fazemos também reunião mensal on-line, em grupo. Além disso, os afiliados podem comprar produtos de marca própria, usar as máquinas de cartão, para diminuir o custo da taxa e melhorar a operação”, acrescenta. 

São 130 lojas nesse modelo de afiliados, 10 delas no estado de Minas Gerais. Os afiliados têm 4 meses de carência e pagam uma mensalidade de R$ 389. 

Para Rodrigo, o crescimento do mercado pet, em um ano de crise para outros setores, está ligado a uma soma de fatores. “Em um momento delicado desses, com as pessoas trancadas em casa, elas ficam muito mais tempo com o animal, a interação aumenta. E acaba agradando mais esse bichinho. Com isso, aumenta a venda de petisco, de brinquedo. O animal precisa interagir porque está saindo menos para passear e ele vai acabar precisando de mais brinquedos e produtos.” 

O empresário ressalta que o e-commerce aumentou de 3,5% das vendas totais para 9%, em 2020. O fato dos pet shops não terem limitação de funcionamento também ajudou. “ Teve um movimento normal nas lojas físicas. Os horários ficaram mais espaçados para marcação de banho, com menos pessoas, seguindo todas as regras. Mas, as lojas estão cheias. Neste período de medidas mais restritivas, as pessoas tendem a ir para lugares que estão abertos. Então, isso também favorece o canal físico. Ele acaba sendo até um programa para as pessoas em momentos como esse.”

O grupo abriu sua primeira loja em Uberlândia no início deste ano e tem planos de inaugurar mais unidades nos próximos anos. Em abril é a vez de Varginha, na região sul do estado. A rede tem planos contratados para Poços de Caldas e outras cidades do entorno. Em 2 a 3 anos pretendem abrir mais 5 lojas na região sul. Já em Belo Horizonte existem 2 lojas em obras e mais 10 unidades contratadas para os próximos anos. “A meta é ter pelo menos 40 lojas no estado pelos próximos 5 anos.” 

Pequenos negócios são maioria 


Apesar do faturamento das grandes redes, de acordo com o Instituto Pet Brasil, o Brasil tem 40 mil lojas do mercado pet, sendo que a maior parte são pequenos negócios, que se enquadram na categoria loja de vizinhança (79,6%), com faturamento médio de R$ 60 mil a R$ 100 mil e possui até quatro funcionários. 

Além disso, a pesquisa O Impacto da pandemia de coronavírus nos Pequenos Negócios, feita pelo Sebrae, entre os dias 25 de fevereiro e 1° de março de 2021, mostra que o setor de pet shops e serviços veterinários foi um dos menos afetados neste período de pandemia.

Ao todo, 6.228 empresários de todos os 26 estados e Distrito Federal foram entrevistados e 33% deles relatam que seu faturamento foi melhor que em 2019. Já 12% dizem que foi igual, 47% que foi pior e 8% não souberam ou quiseram responder. 

Entre os ouvidos, 35% estão funcionando da mesma forma que antes da crise, 52% estão funcionando com mudanças por causa da crise, 10% estão com funcionamento interrompido temporariamente e apenas 4% decidiram fechar a empresa. 

Para 78% deles, o faturamento mensal diminuiu em relação a um mês normal, 12% afirmaram que ele permaneceu igual, 8% que ele aumentou e 2% não souberam ou quiseram responder. 

Mesmo sendo um dos setores menos afetados durante a pandemia, 34% afirmam que estão com dívidas em atraso. 

“Não paramos de atender em nenhum momento”


Stefano Gonçalves Viana, de 48 anos, é empresário e dono do Point Dog Pet Shop, localizado no Bairro Sagrada Família, Região Leste de Belo Horizonte. O estabelecimento funciona há 23 anos e Stefano possui mais duas lojas.  

“Na principal eu tenho serviço agregado de parte veterinária e banho e tosa. As outras duas lojas, na mesma região, têm somente venda de produtos.”
 
Stefano Gonçalves Viana, dono do Point Dog Pet Shop(foto: Edesio Ferreira/EM/D.A Press)
Stefano Gonçalves Viana, dono do Point Dog Pet Shop (foto: Edesio Ferreira/EM/D.A Press)
 

Ele conta que teve crescimento no faturamento, durante mais de um ano da pandemia. “Não tivemos queda, não paramos em nenhum momento e tivemos um crescimento em torno de 10% a 20% do ano passado para este.”

Stefano acredita que o bom faturamento está relacionado ao fato das pessoas passarem mais tempo em casa. “As pessoas ficaram carentes e encontraram apoio nos animais. Quem passou a trabalhar em casa e tinha um cachorrinho, teve que dar uma atenção maior para o bichinho. Até na minha demanda de serviço, eu cresci mais de 20% de 2020 para este. Conseguimos ter crescimento em todos os três setores: serviço voltado para a parte veterinária, banho e tosa, além da venda de produtos.” 
 
Stefano Gonçalves Viana, dono do Point Dog Pet Shop(foto: Edesio Ferreira/EM/D.A Press)
Stefano Gonçalves Viana, dono do Point Dog Pet Shop (foto: Edesio Ferreira/EM/D.A Press)
 

Outro fator, segundo ele, “as parcerias consolidadas com nossos fornecedores fazem diferença para a melhora e o crescimento significativo. É um momento em que devemos ter mais atenção ao negócio, formatar melhor as parcerias com fornecedores, melhorar o relacionamento com a equipe de trabalho, para poder extrair dela o máximo possível de produtividade. A logística, o acesso (mais facilitado) do cliente à loja, ter uma maior variedade de produtos. É um conjunto de fatores.” 

Ele acrescenta que não fechou as lojas nenhum dia, em função da pandemia. “Em alguns momentos, de acordo com o decreto, restringimos o acesso do cliente dentro da loja. Mas, não paramos de atender em nenhum momento. No período mais crítico do ano passado, quando o decreto estava mais severo, a gente determinou o espaço para a pessoa ter acesso à loja. Como não é um negócio que cria aglomeração, hoje o cliente entra na loja, tem três pontos diferentes com álcool em gel e marcações no chão para quando ele precisa ficar aguardando. Dentro do consultório e da sala de espera só é permitida uma única pessoa.”

O empresário acredita que as medidas foram eficientes, já que nenhum dos 20 funcionários teve coronavírus

“No começo foi um pouco complicado, a gente não sabia o que podia funcionar ou não”


Já Bernardo Mourão Bernis, de 41 anos, médico veterinário e proprietário do Petcenter, localizado no Bairro São Pedro, Região Centro-Sul de Belo Horizonte, encontrou algumas dificuldades no início da pandemia. O estabelecimento funciona há 14 anos e apesar de também vender produtos, é especializado em serviços veterinários, banho e tosa e hospedagem.    

“No começo foi um pouco complicado, a gente não sabia ao certo o que podia funcionar ou não. Foi um período muito incerto. Logo que aconteceu o primeiro fechamento da cidade, eu tive que dar férias para os funcionários e ficamos só os veterinários para fazer os atendimentos, consultas, emergências. Todos os demais serviços ficaram suspensos, por quase um mês. Depois deste período fomos retomando”, explica.  
 
Bernardo Mourão Bernis, proprietário do Petcenter(foto: Marcos Vieira/EM/D.A Press)
Bernardo Mourão Bernis, proprietário do Petcenter (foto: Marcos Vieira/EM/D.A Press)
 

Bernardo conta que as pessoas tinham receio de levar o animal para tomar banho no pet shop. “Não tínhamos as informações que temos hoje.”

Segundo ele, o movimento se manteve e não houve prejuízo. No entanto, os serviços de hotel e creche sofreram baixa. “As pessoas não estão viajando. Tínhamos um volume bom em animais de hotel e creche. Muitas vezes, elas saiam para trabalhar e deixam o animal aqui, para passar o dia. Com as pessoas trabalhando em home office, esse serviço também, praticamente, foi a zero. Mas os demais serviços se mantiveram: banho, tosa, consulta, vacinas, exames, cirurgias.” 

E completa: “agora, mais de um ano depois, é que está começando a voltar a procura pelo hotel, por exemplo. Mas, ainda abaixo. Normalmente, no final do ano, a procura é muito boa. Temos muitos animais e esse último ano foi um volume bem baixo.” 

O médico veterinário relembra que, ano passado, ainda no início da pandemia, um fiscal da vigilância sanitária foi até o pet shop

“Não sei se ele já viria mesmo ou se veio por causa da pandemia. Mas, ele passou várias alterações. Até um cafezinho que colocávamos na recepção ele pediu para tirar, por risco de contaminação. Era comum as pessoas ficarem esperando o animal tomar banho, agora elas precisam deixá-lo e vir buscar depois ou o motorista levar.”

Dentro do consultório apenas uma pessoa pode acompanhar o animal durante o atendimento. “Mas, não foram mudanças que impactaram na nossa rotina. Normalmente, a gente já trabalha com consultas agendadas para dar um intervalo entre um cliente e outro.” Já a rotina de banhos ficou mais frequente. “Pessoas que às vezes traziam o cachorro para tomar banho com intervalos de tempo maiores, como estão ficando o dia inteiro em casa, passaram a trazer com mais frequência.”

*Estagiária sob supervisão do subeditor João Renato Faria


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