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Estado de Minas EM CRISE

Um ano de pandemia: setor de bares e restaurantes pede socorro

A intensa crise econômica traz prejuízos irreversíveis tanto para o setor quanto para quem trabalha na área


09/04/2021 17:33 - atualizado 09/04/2021 19:18

Bares e restaurantes de Minas Gerais tentam recuperar as perdas do último ano(foto: Gladyston Rodrigues/EM/D. A Press)
Bares e restaurantes de Minas Gerais tentam recuperar as perdas do último ano (foto: Gladyston Rodrigues/EM/D. A Press)
Há mais de um ano, o setor de bares e restaurantes foi obrigado a parar temporariamente com suas atividades, que até então eram responsáveis por movimentar boa parte da economia de Minas Gerais – conhecida como a terra dos botecos – e do Brasil. O vazio e o silêncio representam o atual cenário dos locais que viviam lotados de clientes e, agora, tentam se reerguer da crise financeira e dos impactos causados pela pandemia de COVID-19.

Antes da pandemia, o setor contava com 133 mil estabelecimentos e cerca de 800 mil postos de trabalho em Minas Gerais. Agora, 30 mil empresas decretaram falência e 250 mil trabalhadores perderam o emprego.

O avanço do novo coronavírus no estado e o decreto da onda roxa, a mais restritiva do programa Minas Consciente, que resultou em mais um fechamento do comércio, pode agravar ainda mais a situação.
 
Em Belo Horizonte, dos 12 mil estabelecimentos, 3.500 fecharam as portas, e 30 mil das 72 mil pessoas que trabalhavam no setor estão desempregadas.

No interior de Minas, a retomada desses empregos parece ocorrer em ritmo melhor do que na capital, em razão das restrições mais rígidas em BH, que vive incerteza maior em relação à retomada econômica.

O número de falências e desempregos na Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH) se mostra expressivo, visto que a capital mineira tem influência sobre cidades vizinhas em diversos aspectos.

Ao todo, a RMBH tinha 22 mil bares e restaurantes em funcionamento, o que gerava cerca de 135 mil empregos. Com a chegada da pandemia, 7 mil estabelecimentos não suportaram a crise e encerraram as ativididades, o que levou à demissão de 50 mil profissionais da área. 

Segundo o presidente do Sindbares/BH, Paulo Pedrosa, o setor teme um aumento ainda maior de desemprego e falências. Só nos três primeiros meses de 2021, 73% das empresas tiveram de dispensar pessoal.

“Uma situação extremamente delicada, uma crise jamais vista na história da categoria. Só em 2020, aproximadamente, contando gastronomia e hotelaria, tivemos 17 mil pessoas desempregadas e mais de 2 mil empresas encerraram as atividades, trocaram de ramo, deram baixa no CNPJ”, afirmou.

“Se a gente somar Belo Horizonte e as 34 cidades da Região Metropolitana, atingimos 3.500 empresas fechadas e as demissões passam de 20 mil”, completa.

Prejuízo irreparável

O abre e fecha do comércio, desde o início da pandemia, fragilizou a situação financeira dos bares e restaurantes, que tentam se recuperar dos prejuízos.

De acordo com Matheus Daniel, presidente da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes de Minas Gerais (Abrasel-MG), o rombo no ano passado foi enorme.

“O impacto que a gente sentiu no último ano, em termos financeiros, foi da ordem de R$ 2 bilhões na perda de receita em Belo Horizonte. O que significa hoje pra gente, que está fechado, cerca de R$ 15 milhões por dia de prejuízo, podendo vender só por delivery”, disse.

A queda no poder aquisitivo da população e a alta no preço da matéria-prima dos produtos também teve reflexos no caixa.

“Por exemplo, uma carne de porco, que você pagava R$ 7,90 o quilo, hoje você paga R$ 17,90, mais que o dobro. A soma de seis aumentos de gás, 17% de IGPM dos aluguéis, mais os aumentos dos insumos e a taxa de consumo... A conta não tem como fechar”, destaca Matheus Daniel. 

“O prejuízo é irreparável. O dinheiro que a gente perdeu não vai conseguir recuperar. Um dos nossos questionamentos com a prefeitura é a isenção dos impostos de 2020 e 2021, de IPTU dos restaurantes e bares, de todas essas taxas. Não justifica pagar por um serviço que não foi prestado. Cito como exemplo a licença de cadeiras e toldos. As empresas pagam isso para a prefeitura por metro quadrado. Pagaram e não utilizaram. A gente precisa voltar a abrir seguindo os protocolos. A Abrasel é a favor dos protocolos”, defende.
 
A situação de bares e restaurantes, fechados em razão da pandemia de COVID-19, é crítica(foto: Tomaz Silva/Agência Brasil)
A situação de bares e restaurantes, fechados em razão da pandemia de COVID-19, é crítica (foto: Tomaz Silva/Agência Brasil)

 
Paulo Pedrosa afirma que “a quebradeira vai ser total e muito maior que o previsto”, caso o prefeito Alexandre Kalil não atenda aos anseios da categoria.

“Vamos ter uma inadimplência superior a 50% de todo o comércio, de bares, de restaurantes, de hotéis e lojistas. Como que paga os impostos sem dinheiro? Poucas empresas têm uma reserva. O cenário está grave, a coisa está feia”, ressalta.
 
O presidente da Abrasel-MG diz que a falta de dinheiro em caixa impossibilitou o pagamento de salários em fevereiro e março deste ano. Segundo ele, 76% dos empresários enfrentam esse tipo de problema. 

Pesquisa da Abrasel, realizada com 453 empresários do setor em Minas Gerais, entre 1º e 5 de abril, revelou que 90% deles estão com dificuldades.

As dívidas acumuladas em 2020 precisam ser pagas e o setor se vê em uma situação crítica, sem ter como honrar débitos passados e atuais.

“Com o fechamento da maior parte do Brasil, a faixa dos estabelecimentos que faturavam acima de R$ 140 mil/mês caiu de 19% em março de 2020 para apenas 6% em março deste ano. Isso mostra uma queda brutal no faturamento, atualmente sustentado apenas pelo delivery na maior parte do país”, comenta Matheus Daniel.

Delivery é a saída


Luciene Zucherato é gerente do Vila Cintra Gastrobar, no Bairro Cidade Nova, Região Nordeste de Belo Horizonte. Ela conta que no dia da inauguração, em março do ano passado, ocorreu o primeiro fechamento do comércio por causa da COVID-19.

“Está sendo muito penoso pra gente. Temos estoques, funcionários. No dia que a gente ia inaugurar, fechou. Ficamos quase seis meses parados. Pra conseguir recuperar o prejuízo vai demorar. Ainda mais que fizemos um investimento pra inauguração no ano passado”, diz a gerente.
 
A válvula de escape foi o delivery. “Apostamos no delivery. Depois dos seis meses parados, partimos para o delivery. Estamos batalhando nas entregas. Tem dia que está bom, tem dia que está ruim, depende muito. A gente vai ganhando a clientela, eles (clientes) gostam muito dos pratos, graças a Deus”.
 
Luciene Zucherato é gerente do Vila Cintra Gastrobar, em Belo Horizonte, e o delivery foi a maneira encontrada para sobreviver(foto: Gladyston Rodrigues/EM/D. A Press)
Luciene Zucherato é gerente do Vila Cintra Gastrobar, em Belo Horizonte, e o delivery foi a maneira encontrada para sobreviver (foto: Gladyston Rodrigues/EM/D. A Press)



A gerente relata sobre as demissões e as mudanças nos quadros de horários dos funcionários: "Fizemos um banco de horas para poder aliviar. Demos folga, dobramos quando reabriu. Não podíamos deixá-los na mão também. Mas demitimos, tivemos que reduzir os funcionários. Estamos trabalhando com a escala mínima".

Antes da pandemia, o Vila Cintra Gastrobar contava com 12 funcionários. Agora, são quatro na ativa. “A gente até está chamando mais freelancers. Não temos mais garçons, porque não tem ninguém para atender”. 

“Em 30 anos eu nunca imaginei passar por uma situação dessa. Parece não ter saída”


A frase acima é de Geraldo Linhares Proença, de 65 anos. Ele é dono de um bar há mais de 30 anos, no Bairro Serra Verde, na Região de Venda Nova. O local, que é conhecido pelas porções e caldos, tem tido dificuldades para manter as portas abertas.

“Sem dinheiro como que faz? É complicado porque a gente batalha a vida toda pra passar dificuldade tanto tempo depois. Eu só não fechei o bar porque ainda tenho esperança de levantá-lo. Ele está caído, mas vai levantar”, disse.

Geraldo ainda teve de se afastar do trabalho por fazer parte do grupo de risco. Foi o filho que “segurou as pontas”, mas os esforços não trazem efeitos positivos.

“Parei de ir frequentemente por causa da pandemia e a minha esposa e meus filhos também não deixavam. Só que foi complicando. Em 30 anos eu nunca imaginei passar por uma situação dessa. Parece não ter saída”, lamenta.

O número de funcionários reduziu e o delivery é a única forma de o bar continuar vendendo. “Demitimos porque não tinha jeito de continuar pagando. Agora, temos um motoboy que faz as entregas. Só que depender apenas de delivery não dá. É pouco demais”.

Clamor por apoio


A Abrasel-MG tem implantado ações para auxiliar as empresas que estão no aperto.

“A gente procura a todo tempo dar as orientações pra trazer com clareza o que estamos fazendo. Estamos buscando parcerias de vários modelos, de várias empresas para poder oferecer desconto para os associados”, explica o presidente Matheus Daniel.

Recentemente, uma parceria da entidade com a Rappi, aplicativo de entregas, foi firmada. “A pessoa está vendendo só por delivery, a taxa está alta, então vamos correr atrás de um benefício”, diz.

Matheus afirma que está sendo estudado com o Estado e o Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais (BDMG), ações para linhas de crédito.

“Estamos conversando com o governo estadual e com o BDMG também para ter uma linha de crédito especial para o pequeno empresário e não só para os donos de bares e restaurantes”, ressalta.

“Com o abre e fecha, muitos empresários não conseguiram trabalhar e aí ficaram negativados. A proposta que fiz para o Zema (Romeu, governador), para oferecer pelo BDMG, é a seguinte: quando você vai fazer um empréstimo, eles sempre fazem uma avaliação, tipo posso te emprestar R$ 100 mil. Se a pessoa deve R$ 10 mil, empresta os R$ 10 mil e ela vai quitar a dívida e limpar o nome. Depois disso, empresta os outros R$ 90 mil. Assim, você realmente estará ajudando um comerciante a se reeguer”, detalha Matheus.
 
Já o presidente nacional da Abrasel, Paulo Solmucci, diz que “está há mais de dois meses à espera de uma nova MP dos salários, que permita a suspensão de contratos ou a redução de jornada, com a contrapartida do benefício emergencial.

"Em janeiro, já alertamos o governo federal de que a situação ficaria crítica. Sem isso, mesmo caminhando para a reabertura, muitos estabelecimentos não irão aguentar. As ajudas em alguns estados e municípios foram bem-vindas, mas insuficientes”, relata.

A demora na prorrogação do prazo de carência do Programa Nacional de Apoio às Microempresas e Empresas de Pequeno Porte (Pronampe), a principal linha de crédito para micro e pequenas empresas, piora ainda mais o cenário.

A prorrogação por três meses já foi aprovada pelo governo federal, no entanto, os bancos têm autonomia para aderir ou não à decisão.

Uma das maiores críticas dos empresários é que a Caixa Econômica Federal, instituição financeira ligada ao governo e a que mais libera concessões de empréstimo pelo Pronampe(responsável por cerca de 41,5% do valor total emitido), ainda não efetuou as prorrogações.

“O empresário se sente vítima de uma enorme jibóia: cada vez que tenta respirar, o aperto vem mais forte e o fôlego diminui. A onda de fechamentos em fevereiro e março agravou demais uma situação já muito difícil. Além da queda no faturamento, que dificulta o pagamento de compromissos, a carência dos empréstimos feitos em 2020 começa a vencer, e os bancos não têm piedade, ignoram até mesmo a determinação do governo em postergar por três meses a cobrança”, afirma Solmucci.

Dos estabelecimentos que solicitaram empréstimo pelo Pronampe, 80% declaram não ter prorrogado o vencimento das parcelas – 55% deles alegam ter recebido a negativa do banco, por estarem fora dos requisitos do decreto de prorrogação ou pelos próprios requisitos do banco, apesar da determinação do governo federal. 

“É muito urgente resolver a questão do crédito. Fomos impedidos de trabalhar, portanto, o mínimo esperado é a prorrogação da carência e que se destravem novas linhas. Nosso levantamento aponta que 77% dos empresários pretendem contratar novo empréstimo do Pronampe, caso o programa seja reaberto”, conclui Paulo Solmucci.
 
*Estagiário sob supervisão da subeditora Kelen Cristina 


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