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Estado de Minas COMIDA CARA

Contra a corrida dos preços dos alimentos, PF luta para manter tradição

Com a disparada dos preços do arroz, carnes e óleo, restaurantes antigos de BH tentam conservar a típica refeição, evitando estoques, substituindo proteína


12/09/2020 06:00 - atualizado 25/09/2020 08:26

Anderson Fernandes, dono da Cantina Sorisso(foto: Gladyston Rodrigues/EM/D.A Press)
Anderson Fernandes, dono da Cantina Sorisso (foto: Gladyston Rodrigues/EM/D.A Press)
Quem diria que o arroz, esse coringa dos pratos feitos – outrora servido com fartura para encobrir a pouca quantidade de ingredientes mais nobres, como o bife –, se tornaria pivô do prejuízo de restaurantes de Belo Horizonte. Pois é o que vem ocorrendo nos estabelecimentos da capital desde que o preço do produto disparou. O pacote de 5 quilos é vendido por até R$ 30 em supermercados da cidade, segundo levantamento divulgado na segunda-feira pelo site de pesquisa de preços Mercado Mineiro.

O arroz encareceu 19,25%, em média, no país, de janeiro a agosto, e 22,96% na Grande BH, com base no Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), medido pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Outra instituição que acompanha a inflação, a Fundação Ipead, vinculada à UFMG, apurou alta de 23,10% do produto tipo 1 na capital no período de oito meses.

Empresários do setor de bares de restaurantes, sobretudo os que servem refeições populares, contam que os aumentos dos preços do arroz e outros produtos que compõem o prato, como o óleo de soja, os deixaram “encurralados”. Eles não podem   deixar de servir o ingrediente que é básico na maioria dos pratos de seus cardápios. Tampouco é possível repassar os reajustes ao consumidor, que, com o bolso fragilizado pela pandemia de COVID-19, vive num situação de sufoco financeiro.

O jeito é tentar driblar as altas e absorver o prejuízo para, ao menos, manter a freguesia, na expectativa de dias melhores que não se sabe quando virão. As medidas adotadas pelos comerciantes incluem a compra de ingredientes em menor intervalo de tempo, evitando formar estoques e, com isso, ter perda futura de produtos. Há empresas que também reduziram de forma drástica as encomendas de ingredientes, passaram a usar carnes mais baratas, como o frango, e quem esteja pensando em criar um PF sem arroz. Consumidores ouvidos pelo Estado de Minas dizem que os PFs estão menos fartos e as promoções sumiram.

“Voltamos a trabalhar para não quebrar”, afirma Daniel Almeida, dono do restaurante Mineirinho II, instalado há 38 anos no Centro da cidade. Após cinco meses de portas fechadas, ele diz que reabriu o negócio em 24 de agosto acreditando que começaria a se recuperar da crise. “Achei errado. Dei de cara com a alta do arroz!”, brinca o comerciante.

No Mineirinho II, os preços do prato feito permanecem os mesmos de dois anos atrás, segundo o proprietário do estabelecimento, de R$ 11,50 para a versão pequena,  e R$ 14, a grande. Ambos incluem arroz, feijão, fritas e uma proteína – porco, boi ou frango. O que mudou, afirma Daniel Almeida, foi a rotina da compra de insumos. “Eu gasto em torno de 25 quilos de arroz por dia. Costumava comprar quantidade suficiente para pouco mais de um mês, cerca de cem fardos com 150 quilos cada. Agora, faço compras semanais, de 20 fardos. Até essa inflação passar, vai ser assim. Não está valendo a pena estocar”, avalia o empreendedor.

O mesmo método tem sido aplicado às compras de óleo de soja, que encareceu 9,48% no Brasil e 11,56% na Região Metropolitanade BH. Segundo Daniel, em lugar de 80 caixas mensais, ele passou a comprar cinco, suficientes para a semana. “Meu lucro, atualmente, é zero. O dinheiro que entra dá para pagar os funcionários e manter a casa aberta. Ainda mais que o movimento está fraco, cerca de 40% em relação ao período anterior à pandemia”, queixa-se.

Na Cantina do Sorriso, situada no Bairro São Lucas, Região Leste de BH, o proprietário Anderson Fernandes adotou estratégia semelhante à de Daniel, inclusive para a compra de carnes. “Reduzi as encomendas em 80%. Vai ser assim até essa onda passar. Estou no ramo há 11 anos, nunca vi aumento exorbitante assim. Isso é máfia, pressão para inflacionar. Mas esse pessoal vai quebrar a cara, porque, em casa, as pessoas estão fazendo substituições. Essa festa não dura muito tempo”, avalia Fernandes.

As opções do menu custam entre R$ 19,90 e R$ 27,90. O carro-chefe é o PF Vó Eponina, composto de arroz, feijão, salada e carne de porco, frango ou fígado. O comerciante diz que planeja criar um prato com preço mais acessível – talvez, sem arroz. “Ainda não sei como será. Ainda estou pensando”.

No Bar e Restaurante D'Lucas, que também fica na Região Leste da capital, no Bairro Santa Efigênia, a alta do arroz tem sido compensada com a oferta de PFs guarnecidos com proteínas de preços mais baixos, como o frango. Vendido a R$ 13, o prato leva arroz, feijão macarrão, salada e uma carne – suína ou bovina. Se o cliente optar por esta última versão, paga R$ 15. “Meus ingredientes aqui têm sido comprados para o dia. Corro ali no supermercado, e compro dois pacotes de arroz, poucas latas de óleo, tudo suficiente para preparar um almoço. Se as coisas continuarem como estão, não vamos aguentar”, reclama o dono Maurício Resende.


''Estou no ramo há 11 anos, nunca vi aumento exorbitante assim''

Anderson Fernandes, dono da Cantina Sorisso


Racionando

Nenhum dos empresários admitiu ter baixado a qualidade da comida para baixar custos. Alguns clientes, no entanto, têm notado diferenças no prato. A auxiliar administrativo Poliane Ferrari diz que a quantidade de arroz e feijão servidos no estabelecimento que ela costuma frequentar foi reduzida. “A cumbuquinha de feijão, da última vez, veio mais vazia. O arroz ocupa menos espaço na travessa. Notei também que a carne está mais dura, como se fosse de segunda”, afirma a moça.

O eletricista João Oliveira observou que as promoções desapareceram. “Antes, era comum a gente ver opções de prato com bebida. Mesmo que fosse um suco de pacote. Agora, não, se a gente quiser beber alguma coisa, tem que pagar à parte. Ou, então, resta come a comida seca mesmo. Fazer o quê?”, conforma-se.

''Agora, faço compras semanais. Até essa inflação passar, vai ser assim''

Daniel Carlos, dono do Restaurante Mineirinho II



E os preços?

Não há tendência de queda importante dos preços, alerta a coordenadora de pesquisa e desenvolvimento da Fundação Ipead, Thaize Martins. “Diante do novo cenário que estamos vivendo com a pandemia da COVID-19, aumento na exportação dos nossos produtos, valorização do dólar, demanda interna maior, condições climáticas adversas nas regiões produtoras e períodos de entressafra, não existe expectativa de queda acentuada nos preços para o curto prazo”, afirma.

Daniel Carlos, dono do Restaurante Mineirinho II(foto: Gladyston Rodrigues/EM/D.A Press)
Daniel Carlos, dono do Restaurante Mineirinho II (foto: Gladyston Rodrigues/EM/D.A Press)



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