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Estado de Minas

Glamour e decadência se encontram na despedida do Othon Palace Hotel

Com passado de construção imponente e que marcou época na arquitetura e nos meios político e cultural de BH, hotel fecha as portas. O EM acompanhou as suas últimas horas


postado em 19/11/2018 08:59 / atualizado em 19/11/2018 09:26

Na recepção vazia do Hotel, os relógios são registro de um tempo de glamour na capital mineira(foto: Alexandre Guzanshe/EM/D.A Press)
Na recepção vazia do Hotel, os relógios são registro de um tempo de glamour na capital mineira (foto: Alexandre Guzanshe/EM/D.A Press)

“O Othon é um clássico!”, comenta a moça na fila do check-in do icônico hotel, erguido há quatro décadas na Avenida Afonso Pena, e que fechou suas portas ontem. Dita na sexta-feira ao rapaz que acompanhava a hóspede, a frase expressa o tom de surpresa que dominou as conversas sobre o Belo Horizonte Othon Palace Hotel nos últimos 30 dias, desde que a rede carioca anunciou o fim de suas atividades em Belo Horizonte.

A empresa não informou o motivo do fechamento, o que, em parte, justifica o espanto com que hóspedes e funcionários encararam a notícia, no momento em que a empresa completa 40 anos de atuação. Os números apresentados pelos últimos demonstrativos financeiros da rede, que é de capital aberto, vão na contramão dos atributos de atemporalidade que caracterizam a capacidade de sobrevivência dos empreendimentos clássicos.

Corredores deixam lembranças de 273 quartos em 29 andares de um prédio imponente(foto: Alexandre Guzanshe/EM/D.A Press)
Corredores deixam lembranças de 273 quartos em 29 andares de um prédio imponente (foto: Alexandre Guzanshe/EM/D.A Press)

Somente no ano passado, o prejuízo acumulado pela rede Othon foi de R$ 40 milhões. O passivo total – sobretudo em tributos – já soma R$ 527,1 milhões. Some-se a isso as sucessivas crises enfrentadas pelo setor hoteleiro de BH, que, segundo informa a Associação Brasileira da Indústria de Hotéis (ABIH), fechou outros 26 hotéis desde 2014.

A ABIH estima ainda que o “check-out” do Othon Palace deixa outros prejuízos a serem compartilhados com o munícipio: 170 funcionários demitidos, menos R$ 1,2 milhão em recolhimento de tributos, além do impacto provocado em mais de 64 áreas da economia fomentadas pela hotelaria. A reportagem do Estado de Minas acompanhou as últimas e derradeiras horas de vida do tradicional hotel. Os repórteres Cecília Emiliana e Alexandre Guzanshe se hospedaram num dos 273 apartamentos do prédio que fez história na capital mineira. Os últimos capítulos são certamente mais prosaicos, divertidos e complexos que muita gente imagina.

Sem perder a classe, o restaurante instalado no 3º andar serviu o penúltimo café da manhã(foto: Alexandre Guzanshe/EM/D.A Press)
Sem perder a classe, o restaurante instalado no 3º andar serviu o penúltimo café da manhã (foto: Alexandre Guzanshe/EM/D.A Press)

A narrativa glamourosa com que o hotel se instalou na cidade foi a escolhida pelo público na despedida do gigante charmoso da Afonso Pena, mas houve também momentos de tristeza, uma certa melancolia na despedida. O clima da recepção do hotel na tarde de sexta já mostrava um quê de “último baile”.

Alheio à impiedosa crise indicada pelas planilhas financeiras da empresa, e até mesmo à progressiva decadência experimentada pelo Othon desde meados de 1996, quando a chegada do Ouro Minas Palace Hotel começou a apagar o brilho das cinco estrelas do Othon, o público se despediu ainda curtindo a vista majestosa da cidade pelos janelões e varandas. Houve até casamento na despedida.

Última refeição


A derradeira edição da tradicional feijoada servida aos sábados no buffet do restaurante Varandão, instalado no 25º andar, teve clima de nostalgia. Entre os clientes do dia, estava um grupo especial para a história do quarentão, formado por 35 profissionais da hotelaria, incluindo donos de hotéis e ex-empregados do Othon Palace, que se despediram da antiga casa.

Na penumbra, o Varandão do 25º andar faz recordar o fim de encontros entre ilustres presenças(foto: Alexandre Guzanshe/EM/D.A Press)
Na penumbra, o Varandão do 25º andar faz recordar o fim de encontros entre ilustres presenças (foto: Alexandre Guzanshe/EM/D.A Press)

Javier Chabot, gerente nacional da rede Vert hotéis, define a rede Othon como a empresa em que aprendeu a trabalhar. Ele foi gerente do Belo Horizonte Othon Palace por 12 anos e, no sábado, levou a mulher – a quem foi apresentado no estabelecimento – e as filhas para a feijoada de despedida. “Fico pensando como os funcionários vão reagir nesta segunda-feira, quando se derem conta de que não têm mais de acordar para trabalhar no Othon”, lamenta.

O momento mais triste do adeus ao prédio, sem dúvida, foi durante a última refeição de ontem, quando uma fornecedora da rede aproveitou o momento para agradecer publicamente aos funcionários do Othon, – que estavam trabalhando pela última vez. Alguns garçons e cozinheiros choraram. Márcio Alves, gerente-geral da hospedaria, que começou a trabalhar no Othon há 37 anos como caixa de restaurante, estava visivelmente emocionado, mas segurou as lágrimas. O hotel, para quem não sabe, é também a casa de todas as pessoas que ocupam esse cargo.

Varandas que fizeram história


(foto: Alexandre Guzanshe/EM/D.A Press)
(foto: Alexandre Guzanshe/EM/D.A Press)
Quem nunca se hospedou no Othon, mas já subiu ao 25º andar para tomar café, almoçar ou jantar no restaurante Varandão sabe que, há mais de um ano, o cardápio se limita a oferecer buffet self-service trivial. Mais que a gastronomia, a visita valia para ver a cidade de um ponto privilegiado. A culinária sofisticada que já serviu personalidades ilustres, como os ex-presidentes João Baptista Figueiredo e Tancredo Neves, além de celebridades de paladar exigente como o cantor Roberto Carlos, permaneceu enterrada no passado.

A reportagem do EM tentou recuperar da memória do hotel algum gosto dos tempos antigos num papo com o chef Manuel Pinheiro, que há mais de 36 anos comanda a cozinha do hotel. Sem sucesso. A gerência geral proibiu o staff de dar informações sobre qualquer assunto envolvendo o Othon não só a jornalistas, como a qualquer pessoa.

A roupa de cama não é macia, mesmo nos quartos de categoria mais luxuosa. O frigobar tem menos itens que os de alguns hotéis simples do entorno do Hipercentro de BH. Isso não quer dizer que a diária de R$ 300 cobrada na recepção seja um desperdício. Ao menos uma vez na vida, valeria pagar para usufruir daquelas suítes de espaço impressionante, de 30 metros quadrados, em média (hoje, metade disso), e ricamente decoradas em estilo art déco – incluindo lindos biombos feitos em metal e madeira robusta.

No quarto em que se aprontou para o casamento, a noiva Lígia Alves (C) curtiu tempos de glamour(foto: Alexandre Guzanshe/EM/D.A Press)
No quarto em que se aprontou para o casamento, a noiva Lígia Alves (C) curtiu tempos de glamour (foto: Alexandre Guzanshe/EM/D.A Press)

A suíte presidencial, outrora palcos de decisões políticas que envolveram ex-presidentes, tornou-se, com o tempo, espaço reservado às núpcias e ensaios fotográficos de muitas noivas belo-horizontinas. Lígia Alves foi a última hóspede que escolheu o espaço e não foi de propósito. A reserva para ontem foi feita meses antes, e a coincidência com a data anunciada recentemente para o fechamento do hotel quase a fez desistir do negócio.

“Eu e minha mãe tememos que os funcionários aproveitassem o último dia de trabalho para nos tratar com desleixo ou de qualquer jeito. Mas não nos arrependemos de ter mantido a reserva”, confessou. A hospedagem de luxo custava até R$ 6 mil.

Café com desabafo

Faltou entusiasmo na despedida da piscina do 25º andar, que teve seus dias de verão e festas(foto: Alexandre Guzanshe/EM/D.A Press)
Faltou entusiasmo na despedida da piscina do 25º andar, que teve seus dias de verão e festas (foto: Alexandre Guzanshe/EM/D.A Press)

Cada vez que a reportagem do EM tentava conversar com os funcionários do hotel sobre a centena de demissões que se aproximavam, ouvia uma espécie de resposta padrão.

“O hotel está nos ajudando com a recolocação no mercado. Além disso, nossa passagem por aqui aumenta muito nossas chances de empregabilidade. O Othon é referência em treinamento para a hotelaria. Muitos funcionários já estão com vagas garantidas ao saírem daqui”. Dois colaboradores acabaram fazendo um desabafo no derradeiro café da manhã. “Dos 170 demitidos, cerca de 50 chegaram a ser absorvidos por outros hotéis. Muita gente está sem perspectiva. Eu, inclusive”, confessou um garçom. “‘Estamos com medo de receber as indenizações parceladas”, disse uma camareira.

Lembranças

Eustáquio Pereira, de 61 anos, começou a trabalhar no Belo Horizonte Othon Palace antes mesmo da inauguração do local, em 4 de outubro de 1978, que ocorreu com pompa, circunstância e a presença de convidados ilustres e políticos como Aureliano Chaves e Newton Cardoso. O capitão-porteiro do hotel foi contratado como mensageiro. “Eu cheguei um pouquinho antes da festa de apresentação do hotel à sociedade, na primeira leva de funcionários contratados”, conta Eustáquio.

Após 40 anos de serviços prestados, ele lamenta o encerramento das atividades do Othon. “É uma pena, mas segue a vida. Ainda tenho esperança de que outra empresa assuma e contrate de novo todo o pessoal. Eu quero continuar trabalhando, mas ainda não comecei a procurar emprego. Primeiro, vou descansar um pouco.”

A analista de Recursos Humanos Danielle Alves, que se hospedou numa das suítes mais caras do Othon, optou pela despedida com a vista majestosa da cidade proporcionada pelas janelas do 23º andar do prédio. “Sempre gostei muito do Othon e quis me despedir. Assim que soube do fechamento, fiz reserva.”

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