O custo do adiamento deliberado dos ajustes corretivos da economia para não comprometer a reeleição de Dilma Rousseff será dolorido, e não dá mais para o governo dissimular a realidade apenas no gogó. A taxa de desemprego nacional apurada pelo IBGE já está alta demais para a sociedade se deixar confundir por filminhos de marqueteiros. O fato é que jamais houve o pleno emprego alardeado pelo governo, embora a medida limitada do desemprego pesquisado em seis regiões metropolitanas (índice até então oficial e que o IBGE vai desativar na virada do ano) assim sugerisse, ao expor taxas bem abaixo de 5%.
Com alcance nacional, cobrindo 3.464 municípios, a nova pesquisa revela um país mais com cara de subdesenvolvido que de emergente do clube dos BRIC, ladeado pela China, a Índia e a Rússia. No primeiro trimestre, a ainda chamada PNAD Contínua – uma extensão da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios – indicou taxa de desemprego de 7,9% da força de trabalho, avançando sobre o nível de 6,5% do final de 2014. E não se culpem o ajuste fiscal e a mão pesada do ministro da Fazenda, Joaquim Levy, por tal desempenho. Isso vem lá de trás.
Tal pesquisa existe desde o primeiro trimestre de 2012, saindo do mesmo nível agora atingido, 7,9%, e nunca veio abaixo de 6,2%. Como comparação, a taxa similar nos EUA, origem da grande crise global, recuou, no mesmo período, de 8,3% para 5,5%. E 5,4% agora em abril.
Aqui, ela passou a subir. Mas, considerando a população assistida pelos programas de transferência de renda (que saltou de 36 milhões de pessoas em 2013 a 77 milhões em 2014, devendo perder ritmo com o maior rigor das regras de acesso aos benefícios, conforme o pacote de ajuste fiscal em tramitação no Congresso), o fato é que a noção do pleno emprego foi mais uma meia verdade estatística que um auto de fé a constatar o dinamism\o da economia nos últimos anos.
Apesar de tais indícios, o governo continuou se jactando do índice antigo de desemprego, que lhe foi mais favorável pelo menos até as eleições, para criar um contraponto com um mundo supostamente ainda em recessão. Mais grave é que ora era isso, levando o Banco Central a conter o crédito ao consumo, ora não era bem assim, como sugeriu a desoneração da contribuição patronal ao INSS, justificada como um incentivo à criação de empregos. Mentes confusas criam descaminhos.
Até Merkel se espantou
Os números feios que começam a aparecer refletem más decisões dos governos petistas, sobretudo depois de 2008, a aversão à agenda de reformas para alçar a produtividade dos gastos públicos, a falta de políticas para induzir o investimento privado e medidas equivocadas para reforçar o crescimento no primeiro mandato de Dilma Rousseff.
Hoje, com a exaustão das três principais alavancas operacionais do governo (o orçamento fiscal, o endividamento do Tesouro Nacional e o crédito subsidiado da banca estatal custeado por dívida pública) e o esgotamento da carga tributária, Dilma foi buscar um tesoureiro como Levy para desfazer o que ela e seus economistas haviam feito.
E fizeram com soberba, tanto que ela recomendou à chanceler Angela Merkel, em visita à Alemanha, que considerasse o seu modelo para a Europa sair da recessão. Merkel arregalou os olhos e ficou calada.
Gastos com poucos frutos
O ajuste fiscal seria animador e praticamente indolor se houvesse folga para acionar as torneiras do dinheiro fiscal, como havia em 2003, ou do crédito público turbinado pelo Tesouro, como se fez a partir de 2008. Tais excedentes reais e contábeis secaram. E sem gerar um multiplicador ao menos equivalente aos valores investidos.
O resultado é que o empresariado puxou o freio de mão ao perceber o caroço entalado no caixa do Tesouro e o consumidor começou ainda antes a cortar gastos devido ao peso de suas dívidas sobre a renda real corroída pelos juros e pela inflação corretiva. E há opções? Havia até o inicio de 2014. Agora, qualquer reversão seria pior.
Os não caminhos do PT
Na propaganda do PT, na semana passada, foi proposta a tributação de grandes fortunas e das heranças e o aumento da taxação de ganhos de capital. É difícil que isso vingasse, frente à carga tributária nominal de 36% do PIB, e efetiva de quase 48% - considerando-se os ônus quase fiscais do déficit nominal, que saltou de 3,3% do PIB em 2013 para 6,7% no ano passado, tendendo (no cenário do Bradesco) a 8,3% este ano e 8,4% em 2016, e as desonerações totais (mais 4%).
Como uma empresa cujos gastos estouram a geração de caixa e sob a suspeita de bancos e investidores, o governo fez o que lhe restava: apertar o cinto, função também de um Congresso solidário, promover tarifaços e trancar o cofre. Sem agenda de crescimento, contudo, o desemprego crescente e a renda cadente tenderão a fincar raízes.
