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Estado de Minas COMPORTAMENTO

Mais arte e menos 'alienação'

Especialistas destacam o ensino da prática de atividades artísticas como forma de diminuir a dependência de eletrônicos


04/04/2021 04:00 - atualizado 01/04/2021 14:17

(foto: Pixabay)
(foto: Pixabay)

De acordo com os dados da pesquisa TIC Kids Online Brasil 2019, 89% da população entre 9 e 17 anos é usuária de internet no Brasil, o que equivale a 24,3 milhões de crianças e adolescentes conectados. Em torno dessa realidade, uma série de preocupações surgem em pais, professores e especialistas comportamentais. Isso porque há riscos iminentes no uso errôneo ou excessivo das redes, conforme explica a pedagoga Mariana Cavaca, mestre em educação e pró-reitora de pesquisa e extensão da Estácio.

“É preocupante, pois, na internet, crianças e adolescentes podem acessar conteúdos violentos, ter contato com a pedofilia e com a construção de padrões estáticos que interferem na autoestima e, também, sofrer com questões relacionadas à saúde física e mental”, afirma. Fernanda Teles, psicóloga especialista em parentalidade positiva, concorda com a professora. Segundo ela, os danos do uso excessivo de telas na infância são catastróficos, a começar pelos primeiros anos de vida.
 
Isso porque a exposição de crianças muito pequenas às telas pode provocar atraso na linguagem, que é desenvolvida por meio da interação socioafetiva com outro ser humano. O raciocínio lógico também pode sofrer interferências nesse cenário. “Olhar para telas muito pequenas, caso a criança já tenha uma predisposição para doenças oculares, pode acelerar o aparecimento de estrabismo, por exemplo. Por aí já se percebe que o problema não está somente no conteúdo consumido, mas no excesso de luz e estímulos causados pelas telas.”

E tudo isso, claro, ainda interfere no aspecto emocional, já que, se o uso de telas é excessivo, diminui-se também a qualidade e quantidade das interações intrafamiliares, essenciais para o desenvolvimento da linguagem e do emocional, e a realização de outras atividades mais enriquecedoras – lição de casa, música, arte, leitura, entre outras. Além disso, nesses casos, descansa-se menos, causando perturbação no sono.

“Ainda, diminui-se o tempo de ócio e calmaria, promovendo uma superestimulação da atenção, levando a distúrbios de concentração, aprendizagem e impulsividade. Nesse cenário, o cérebro sofre uma subestimulação intelectual, impedindo-o de desenvolver todo o seu potencial. Hábitos saudáveis também acabam se perdendo nessa ‘alienação’, já que cada vez mais come-se mal, desenvolvendo obesidade e outros distúrbios alimentares, e passa-se a ignorar as atividades físicas, causando sedentarismo excessivo, que, além do desenvolvimento corporal, influencia na maturação cerebral”, aponta Fernanda Teles.

CONECTIVIDADE 


No entanto, apesar dos malefícios, crianças e adolescentes estão cada vez mais conectados. Na pandemia, inclusive, percebeu-se uma elevação na conectividade. É o que ressalta Mariana Cavaca. “O isolamento social e todas as consequências da pandemia têm deixado crianças e adolescentes (e inclusive adultos) mais agitados, ansiosos, agressivos e com menor tolerância, provocando distúrbios emocionais e psíquicos seríssimos.”

Nesse contexto, bem como nos demais, as tecnologias conectadas à rede são extremamente atraentes, porque oferecem um universo de acesso à informação e oportunidades de conexão. Além disso, os dispositivos tecnológicos proporcionam estímulos audiovisuais que prendem a atenção mais facilmente.

E, assim, cada vez mais os jovens se entregam à magia da internet ou são imersos em tal “universo”, haja vista que, conforme Fernanda Teles, os pais estão cada dia menos presentes emocionalmente. “Assim, fica muito mais cômodo entregar um tablet ou ligar a TV. É muito mais fácil do que sentar e brincar ou propor alternativas mais saudáveis. Educar de forma positiva e consciente dá muito mais trabalho, é fato.”
 
 
(foto: Sofia Costa/Divulgação)
(foto: Sofia Costa/Divulgação)
 
"Educar de forma positiva e consciente dá muito mais trabalho, é fato”

Fernanda Teles, psicóloga especialista em parentalidade positiva
 

ARTE 


Em meio a essa “alienação” virtual, os pais encontram um grande desafio: limitar o tempo de exposição às telas e a forma como a conexão é usada. Porém, Mariana Cavaca aponta que desenvolver atividades prazerosas com as crianças e adolescentes pode ajudar nessa tarefa. “O ideal é que fora da tela haja formas de lazer tão divertidas quanto o uso da internet, ou até mais.”

“Uma boa dica é envolver as crianças e jovens em tarefas que tenham outras pessoas ao som de músicas. Essa pode ser uma boa estratégia para driblar o sentimento de solidão e o uso em excesso das telas. Por exemplo, pode-se fazer receitas culinárias, reparos em casa, organizar os quartos, fazer atividades físicas, trabalhos manuais, jogos e brincadeiras, ou mesmo uma boa roda de conversa, e quem sabe regada a piadas”, indica.

E a arte não fica para trás no quesito aliado do bem-estar e da saúde nesse cenário. É o que aponta Carol Cunha, mestre em psicologia e professora da Casa dos Quadrinhos. “A arte é um processo que requer atividade e participação direta das crianças. É o lugar no qual elas podem expressar, de modo saudável, suas frustrações, estresses e conflitos, especialmente no atual momento da pandemia.”

“Construir algo por si próprio, como desenhar, pintar e escolher cores, criar um boneco de massinha, traz para a criança uma sensação de satisfação, completude e controle do ambiente. Esse tipo de sentimento de controle com um processo ativo como o estudo de artes é algo que proporciona segurança e senso de pertencimento às crianças, necessários no atual contexto. Ainda, a participação em atividades artísticas ensina as crianças a adquirir ferramentas que possibilitem a compreensão da experiência pessoal e do mundo ao redor, fazendo com que elas sintam menos necessidade de estar constantemente conectadas.”

E tudo isso vai muito além de apenas hobby, diversão ou aliado do gerenciamento de tempo de conexão. Isso porque, segundo Carol Cunha, a arte, proporciona progressos no desenvolvimento cognitivo, intelectual e emocional infantil, auxiliando no aperfeiçoamento das capacidades motoras e também no refinamento das habilidades visuais-espaciais.

“Ao criar, por exemplo, uma ilustração, as crianças precisam se organizar e planejar, fortalecendo suas capacidades de tomada de decisão e pensando criativamente, o que poderá ser aplicado também em outras áreas de suas vidas. O ensino das artes pode, além disso, ser uma fonte de interação prazerosa e divertida entre pais e filhos. Ao ver o desenvolvimento das crianças, elas podem estimulá-los a buscar novas referências e fontes de conhecimentos, podendo, inclusive, construir obras artísticas coletivamente”, afirma.

Por fim, Carol Cunha pontua que aprender a desenhar, pintar ou esculpir demanda tempo e prática, levando o aluno a lidar com a frustração, descobrindo, assim, a importância da perseverança e aumentando a autoconfiança do jovem ao perceber seu progresso artístico.

OPÇÃO SAUDÁVEL 


Desde os 10 anos de idade, Rodrigo Vieira Carvalho, atualmente com 12, se interessa por arte. O seu primeiro contato foi com o paint – ferramenta para desenho – do próprio computador. Um aliado na própria tecnologia. “Percebi que mesmo com recursos limitados, ele tinha uma produção muito boa. Então, resolvi incentivar e comprei uma mesa digitalizadora amadora para ele dar início ao que gostava de fazer”, conta a mãe do jovem, a psicóloga Zuleika Henriques Vieira, de 49.

“Acredito que o incentivo ao desenho e à produção artística traz para o adolescente uma opção saudável dentro dos diversos caminhos que a internet oferece para as crianças e adolescentes. Mesmo com pouco tempo de curso, já observo ganhos na técnica, no conhecimento de materiais disponíveis e a dedicação ao treino. As aulas desenvolvem as habilidades cognitivas, a autoestima, e trazem alívio da ansiedade nesse período tão difícil. É uma forma de expressão”, aponta a mãe de Rodrigo.

Segundo ela, é preciso que os pais entendam e mostrem aos seus filhos as vantagens das tecnologias e como usá-las de forma positiva. “Devemos ensiná-los a usar a internet a nosso favor, promovendo novos aprendizados e uma relação interpessoal saudável.”

*Estagiária sob supervisão da editora Teresa Caram


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