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Estado de Minas COLUNA

Conciliação dos opostos

'É na incompletude das coisas e das pessoas que podemos criar, reinventar, crescer e progredir'


06/12/2020 04:00 - atualizado 06/12/2020 07:58


 
"Sou professor universitário de filosofia, casado há 12 anos. Tive uma depressão dois anos atrás e tenho medo que ela volte. Minha mulher diz que vejo sempre o lado ruim das coisas. O que leva uma
pessoa ao pessimismo?"

João, de Belo Horizonte
 
O mundo não está e nunca estará pronto. E a cada questão respondida, sob qualquer aspecto, inúmeras outras se abrem. Tomemos, por exemplo, o transporte na nossa vida. Do lombo do cavalo ao avião, passando pela carroça, trem e automóvel, muitas e enormes melhorias foram alcançadas. Todas elas aumentando gradativamente o conforto, a rapidez, as possibilidades de ir mais longe. Apareceram outros problemas: maior número de acidentes, poluição do ar, gasto excessivo do petróleo etc.
 
A tecnologia e a ciência avançam, sem fim, dando respostas às nossas dificuldades e criando outras. Isso se repete em todas as dimensões da nossa existência. Por mais que nos incomode, sempre teremos problemas. Viver é resolver problemas emocionais, técnicos, financeiros, religiosos e de relacionamento. O mundo e o homem são incompletos, por natureza e isso significa, a um só tempo, desafios e possibilidades.
 
É na incompletude das coisas e das pessoas que podemos criar, reinventar, crescer e progredir. É, pois da essência da vida a mudança, a melhoria e a transformação. O pessimista pensa e deseja neuroticamente o contrário disso. Ele deseja um mundo perfeito, completo, terminado. Seu sofrimento é consequência da luta incessante contra a realidade. Ele quer organizar a vida que, por princípio, é relativa.
 
Toda ordem é uma organização temporária do caos. Toda harmonia se faz no gerenciamento e na conciliação dos opostos. Já dizia o filósofo Heráclito. Para nossa mente mecânica, linear e lógica é difícil perceber o material fazendo parte do espiritual, o erro fazendo parte do acerto, a loucura fazendo parte da sanidade. O pessimista vê tudo pelas metades, com o agravante de enxergar prioritariamente a banda podre da existência.
 
Diante de uma roseira florida ele se fixa no esterco que a rodeia e reclama do seu mau cheiro. Imaginem alguém que ficasse insatisfeito e reclamasse todas as vezes que visse as cores das coisas. O pessimista sofre e se queixa do erro, da queda, da doença, dos negativos. Essas coisas colorem o mundo, sobretudo, do verde. Verde esperança. A esperança é a melhoria “possível” do ruim. A luz é a possibilidade esperançosa das trevas. O pessimista não acredita nas pessoas. Não as vê em processo. Daí a sua desconfiança. A estrutura mental do pessimista, fruto de sua forma maniqueísta de ver o mundo, leva-o inevitavelmente à depressão e acomodação.
 
Depressão porque ele se culpa, se acusa, tem pena de si mesmo, ao se perceber feito de barro. Ele não se perdoa pelas suas fraquezas.
 
Eu “deveria”. Você “deveria”. O mundo “deveria”.
 
Acomodação porque na estupidez da sua lógica moralista nega o mundo que é, infelizmente e,  e não tem jeito de não ser do modo como é.
 
O mundo é mau, está cada vez pior, é muito violento e agora esta desgraça do coronavírus, rumina o pessimista.
 
E sua contribuição reduz-se ao queixume. Duas atitudes podem informar nossa atitude diante da realidade negativa: situar-se nas lamentações, no choro, na tristeza, na postura de vítima ou situar-se na resolução dos problemas, na construção da realidade, na participação ativa da melhoria contínua. As pessoas se dividem em dois blocos: Os que fazem e os que criticam. Os que agem e os que assistem a vida, sofrendo. Os que amam e lutam e os que invejam e sucumbem. A grande tentação, neste momento da pandemia, é entrarmos na neura da depressão e do pessimismo. Diante da escuridão, alguns choram e lamentam. Outros acendem uma vela. Precisamos acender muitas velas.
 
O pessimismo cria uma linha paralisante entre mim e as condições humanas. Nosso destino, ainda que não queiramos, é fazer do barro um vaso, da perda um ganho, da morte um existir intenso. Qualidade é divertir-se com o quebra-cabeça diário dos nossos problemas.
 
A vida não é pra ser analisada ou decifrada, é para ser vivida e transformada. A alquimia consiste em transformar o chumbo em ouro. Isso exige paciência e, sobretudo, humildade.
 
Vamos vencer o vírus, desde que cada um saia da postura de vítima e veja o que pode fazer para minimizar o problema: solidarizar-se, rezar e entrar de sola nas mudanças que precisamos fazer nos nossos hábitos de higiene e de juntidade.
 
O pessimismo é orgulhoso. Está acima da realidade. É juiz de tudo. Ele pensa a vida e vai-se enclausurando, perdendo contato com o diamante que se esconde atrás do cascalho. Para quem quer ser Deus, é horrível ser humano. Felizmente, em todo pessimista, existe escondida a sua verdadeira natureza de um ser amoroso, criativo, cheio de luz e energia. Apenas precisa de um “despertar” e de um empurrãozinho para sair da sua zona de conforto, para sair da sua casca ilusória e defensiva. Resta-lhe apenas descobrir que o entusiasmo vem do botar a mão na massa.
 
Que esse artigo nos ajude a sair do conforto mórbido dos que não querem ver. Uma rosa é uma rosa, mesmo que tenha espinhos. 

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