Games violentos como Grand Theft Auto 6 estão ficando realistas demais?
O lançamento de GTA 6 traz questionamentos sobre o uso de visuais hiper-realistas em cenas de violência nos videogames. E, paralelamente, o mercado de jogos relaxantes e com baixa definição visual está em crescimento, na contramão dos avanços da tecnologia.
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"Daqui a 10 anos, você terá a opção de fazer os videogames parecerem totalmente realistas e em live action!"
A previsão foi de Strauss Zelnick, CEO (diretor-executivo) da Take-Two Interactive, a poderosa fábrica de games responsável pela publicação de franquias massivas, como Grand Theft Auto e NBA 2K, durante uma apresentação em 2020.
Mas a arte do videogame atingiu este nível em menos da metade do tempo.
No ano passado, a aventura pós-apocalíptica Death Stranding 2 apresentou gráficos tão precisos que era possível ver cada folha de grama e se deliciar com a luz do sol realisticamente refletida nas rochas.
Em 2023, o surreal thriller sobrenatural Alan Wake 2 mostrou uma cidade ao lado de uma montanha. O portal Eurogamer descreveu as imagens como "revolucionárias", capazes de fazer você se sentir como se estivesse andando no cenário da série de TV Twin Peaks (1990-1991).
Mas a questão que se apresenta é se não estaríamos nos arriscando a criar uma forma de arte tão realista, a ponto de deixar de fornecer escapismo das tensões do mundo real e, com níveis cada vez mais profundos de imersão, começar a parecer mais um simulador de infortúnios.
O que esperar de GTA 6
A lista de lançamentos de 2026 está repleta de títulos de sucesso, projetados para diluir ainda mais as fracas linhas que ainda separam a estética do nosso mundo real do seu equivalente virtual.
Em novembro, após diversos atrasos, deverá finalmente ocorrer o lançamento do tão esperado Grand Theft Auto 6.
Alardeado pelos seus desenvolvedores britânicos (a Rockstar, subordinada à Take-Two Interactive) como "o maior lançamento de game da história", GTA 6 conta com orçamento de mais de US$ 1 bilhão (cerca de R$ 5,4 bilhões).
O game permitirá aos jogadores visitar o Estado americano fictício de Leonida, que promete ser uma reprodução 4K assombrosamente precisa da Flórida da vida real.
Controlando uma dupla de protagonistas que relembram Bonnie e Clyde (Lucia e Jason), os jogadores, como nas versões anteriores, poderão roubar, matar e acelerar nesta nova experiência imersiva.
A julgar pelas imagens dos trailers, a expectativa é que os gráficos de GTA 6 irão forçar até o limite o poder de processamento da atual geração de consoles, incluindo o PlayStation 5 e o Xbox Série X.
Entre outras novidades, a Rockstar teria contratado uma equipe separada de 20 engenheiros, especificamente para fazer com que a física da água se parecesse exatamente com as ondas de verdade.
E os fãs ansiosos já descobriram complexos detalhes escondidos no cenário dos trailers, como guaxinins se alimentando em latas de lixo e tubarões nadando em alto-mar.
"Você pode argumentar que cada elemento de um novo jogo GTA avança para se tornar mais realista que o último", segundo o ex-designer da Rockstar, Ben Hinchcliffe, em entrevista recente.
"E o realismo do GTA 6 irá surpreender as pessoas."
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Além de GTA 6, também está previsto para 2026 o lançamento de Unrecord, um jogo de atirador em primeira pessoa, programado para ostentar visuais "fotorrealistas".
Nele, você irá controlar um policial investigando crimes em meio a edifícios de concreto cinza brutalistas e intimidadores.
O fascinante é que, em 2023, o principal desenvolvedor deste jogo precisou ir às redes sociais para esclarecer que os vídeos de amostra que viralizaram na época realmente eram gráficos do jogo, não filmagens vazadas da câmara corporal de algum policial de verdade.
Paralelamente, o jogo de corridas Forza Horizon 6 empregará ray tracing (traçado de raios) em tempo real. Esta técnica de renderização pode simular raios de forma realista, criando efeitos de luz e sombra de alta fidelidade.
Com isso, ao dirigir por Tóquio iluminada por luzes de neon, será mais difícil distinguir o jogo da vida real.
Mas, agora que a tecnologia gráfica está chegando cada vez mais perto do que observamos pela nossa janela, o argumento de que os videogames estão ficando realistas demais e perdendo seu apelo como fantasia marca cada vez mais presença em plataformas como o Reddit e o X (antigo Twitter).
Surge, então, um debate inflamado, frequentemente levantado pelos políticos, se a violência dos games pode estar relacionada ao aumento das agressões entre os jogadores e até a atos de violência reais.
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Não há evidências conclusivas a este respeito, mas, à medida que os jogos violentos ficam cada vez mais realistas, esta discussão provavelmente irá se intensificar.
Até que ponto estes games são 'reais'
Para a professora de gaming Tanya Krzywinska, da Universidade Brunel, no Reino Unido, esta é uma questão delicada.
"Os videogames podem ser capazes de criar a ilusão visual de realidade, mas ainda existem inúmeros detalhes que indicam que eles são games", explica ela.
Krzywinska destaca que, apesar de toda a sua autenticidade visual, GTA 6 também será conscientemente irreal no uso da física para dirigir carros de forma engraçada como em um desenho animado. Sua narrativa também deverá ser exagerada, provavelmente satirizando o consumismo e a crescente cultura de armas dos Estados Unidos.
"Só porque um jogo parece 'realista', isso não significa que ele é vivenciado como realidade", explica ela.
"O videogame é uma experiência holística, que envolve gráficos, o controle do jogador, animações, sons, design lúdico e espacial. É a mistura de todos estes fatores, de forma integrada e atraente, que, eu acho, atrai o interesse do jogador, não apenas os gráficos."
Mas a professora Tracy Fullerton, diretora do Laboratório de Inovação de Jogos da Escola de Artes Cinemáticas da Universidade do Sul da Califórnia, nos Estados Unidos, destaca que também é fácil compreender por que alguns gamers podem se impressionar com os recentes saltos gráficos dos jogos que contam com grandes orçamentos.
"Às vezes, quero jogar com personagens que se parecem muito com os astros do esporte da vida real. Não há uma certa mágica nisso?"
"Mas os jogos de sucesso também criaram um ciclo de expectativas cada vez maiores entre os jogadores, em relação à tecnologia gráfica, que é muito diferente e tem um preço muito superior", explica ela.
"Às vezes, esse aumento dos visuais realmente parece magia. Às vezes, parece desnecessário, possivelmente até excessivo."
O palestino Rasheed Abudeideh é o desenvolvedor do jogo independente Dreams on a Pillow, a ser lançado em breve.
Sua preocupação é que jogos como GTA 6 criem uma situação em que sua violência passe a ser desconfortável, próxima dos atos de terrorismo, guerra e assassinatos da vida real.
"Acho que já vivemos em um mundo caótico e muito sombrio", explica ele. "E, neste contexto, parece ainda mais perturbador desenvolver jogos que envolvam principalmente matanças realistas."
Abudeideh acredita que os jogos, "em última análise, deveriam divertir, atrair os jogadores e mantê-los em 'estado de fluxo'", uma imersão meditativa que, segundo ele, "pode ser atingida com tecnologia muito simples, até básica".
"O que realmente faz a diferença é a criatividade no design dos jogos, não a fidelidade visual. O realismo pode ser uma ferramenta poderosa para aumentar a imersão, mas não é o objetivo em si."
De fato, nos últimos anos, houve sinais de que os jogadores vêm se preocupando menos com a fidelidade gráfica e mais com estilos de arte únicos, com baixa definição.
Estúdios de jogos de grande orçamento (incluindo a Electronic Arts) passaram por demissões em massa. Por isso, muitas vezes, eles enfrentaram dificuldades para concluir ou lançar seus jogos. O GTA 6, por exemplo, chega ao mercado 14 anos depois do GTA 5.
Por outro lado, os estúdios de jogos independentes progrediram, lançando games inovadores que não são definidos por gráficos realistas e se aproximam mais dos jogos 2D, da era dos 8 e 16 bits.
Para dar um exemplo, o console mais vendido dos anos 2020, de longe, é o Nintendo Switch.
Seus jogos apresentam uma vibração de contos de fadas e capacidades gráficas mais próximas do PlayStation 3 que do 5. Este é um sinal claro de que os gráficos realistas não são o mais importante para todos os jogadores.
Os títulos que se opõem à tendência
Um dos melhores jogos de 2025 é o game independente de terror e sobrevivência Eclipsium. Ele adota texturas de VHS com pouca definição e mostra um sombrio surrealismo, através de uma lente imperfeita.
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"Sempre acreditei que o propósito da mídia é comunicar um sentimento, não necessariamente criar uma réplica totalmente precisa de alguma coisa", declarou à BBC seu desenvolvedor, Emil Forsén, sobre seu ousado estilo visual.
"Atualmente, existe um renascimento dos jogos independentes", prossegue ele. "Acredito totalmente que o hiper-realismo não tem a mesma atração que costumava ter e que as pessoas que compram jogos pensando apenas nos gráficos são um grupo muito pequeno."
Francis Coulombe é o desenvolvedor do jogo independente Look Outside. Lançado em 2025, o game de terror parece uma produção do cineasta David Cronenberg (do filme A Mosca, 1986) para o antigo console Genesis da Sega, também conhecido como Mega Drive.
Para Coulombe, a produção de jogos hiper-realistas de sucesso, atualmente, é menos sustentável que no passado. Isso se deve à enorme pressão imposta sobre as equipes de desenvolvimento, para cumprir metas ambiciosas em jornadas de trabalho irreais.
"O realismo costuma ser um caminho caro e perigoso", segundo ele. "Ele coloca você em um enorme lago com os peixes grandes."
Especificamente sobre seu jogo, Coulombe prossegue:
"Gosto quando o terror tem um toque de absurdo, quando fica muito perto de ser engraçado, colorido e até bobo."
"Isso certamente ajuda a trazer uma certa sensação de pesadelo aos visuais de Look Outside. Seria muito mais difícil oferecer esta sensação com um estilo de arte mais realista."
Outro destaque da área de jogos em 2025 foi Tiny Bookshop, uma vibrante experiência desenhada à mão. Nele, você abre uma livraria no centro de uma cidade ensolarada no litoral, repleta de moradores excêntricos.
Desenvolvido pela Neoludic Games, Tiny Bookshop é um jogo do subgênero conhecido como "jogos aconchegantes", um mercado em crescimento que oferece aos jogadores uma alternativa mais suave e inspiradora do que atirar nos seus inimigos.
O diretor criativo da Neoludic Games, David Zapfe-Wildemann, afirma que "os gráficos realistas, por si só, deixaram de ser um argumento de venda importante para os jogadores. O que atrai é a experiência, a fantasia, a promessa do jogo".
Para ele, os gamers passaram a apreciar a sensação de Fernweh, uma palavra alemã que descreve o desejo de observar locais remotos. Ele atribui este fenômeno "àquela sensação causada pela pandemia de querer estar em um lugar onde o tempo parasse".
Para Francis Coulombe, o hiper-realismo pode acabar prejudicando a experiência dos jogos.
"Você pode acabar tendo games com aparência muito real, no sentido visual puramente cosmético, mas que precisam compensar isso com design de níveis restrito, para que os jogadores não fiquem perdidos ou sobrepujados."
"Muitos não conseguem fazer isso", prossegue ele. "No passado, quando os jogos 3D pareciam mais simples, grande parte do design de níveis parecia mais natural."
Sua teoria é que este fator seja uma das grandes causas do atual boom de jogos retrô. Consoles antigos continuam sendo vendidos em grandes quantidades, como o PlayStation 1 e o Nintendo 64, com a Geração Z buscando experiências nostálgicas da era analógica.
O pedigree da franquia pode fazer com que GTA 6 ofereça ótimos gráficos e boas experiências aos jogadores. Mas qual poderá ser o impacto dos seus visuais quase fotográficos?
O jogo certamente tem potencial de trazer algumas visões sinistras à internet, como streamers criando no TikTok vídeos de si mesmos cometendo atos brutais alegremente, como ocorreu com o GTA 5.
Mas os atos nefastos dos jogadores em Grand Theft Auto 6 também poderão trazer maior peso emocional e levá-los a reavaliar suas escolhas.
De fato, Coulombe prevê que GTA 6 será menos realista do que indicam os trailers.
"Se o desenvolvedor Rockstar ainda desejar que os jogadores tratem os games como caixas de treinamento divertidas para praticar o caos, o realismo levado ao extremo poderá fazer com que alguns jogadores tenham receio de fazer experiências naquele espaço", explica ele. "Por isso, espero que seu realismo seja mais seletivo."
Quer você prefira gráficos hiper-realistas ou rabiscos que parecem ter sido traçados no papel durante um surto de febre, Tracy Fullerton espera que o fascínio pelas experiências oferecidas pelos videogames continue a aumentar.
Para ela, felizmente, as pessoas impressionadas pelos personagens de jogos fotorrealistas, agora, têm muitas alternativas.
"Às vezes, os jogadores preferem games aconchegantes, às vezes o desafio de uma plataforma independente, às vezes um jogo radical de ação e aventura. Cada experiência precisa ser valorizada nos seus próprios padrões estéticos."
Leia a versão original desta reportagem (em inglês) no site BBC Culture.
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