Basta entregar um controle para alguém, pedir que imagine uma raquete nas mãos e observar o que acontece nos minutos seguintes. Em pouco tempo, a sala se transforma em uma quadra improvisada, com comemorações exageradas, provocações e reclamações a cada ponto perdido. Foi essa a sensação que tive ao experimentar "Nintendo Switch Sports Resort", novo jogo esportivo da Nintendo para o Switch 2.
O tênis é, disparado, uma das melhores experiências do pacote. A simplicidade impressiona. Não há uma sequência interminável de tutoriais ou combinações de botões para memorizar. O jogador precisa apenas movimentar o Joy-Con como se estivesse segurando uma raquete e acertar o tempo da rebatida. Em poucos segundos, até quem não costuma jogar videogame consegue participar de uma partida.
Leia Mais
A experiência também me fez lembrar de uma preocupação bastante conhecida entre os jogadores da época do Wii: os controles voando em direção à televisão durante uma partida mais empolgada. Desta vez, a preocupação foi outra. Antes de começar a jogatina com amigos e familiares, fiz questão de conferir se todos estavam usando as alcinhas de segurança. Não era exatamente pela televisão, mas pelo próprio Joy-Con. Os controles são leves, mas uma queda no chão pode sair cara. Vinte anos depois, o cuidado com os acessórios também mudou de endereço.
Depois de algumas partidas, a sala já estava tomada por comemorações, pulos e provocações entre os participantes. É uma experiência que não exige conhecimento prévio, não intimida quem está começando e encontra sua melhor versão quando compartilhada com outras pessoas.
Mas a chegada de "Nintendo Switch Sports Resort" também oferece uma oportunidade interessante para olhar para trás e entender como a própria Nintendo e o mercado de videogames mudaram nas últimas duas décadas.
Quando "Wii Sports" era a cara da Nintendo
Em 2006, falar de Nintendo Wii era falar de "Wii Sports". Antes de Mario, Zelda ou qualquer outra franquia tradicional da empresa japonesa, era o jogo de boliche, tênis e beisebol que vinha à cabeça de muita gente.
"Wii Sports" traduzia perfeitamente a proposta do console. Em vez de apostar apenas em gráficos mais elaborados ou controles tradicionais, a Nintendo apresentou uma maneira diferente de jogar. O Wii Remote permitia reproduzir movimentos do corpo na tela, aproximando os videogames de pessoas que até então não demonstravam interesse por esse tipo de entretenimento.
O resultado foi um fenômeno. O Wii vendeu mais de 101 milhões de unidades mundialmente, enquanto "Wii Sports" alcançou 82,79 milhões de cópias, segundo dados da própria Nintendo. É importante considerar que o jogo acompanhava o console em diversos mercados, mas isso também ajuda a explicar como os dois produtos se tornaram tão associados.
Em 2009, "Wii Sports Resort" ampliou a experiência com a Ilha Wuhu e novas modalidades esportivas. A franquia deixou de ser apenas uma demonstração dos controles por movimento e passou a oferecer uma experiência mais completa de entretenimento familiar.
A proposta atravessou gerações. O Wii U recebeu "Wii Sports Club", enquanto o primeiro Nintendo Switch ganhou "Nintendo Switch Sports", em 2022. Agora, com "Nintendo Switch Sports Resort", a Nintendo recupera a Ilha Wuhu e parte daquela identidade que marcou uma geração de jogadores.
Vinte anos depois, o mundo é outro
Existe, porém, uma diferença importante entre o lançamento do primeiro "Wii Sports" e a chegada do novo Resort. Em 2006, a proposta da Nintendo representava uma novidade para muita gente. Não era incomum encontrar famílias comprando um Wii para jogar boliche na sala de casa, inclusive pessoas mais velhas que nunca haviam demonstrado interesse pelo universo dos games.
Hoje, essa realidade mudou. O entretenimento casual está na palma da mão, com celulares oferecendo jogos gratuitos, redes sociais e diferentes formas de interação. A tecnologia também avançou, com experiências cada vez mais imersivas. Jogar tênis movimentando um controle já não provoca o mesmo encantamento de antigamente.
Isso não significa que o público casual tenha desaparecido. Ele continua existindo, mas encontra muito mais alternativas para se divertir sem precisar comprar um console. "Fortnite", por exemplo, é um dos diversos jogos gratuitos que ajudam a preencher esse espaço.
A própria Nintendo também mudou sua estratégia. O Wii U, lançado em 2012, não conseguiu repetir o sucesso comercial do antecessor e terminou sua trajetória com 13,56 milhões de unidades vendidas. A dificuldade de comunicar a proposta do console, o catálogo e a disputa por espaço no mercado contribuíram para o resultado.
Com o Switch, a empresa encontrou uma identidade diferente. A possibilidade de jogar na televisão ou levar o aparelho para qualquer lugar se tornou o principal diferencial da plataforma. O console passou a reunir desde jogadores tradicionais até famílias, crianças e consumidores interessados em experiências mais casuais.
Com um resultado expressivo, o primeiro Switch, lançado em 2017, ultrapassou 157 milhões de unidades vendidas até setembro de 2026. Seu sucessor, o Switch 2, lançado em junho de 2025, já havia alcançado 26,35 milhões de unidades até a mesma data.
A diferença também aparece na relação entre console e jogo. Em muitos mercados, o Wii chegava acompanhado de "Wii Sports", que funcionava quase como uma apresentação obrigatória daquilo que o aparelho poderia oferecer. Hoje, o consumidor pode comprar um Switch 2 com "Mario Kart World", escolher outros pacotes ou adquirir apenas o console. Também encontra jogos gratuitos na loja digital e pode acessar catálogos de títulos antigos por meio da assinatura Nintendo Switch Online.
O videogame já chega com um ecossistema de entretenimento estabelecido. Não depende de um único jogo para mostrar ao consumidor o que fazer com o aparelho.
É uma mudança importante. Em 2006, "Wii Sports" ajudava a vender o Wii. Em 2026, "Nintendo Switch Sports Resort" chega a uma plataforma que já possui identidade própria e uma biblioteca diversificada.
O que mudou dentro da quadra
Essa transformação também aparece no próprio jogo. "Nintendo Switch Sports Resort" reúne 12 modalidades, combinando esportes tradicionais, atividades que retornam de títulos anteriores e novidades.
Entre as opções estão tênis, boliche, basquete, golfe, voleibol, boxe, tênis de mesa, tiro com arco, luta de polegares, skate, motonáutica e avião a hélice.
A variedade permite alternar entre atividades mais conhecidas e experiências diferentes. O retorno à Ilha Wuhu também amplia a proposta, com possibilidades de exploração pelo ambiente, passeios e atividades individuais.
O skate chama atenção pelo uso do modo mouse dos Joy-Con 2, enquanto a motonáutica e o avião a hélice aproveitam os controles de movimento para oferecer experiências diferentes das partidas esportivas tradicionais.
Outra novidade é a luta de polegares, modalidade que aposta em uma disputa inusitada e descontraída. É o tipo de atividade que combina com a proposta da franquia de transformar situações simples em competições entre amigos.
A lista também mostra que a Nintendo não tentou simplesmente reproduzir tudo o que já apareceu nos jogos anteriores. Futebol, badminton e Chambara, por exemplo, presentes em "Nintendo Switch Sports", não retornam. Modalidades de "Wii Sports Resort", como frisbee, ciclismo e wakeboard, também ficaram de fora.
A ausência pode fazer falta para quem acompanhou a franquia desde o Wii, mas o novo jogo procura construir sua própria seleção de atividades, sem necessariamente funcionar como uma coletânea de toda a história da série.
Diversão que não precisa de explicação
Se existe uma característica que permanece intacta depois de duas décadas, é a facilidade de reunir pessoas em torno de uma partida. Foi o que mais me chamou a atenção durante os testes.
O tênis é o exemplo mais evidente. A resposta dos controles é intuitiva e a curva de aprendizado praticamente desaparece. Não é preciso interromper a diversão para explicar uma sequência de comandos. Basta mostrar o movimento e deixar que cada participante encontre seu próprio jeito de jogar.
É uma qualidade que parece simples, mas faz diferença. Em muitos videogames, a diversão depende de conhecer personagens, entender regras, dominar controles ou dedicar algum tempo ao aprendizado. Aqui, a proposta é justamente reduzir essas barreiras.
O jogo também resgata uma característica que fez "Wii Sports" se tornar tão popular: a experiência compartilhada. As partidas ganham outro significado quando há alguém do outro lado da sala esperando a oportunidade de devolver uma bola ou comemorar um ponto inesperado.
Isso não significa que o jogo tenha o mesmo potencial de impacto cultural do antecessor. Na verdade, talvez seja o contrário. "Nintendo Switch Sports Resort" oferece uma experiência mais ampla e aproveita melhor as possibilidades de uma plataforma moderna, mas chega em um momento em que esse tipo de interação já não representa uma novidade para o público.
A Nintendo não precisa mais convencer alguém a comprar um console para experimentar o controle por movimento. O Switch 2 oferece diferentes formas de jogar, e essa funcionalidade é apenas uma entre várias possibilidades.
Um retrato de 20 anos da Nintendo
"Nintendo Switch Sports Resort" é, ao mesmo tempo, uma experiência de nostalgia e um retrato das mudanças da indústria. A franquia acompanhou a tentativa da empresa de ampliar o público dos videogames, atravessou o período de dificuldades do Wii U e chegou a uma geração em que a Nintendo já não depende exclusivamente do consumidor casual para sustentar suas plataformas.
Talvez por isso a comparação entre os jogos de 2006 e 2026 seja tão interessante. "Wii Sports" ajudou a apresentar uma nova maneira de jogar e aproximou pessoas que não se consideravam parte do universo dos videogames. O novo Resort não precisa cumprir essa mesma missão. Sua função é oferecer uma experiência divertida dentro de um console que já conquistou seu espaço no mercado.
E, nesse aspecto, ele consegue entregar algo muito valioso. Não precisa ser um jogador experiente, conhecer as franquias da Nintendo ou acompanhar as novidades da indústria para aproveitar uma partida. Basta ter alguém disposto a pegar um controle e entrar na brincadeira.
É provável que o novo jogo nunca provoque o mesmo impacto que "Wii Sports" teve há 20 anos. Mas isso não significa que a proposta tenha perdido o sentido. Pelo contrário, em uma época em que temos tantas opções de entretenimento disponíveis, conseguir reunir amigos e familiares em torno de uma atividade simples continua sendo um mérito.
No fim das contas, uma coisa é fazer alguém comprar um videogame pela primeira vez. Outra é fazer alguém que quase nunca joga querer pegar um controle novamente.
E, para aquela reunião que está precisando de uma animada, "Nintendo Switch Sports Resort" continua sendo uma aposta certeira.
Pontos positivos
-
Diversão imediata: controles intuitivos e modalidades fáceis de aprender, mesmo para quem não costuma jogar videogame.
-
Multiplayer envolvente: excelente experiência para reunir amigos e familiares, com partidas que rendem boas disputas e momentos engraçados.
-
Variedade de modalidades: 12 esportes que combinam clássicos da franquia e novas experiências.
-
Aproveitamento do Switch 2: uso criativo dos sensores de movimento e do modo mouse dos Joy-Con 2.
-
Nostalgia bem aproveitada: o retorno à Ilha Wuhu recupera uma das identidades mais marcantes da franquia.
-
Mais possibilidades de jogo: atividades e desafios individuais ampliam o conteúdo para além das partidas entre amigos.
Pontos negativos
-
Ausência de modalidades clássicas: esportes queridos dos jogos anteriores ficaram de fora, como futebol, badminton, frisbee e ciclismo.
-
Nem todos os esportes têm o mesmo apelo: algumas modalidades são mais interessantes e divertidas do que outras.
-
Pouca inovação na proposta central: a fórmula continua bastante familiar para quem acompanhou a franquia desde o Wii.
-
Dependência da experiência coletiva: embora existam atividades individuais, o jogo encontra sua melhor versão quando compartilhado com outras pessoas.
Diversão que atravessa gerações
"Nintendo Switch Sports Resort" é uma excelente experiência para jogar acompanhado. A simplicidade dos controles, a variedade de modalidades e o retorno à Ilha Wuhu fazem do título uma evolução consistente da franquia. Mesmo sem repetir o impacto cultural de "Wii Sports", entrega diversão de sobra para quem procura um jogo capaz de reunir diferentes gerações em torno do videogame.
Nota final: 9/10 – Excelente
Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia
